Segunda, 28 de Agosto de 2017 - 11:00

Álvaro Dias

por Fernando Duarte / Luana Ribeiro | Fotos: Cláudia Cardozo/ Bahia Notícias

Álvaro Dias
Foto: Cláudia Cardozo / Bahia Notícias

Pré-candidato à Presidência da República em 2018 - chegou a se filiar ao Podemos (antigo PTN) já neste intuito, com uma declarada tomada de posição no cenário eleitoral -, o senador Álvaro Dias (PR) defende que o próximo nome a assumir a cadeira no Palácio do Planalto deve ter duas características: experiência política e ações de combate à corrupção. "Porque há experiência administrativa, eu fui governador - aliás, na mais perversa crise financeira da história da administração pública brasileira, com inflação de mais de 80% ao mês. Era impossível planejar para semana seguinte.. Nós terminamos o governo com 93% de aprovação, segundo o Datafolha", aponta. Apesar do bom prognóstico no Paraná, o congressista ainda patina nos últimos lugares, pontuando sempre menos de 5%. ?Dias, no entanto, não desanima frente aos dois postulantes que dominam a disputa: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o deputado federal Jair Bolsonaro (sem partido-RJ). "Elas não dizem respeito ao futuro, dizem respeito ao passado. Elas valem para medir a rejeição dos políticos. Elas não servem para medir intenção de voto, as possibilidades de favoritismo. É dessa forma que eu interpreto", avalia, citando experiências em Volta Redonda (RJ), com um candidato que apoiou. Diante da reforma política, o senador não se posicionou claramente sobre o distritão, que diz ter "pontos pró e pontos contra", mas se disse categoricamente contrário à possibilidade de candidatura para mais de um cargo eletivo. "Fica a impressão que estão buscando foro privilegiado a qualquer preço, e portanto eu não concordo".

 

Após uma carreira política expressiva, o senhor anunciou que pretende concorrer à Presidência da República. Podemos dizer que a migração entre legendas foi parte da construção dessa candidatura?

Quando ingressei no Podemos, o fiz com a intenção de contribuir na construção de um partido diferente. As mudanças que ocorreram na minha trajetória política eu reputo que não foram mudança de partidos e sim de siglas. Na realidade já estava procurando um partido político e não encontrava. E, principalmente, a corrupção me afastava das siglas onde me encontrava, e acabei chegando nesse momento: os partidos estão arrasados pela Operação Lava Jato. Recebi um convite da deputada Renata Abreu para participar com ela desse chamado "partido-movimento", que surgiu na Europa, procurando fazer a leitura correta de quais são as prioridades da população, para interpretá-las. Quando houve o lançamento do partido em Brasília, no dia 1º de junho, houve também uma convocação para que eu disputasse a Presidência. Nada mais justo que o partido assuma a responsabilidade de apresentar um projeto alternativo. Se prega, tem a obrigação de executar. Não basta ter ideias, propostas, é preciso executá-las. O partido colocou meu nome e eu realmente acabei assumindo essa responsabilidade. Estamos na estrada.

 

O senhor foi eleito senador pelo PSDB, passou para o PV, e atualmente está no Podemos. Como a passagem por outras siglas podem influenciar no processo de candidatura?

Na verdade, o que influencia mesmo é essa mudança que quer a sociedade. Eu acho que nós estamos em um processo de mudança no país, bancado pela Operação Lava Jato. Entendo que a Operação Lava Jato mudou o cenário. Não só eleitoral, essa mudança começou nas ruas com a população e foi para instituições essenciais: o Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça Eleitoral. Estou procurando fazer essa leitura, por isso esse movimento. Isso é que influencia. Há um sentimento de mudança, e o Brasil é realmente um país em espera de reformas. Esse sentimento de mudança é irreversível, e esses ventos da mudança não chegaram à política ainda. Mas chegarão, empurrados pelo desejo da sociedade. Aqueles que não mudarem serão atropelados. Então o novo comportamento, as mudanças da política, essa leitura que estamos fazendo... Se nós vamos ser bem sucedidos, se teremos capacidade de convencer as pessoas que esse é o caminho, o tempo dirá. Mas nós temos que fazer a tentativa. 

 

Até o momento, as pesquisas apontam que o ex-presidente Lula lidera os cenários para 2018. Quando ele sai da disputa - é possível, já que ele está na iminência de uma condenação em segunda instância - aparece a liderança de Jair Bolsonaro. Como o senhor pretende construir uma candidatura competitiva para o próximo ano com esses dois cenários? 

Eu penso, modestamente evidente, e conheço outros que pensam igual - inclusive especialistas em marketing, em pesquisas de opinião pública dizem - que essas pesquisas não têm valor nenhum em relação ao futuro. Elas não dizem respeito ao futuro, dizem respeito ao passado. Elas valem para medir a rejeição dos políticos. Elas não servem para medir intenção de voto, as possibilidades de favoritismo. É dessa forma que eu interpreto. Acho que está tudo aberto. Na eleição municipal, você ter deve ter acompanhado, tivemos casos surpreendentes. Volta Redonda é um município grande do Rio de Janeiro, o candidato do PV que eu apoiei, estive lá com ele, começou com 0,75%. Ninguém acreditava na eleição dele, ele gastou na campanha toda, nos dois turnos R$ 100 mil. Conseguiu ir para o segundo turno, no último debate ele conseguiu ir para o segundo turno. E no segundo turno todos os partidos ficaram do lado de lá, e ele ficou do lado de cá sozinho. E ganhou a eleição. Tivemos outros fenômenos semelhantes, Contagem [MG], para dar outro exemplo. Então 2018 será similar. Será muito parecida com a eleição para presidente de 1989, quando a as estruturas partidárias não tiveram poder. O que prevaleceu foi a trajetória política ou  a imagem que se conseguiu transferir para a sociedade. A postura, o conteúdo, enfim, o perfil. Hoje o que dizem as pesquisas é que o eleitor quer um candidato que tenha coragem de combater a corrupção e experiência administrativa. Esse é o perfil do candidato hoje. Então é preciso ver em que serve esse figurino. E isso só será possível durante a campanha eleitoral. 

 

Em 2014, a gente viveu uma dicotomia muito clara entre PT e PSDB, que se arrasta já há alguns anos. Em 2014, foi bem difícil. O senhor se coloca como alternativa a essa dicotomia. Por que que o senhor merece espaço, merece ser ouvido?

Constantemente afirma-se: " o povo não sabe votar". Precisamos rever esse conceito. Será que é o povo que não sabe votar? Ou os partidos que não sabem apresentar alternativas para que a escolha seja adequada? Então nós temos que apresentar alternativas. No meu caso, há uma convocação partidária. Por quê? Porque há experiência administrativa, eu fui governador -- aliás, na mais perversa crise financeira da história da administração pública brasileira, com inflação de mais de 80% ao mês. Era impossível planejar para semana seguinte.. Nós terminamos o governo com 93% de aprovação, segundo o Datafolha. E todas as pesquisas, durante os quatro anos, sempre como o melhor governador avaliado no país. Houve essa experiência administrativa bem sucedida. E o combate à corrupção foi a tônica da nossa atividade parlamentar durante muitos anos. Aliás, nós publicamos agora uma separata dos dez mil dias de combate à corrupção. Eu sempre fui oposição. Eu só fui governo quando governei  o Paraná, não podia ser oposição a mim mesmo. E depois, seis meses, no segundo mandato do presidente Fernando Henrique, quando voltei ao Senado: até agosto, eu era do PSDB, fiquei apoiando o governo. Em agosto, eu rompi. Depois veio até o momento de expulsão do partido, porque esse é um compromisso meu de combate à corrupção, e de ser coerente em relação a isso. E houve um pedido de CPI para investigar o governo e eu assinei. Não podia contrariar o meu histórico. E aí o partido me colocou para fora. Eu não quis brigar e acabei saindo, e de lá para cá eu venho sendo oposição, fazendo o caminho inverso da maioria. Porque quando Lula se elegeu eu estava no PSDB; saí, fui para o PDT, e o PDT foi para o governo. Quando o PDT foi para o governo, saí do PDT e voltei para o PSDB. Eu fiz o caminho inverso. Quando Lula assumiu o governo e construiu uma equipe, eu olhei e disse " não vai dar certo". E aí eu fui para a oposição. O PSDB me convidou e eu retornei. Essa trajetória, eu imagino, me credencia a concorrer. Evidentemente, aceitarei o resultado. Mas me sinto com a responsabilidade de oferecer uma alternativa, um projeto alternativo. É o que nós pretendemos fazer. Vamos discutir o sistema de governança atual. Acho que esse é o básico, é ponto de partida para as mudanças. A reforma do Estado, substituir esse sistema de governança por outro. Porque esse se denomina balcão de negócios, e repeti essa denominação inúmeras vezes nestes anos; matrizes de governos corruptos, incompetentes, grandes escândalos. Esse foi o meu discurso sempre. Então chegou a hora de substituir esse sistema. E é a minha prioridade sendo candidato, vou propor essa ruptura, a substituição deste sistema. 

 

O país vive um momento de profundo desgaste com a política. Como um político experiente avalia essas críticas ao meio no qual está inserido? 

Eu tenho que dar razão às críticas, apenas fazemos o apelo para que não ocorra a generalização. Que se procure distinguir um dos outros, separando o joio do trigo. É inevitável: a organização política, na democracia, exige a presença de políticos. Então não há como extingui-los. É preciso, com inteligência, que a população saiba como separar o joio do trigo. Há poucos dias fui receber uma homenagem da Polícia Federal lá em Minas Gerais, uma comenda. O representante dos policiais federais fez um discurso e disse: "A política está podre. Mas nós temos que separar o joio do trigo, a comenda é para demonstrar que ainda existe trigo". Ainda existe trigo nesta lavoura da política, não é só joio. Meu pai, certa vez, disse isso quando eu estava sendo expulso do PSDB. Ele disse: "Olha meu filho não fique triste não. Quando o joio é demais é mais fácil arrancar o trigo". Então hoje o joio é demais. Mas nós temos que preservar o trigo, e tentar arrasar com o joio, jogar aqueles que representam o joio fora da política, através do voto nas eleições do ano que vem. 

 

Durante o impeachment da presidente Dilma Rousseff, o senhor manteve postura crítica a ela. Após a ascensão de Michel Temer, manteve o tom crítico. Qual o caminho para o Brasil atravessar essa crise política? 

A minha postura é de coerência: se eu criticava Dilma, tenho que criticar Temer. Porque são filhos do mesmo sistema, ou reféns do mesmo monstro gerado pelo Estado promíscuo, corrupto. E não há como separar um do outro; à época, defendi o impeachment completo, presidente e vice. Denunciei ao Tribunal de Contas que Temer havia também praticado pedaladas, e portanto cabia o impeachment de ambos. Infelizmente a oposição não procedeu desta forma, senão teríamos eleições diretas na época, se o impeachment fosse completo. Agora, há que se conviver. O Congresso rejeitou a denúncia do procurador [geral da República, Rodrigo Janot], não instaurou o processo de impeachment requerido pela OAB, por exemplo. Só resta conviver com o país sangrando; um presidente [que é] uma espécie de cadáver político, insepulto, administrando sua permanência no poder, buscando a melhor estratégia para preservar o mandato. E o país sangrando. As reformas essenciais não ocorrem; ocorrem com problemas, com equívocos, como recentement a reforma trabalhist. E nós temos que sobreviver durante esse período de transição, apostar em uma eleição feliz, em uma escolha feliz, para que o país possa voltar a trilhar um caminho do desenvolvimento.

 

A reforma política em pauta, está na Câmara ainda, e traz alguns pontos polêmicos: o distritão, possibilidade de candidatura há mais de um cargo, aquele fundo bilionário. Qual o seu posicionamento, e o do Podemos, sobre isso?

Eu me recuso a aceitar como reforma política, acho que é uma ofensa. Nem como apelido serve. Acho que é um arranjo, favorece a eleição de alguns especialmente, preserva os interesses dos atuais, talvez até em detrimento dos dos que tentam chegar em um processo de renovação sinalizado pela Operação Lava Jato. Eu não concordo com o fundo, acho que nessa hora soa como escárnio; com a crise, o governo em um déficit brutal, dívida subindo no teto. Então não há como justificar. Temos que ter uma campanha modesta mesmo, mais do que franciscana, miserável financeiramente. Há que se adotar mecanismos de doação, sem burocracia, por exemplo, através da internet, como se faz nos Estados Unidos. As doações menores não precisam ser declaradas, acho que deve se estabelecer um limite para as doações pessoais. Alguém que doa R$ 10 tem de ir a agência bancária para depositar na conta do candidato? Porque não pode, através do celular, do cartão de crédito, creditar um valor tão insignificante, R$ 10, R$ 20, R$50. Seria uma forma honesta de arrecadação e financiamento da campanha. Mas de qualquer maneira, o mesmo sistema que prevaleceu na eleição municipal e sobreviveu; os candidatos, eleitos ou não, desfrutaram da eleição. Nós temos que fazer essa experiência também. Porque falar em financiamento de campanha agora é prematuro, uma vez que nós não temos partidos, são siglas. Aliás, alguns denominados partidos foram considerados organizações criminosas, lavanderia de dinheiro sujo. Então, em um ambiente poluído como este, você falar em financiamento público obviamente provoca uma revolta na população. Da minha parte eu descartaria. O distritão tem pontos pró e pontos contra. Estão falando do distritão light, que seria voto de legenda; o distritão acompanhado do voto de legenda. O que eu não concordo mesmo é com essa possibilidade de se incluir o mesmo candidato com várias alternativas para se salvar. Fica a impressão que estão buscando foro privilegiado a qualquer preço, e portanto eu não concordo. Acho que uma reforma política de verdade, o próximo Congresso, se nós elegemos um presidente que tenha o espírito da mudança, que assuma essa responsabilidade de mudar, por que é presidencialismo forte. As grandes reformas só ocorrem se o presidente assume a coordenação do processo. E a reforma política tem que ter o presidente da República liderando. Eu apregoo que o presidente deve convocar um grupo de especialistas para elaborar um pré-projeto, longe do corporativismo, para submeter depois ao Congresso, com o presidente subscrevendo. Aí o Congresso debate, oferecendo ao país um modelo político mais compatível com as exigências de hoje. 

 

Como é estar no Senado com diversos companheiros de Casa denunciados ou investigados pela Operação Lava Jato? 

É desconfortável, e compromete inclusive a atuação. Eu confesso que, de minha parte, houve um recuo da minha atividade parlamentar, exatamente pela dificuldade de convivência, pelo desconforto que há. O Congresso está descaracterizado e sem autoridade política para ver uma produção legislativa competente. Eu não vejo como produzir uma legislação competente em um cenário como esse. Então nós ficamos aguardando o tempo passar, na esperança de que o próximo Congresso possa ter mais autoridade política para promover as mudanças necessárias na legislação.

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