Segunda, 14 de Outubro de 2013 - 15:45

José Sérgio Gabrielli

por Evilásio Júnior, Sandro Badaró e David Mendes | Fotos: Bahia Notícias

José Sérgio Gabrielli
Há um ano e meio à frente de uma das mais importantes pastas do atual governo da Bahia, responsável pelo planejamento das políticas de desenvolvimento do estado, José Sérgio Gabrielli, entrevistado da semana no Bahia Notícias, corre contra o tempo para tentar emplacar a sua candidatura na disputa pelo cargo que será deixado pelo seu correligionário, o governador Jaques Wagner (PT). Para tanto, ele admite contar com o apoio de figuras históricas do partido, a exemplo do ex-presidente Lula e o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, condenado no processo do mensalão. "É verdade, mas isso não quer dizer que será eu, ou eles não apoiarão ninguém. Não é verdade que eles vão dizer: 'ou é Gabrielli, ou não é ninguém'", reconhece. Apesar de ter retornardo ao estado em fevereiro de 2012, após comandar a maior estatal do país por nove anos, ele diz que sempre esteve no centro das discussões e no encaminhamento dos grandes temas e das transformações políticas do estado. “Claro que passar nove anos fora leva a você ficar um pouco distante do eleitorado. (...) Eu não acredito que esse afastamento de nove anos no dia-a-dia da Bahia tira a minha característica e a minha natureza baiana, aliás, baiano nascido em Salvador”, destacou. No bate-papo, Gabrielli fala da atual disputa interna do partido para a escolha do nome petista que vai disputar a cadeira que será deixada por Wagner. “É um nome do PT. Evidentemente terá que ser aceito pelos aliados, mais uma razão para acelerar a decisão do PT, porque se o PT não toma decisão, os aliados não podem tomar decisão. Ninguém toma uma decisão só com o partido, precisa saber quem é o candidato”, avaliou. Segundo ele, a escolha tem que ser baseada, principalmente, no possível quadro eleitoral que já começa a ser desenhado e sugere: “O PT tem que apresentar um nome que enfrente uma realidade. (...) E quem decide isso? Não pode ser só o governador. O governador é o comandante, mas não pode ser ele só", alerta.




Bahia Notícias - Aos 64 anos, após presidir a Petrobras, por que querer ser o governador da Bahia?

Sergio Gabrielli - 50 anos de militância. Eu comecei a minha militância política em 1964. Fui dirigente da Abes, a Associação Baiana de Estudantes Secundaristas, no Colégio Severino Vieira, contra o governo militar. Portanto, desde os 16 anos de idade eu tenho uma luta pela transformação da sociedade brasileira. Tive luta de várias maneiras. Militância secundarista, depois entrei para a universidade e fui vice-presidente do DCE, eleito na véspera do AI-5, depois fui perseguido pelo golpe militar, participei da transformação da Ação Popular em Ação Popular Marxista-Leninista, fui preso, saí do país, vivi fora sem receber um centavo do Brasil por quatro anos, voltei com a anistia, trabalhei no pós-anistia no MDB Jovem, depois fui fundador do Partido dos Trabalhadores, fui da sua primeira direção executiva, fui candidato a deputado federal em 1982, fui candidato a vice-prefeito de Salvador em 1988, fui candidato a governador da Bahia em 1990, participei de todas as discussões de programas do PT e da coordenação de campanha de Lula em várias posições em 1989, 1993 e 1997. Fui presidente do Instituto dos Economistas do Brasil, da Bahia, fui da direção nacional da Andes – Associação Nacional de Docentes do Ensino Superior. Querer ser governador da Bahia é parte desse processo, um processo de avançar na transformação da sociedade. 


BN – Dentro do perfil do pré-candidato Gabrielli, como ponto positivo, o senhor foi presidente da Petrobras, mas o ponto negativo é que o senhor passou algum tempo afastado da Bahia e hoje seria um pouco desconhecido do eleitor baiano. Como isso pode pesar?

 
SG – Passei nove anos fora da Bahia, de 2003 a 2012, mas envolvido com as questões políticas e, claramente, envolvido em todo o projeto do presidente Lula e da presidenta Dilma. Estava no centro das grandes discussões e no encaminhamento dos grandes temas e das transformações políticas do estado. Claro que passar nove anos fora leva a você ficar um pouco distante do eleitorado. A última eleição que eu disputei foi em 1990. Evidentemente que a questão eleitoral pesa, agora, existem duas situações importantes. Primeiro, o PT está organizado em 417 dos 417 municípios do estado. Segundo, o PT tem hoje, claramente, uma penetração institucional nas prefeituras do estado muito maior. O PT tem 92 prefeituras, no total. Terceiro, o PT tem uma expressão político-social, não só eleitoral-institucional, bastante intensa. Eu não concordo com a ideia de que o PT está longe dos movimentos sociais. O PT ampliou sua atuação nos movimentos sociais de forma muito mais diversificada e integrada com diferentes movimentos. Talvez tenha diminuído o papel dele enquanto, tradicionalmente, condutor de determinados movimentos. E está menos na frente dos movimentos contestatórios do governo, obviamente, porque o PT é governo. Mas, que está longe dos movimentos, não. O PT nunca teve tantos dirigentes sindicais, no movimento dos trabalhadores rurais, da juventude, das mulheres, dos gays, dos novos direitos, de pessoas com necessidades especiais, contra a discriminação racial, movimentos culturais. Então, a militância do PT social é muito grande. Do ponto de vista da máquina partidária, eu diria que no passado não teria essa máquina, e hoje tem. A eleição do PED [Processo de Eleição Direta do PT] é uma eleição com 42 mil aptos a votar na Bahia, ou seja, uma militância grande na Bahia. Por outro lado, do ponto de vista mais geral, a mídia eletrônica – os blogs, as televisões, o acesso a computadores e a informações fora da imprensa escrita – é hoje um fenômeno muito diferente do que era no passado. Por outro lado, a campanha eleitoral, do ponto de vista massivo, do eleitor em geral, vai começar em junho, julho do ano que vem. A decisão do eleitor começará a ser tomada no ano que vem. Então, eu não acredito que esse afastamento de nove anos no dia-a-dia da Bahia tira a minha característica e a minha natureza baiana. Aliás, baiano nascido em Salvador. 
BN – O presidente Jonas Paulo já admitiu que o nome pode ser lançado até o final do ano. Mas, toda hora aparece um boato. Então, quem de fato no PT está com Zé?

SG – A comissão definiu um rumo de aceleração do processo decisório. Nesses próximos, 30, 40, 50 dias o PT tomará decisões. E por que o PT tomará essas decisões? Porque a conjuntura está caminhando para uma caracterização de uma candidatura de oposição ao governo; outra, não de oposição, mas de origem na base de governo que caminha no rumo de definição de um espaço próprio ligado a alternativa Maria-Eduardo Campos; e uma situação do candidato do governador e do PT, que tem quatro pré-candidatos, e como o governador Wagner mesmo disse, quem tem quatro pré-candidatos não tem candidato. Então, precisa-se caminhar para a definição de um candidato único.


BN – Os partidos aliados não indicaram o nome. O nome é petista? Isso está decretado?

 
SG – A posição unânime do PT é essa. A posição do Partido dos Trabalhadores e de todas as suas forças, em duas reuniões sucessivas do diretório estadual do partido, é essa.
 
BN – A de Wagner também?

 
SG – A de Wagner também. A sucessão do governador Jaques Wagner é um nome do PT. Evidentemente terá que ser aceito pelos aliados, mais uma razão para acelerar a decisão do PT, porque se o PT não toma decisão, os aliados não podem tomar decisão. Ninguém toma uma decisão só com o partido, precisa saber quem é o candidato. Nesse quadro, o PT tem que apresentar um nome que enfrente uma realidade que tem um nome de oposição, forte, e uma candidata que não é de oposição, mas que tem se diferenciado. Então, qual o quadro do PT para isso? É escolher um nome que seja capaz de fazer isso, que aglutine os aliados, que seja um candidato que mobilize a base do partido, porque se a base do partido não estiver mobilizada com dois candidatos fortes, isso é um problema. Simplesmente um processo normal de eleição, onde a máquina do governo tem um papel, o marketing tem o papel, se não tiver a militância do PT você pode ter dificuldade. Tem que ter uma unidade interna capaz de culminar a campanha para os proporcionais com a majoritária e que tenha capacidade de aglutinar essas forças sociais todas. O perfil tem que ser um pouco isso. E quem decide isso? Não pode ser só o governador. O governador é o comandante, mas não pode ser ele só. E ele está muito consciente de que o candidato dele tem que ser o candidato do PT, dos aliados, que tenha viabilidade eleitoral. Então, o governador e o PT têm que conversar. Os aliados têm que conversar e todo esse processo será intensificado agora. Vai ter reunião com as bancadas estadual e federal, reunião com os prefeitos do PT, reunião com representantes de diretórios do PT, com os líderes setoriais do PT e, portanto, terá um processo acelerado de determinação de posições internas do partido. O partido vai precisar conversar com os presidentes dos outros partidos para poder ter a posição dos aliados. E o partido precisa fazer um pesquisa qualitativa interna que permita definir qual o rumo e característica desse candidato. Nesse processo, algumas lideranças e segmentos do partido tomarão posições. Parte da articulação sindical já tomou posição, alguns deputados já tomaram posição, algumas tendências internas do partido já tomaram posição, alguns candidatos à presidência do partido já tomaram posição. São posições de indicações preliminares do nome, não quer dizer que ‘ou é fulano ou não será ninguém’. Todos nós somos concordes de que não vai ter prévia, que o processo é convergente, que é uma escolha de melhor perfil e, portanto, a maturidade do partido vai permitir que a gente faça uma escolha dentro dos próximos 45 dias.

 
 
BN – Quem está bancando Gabrielli no partido?
 
SG – Eu tenho um apoio na base do partido bastante grande. Evidentemente que é muito difícil dizer isso com números, porque não tem votação, não vai ter prévia. Isso é mais uma questão de sentimento. Com exceção de um encontro regional, porque estava doente, eu participei de todos os encontros e senti um grande apoio. Do ponto de vista das lideranças partidárias, eu diria que hoje eu tenho o apoio de alguns deputados federais e estaduais e de alguns prefeitos, que eu preferia não falar os nomes deles e esperar que eles mesmos falem.

 
BN – E aquela história de que Gabrielli tem o apoio de Lula e José Dirceu é verdade?

 
SG –  É verdade, mas isso não quer dizer que será eu, ou eles não apoiarão ninguém. Isso não está na natureza do partido ter essa posição. Evidentemente que eu tenho o apoio de grandes lideranças históricas do partido, mas nenhum dirigente relevante ou importante do partido vai dizer 'é Gabrielli, ou não será ninguém'. Lula e Wagner não vão chegar a esse confronto. Os dois vão acordar. Por mais que se queira, não chegará a ter uma prévia sobre a opinião de Lula contra a opinião de Wagner. Ou ainda a direção nacional intervir contra a posição do governador, porque eu quero que o governador me apoie.

 
BN – E se não apoiar?

 
SG – Se o partido quiser que seja outro nome, será outro nome. Esse conflito entre o PT e o governador também não acontecerá. O processo é de tamanha maturidade que nós chegaremos a uma conclusão para o melhor nome. Por quê? Porque nós temos dois adversários grandes disputando. Um da oposição, que pode ser Geddel ou Paulo Souto, e Lídice, que são candidatos respeitáveis, importantes e poderosos. E nós temos que ter um candidato que seja melhor para ir ao confronto com esses dois.

 
BN  E o que falta para sair desse 0 a 0 dentro do PT?

 
SG – Precisa de tempo para conversar. Tem muita conversa a rolar ainda. O dia 10 de novembro será um dia muito importante para o partido. São 42 mil que irão se manifestar. As chapas estão definidas, mas não estão relacionadas com os quatro pré-candidatos, que estão todos na mesma chapa. No meu caso, por exemplo, eu estou na chapa de Everaldo [da Anunciação] e os outros quatro candidatos me apoiam, mas não quer dizer que eu tenho o apoio. Então, a eleição do PED não tem uma relação direta com a escolha do candidato, mas é um processo importante no partido, porque vai definir os dirigentes do PT para os próximos quatro anos. E vai definir isso com 50% de mulheres, 20% de jovens e 20% de negros. Consequentemente, é uma redefinição da direção do partido, que vai conduzir o PT, maior partido do estado, por quatro anos. Portanto, vai conduzir o processo eleitoral em 2014, em 2016 e vai conduzir toda a relação do PT com os movimentos sociais nos próximos quatro anos. Isso não é um dado politicamente irrelevante, mas um dado extremamente importante.

 
BN  Hoje, então, estaria 33% para Gabrielli, 33% para Pinheiro e 33% para Rui Costa?

 
SG – Hoje não tem nenhuma divisão que eu possa fazer em termos numéricos. Existem perfis e posições diferentes. Ou seja, no PT tem uns que acham mais importante uma pessoa mais próxima ao que o governo fez, outra que seja mais próxima à base do partido, outra que tenha perfil eleitoral e outra que tenha um perfil mais municipalista. Então, são quatro perfis diferentes.


BN – Então, Caetano não estaria fora?

 
SG – Eu acho que Caetano está dentro entre os quatro.

 
BN – O deputado Rosemberg, um dos que já declararam publicamente o apoio ao senhor, afirmou que Lula apoia o senhor, que Wagner quer Rui Costa, e deixou a entender que a presidente da República também o apoia, por Dilma ter dito a Lula que ele articulará os estados e que é o representante do partido nacionalmente, junto com Rui Falcão, para articular tudo isso. Comenta-se que na sua saída da Petrobras existiu um acordo para que o senhor fosse candidato a governador na Bahia. Existiu esse acordo?

 
SG – Que eu fosse candidato a governador, Lula não seria irresponsável a fazer isso, porque ninguém pode dizer em fevereiro de 2012 que você vai definir quem seria o candidato a governador em novembro de 2013. Isso é inviável. Agora, eu tinha várias opções ao sair da Petrobras. Poderia ir para vários lugares. Vim para Bahia para participar do governo, participar de uma equipe montada. Evidentemente que, ao fazer esse movimento, também se criava uma reaproximação minha com a base do partido e com o eleitorado de Salvador e, portanto, poderia se criar, claramente, um processo de validação e consolidação de uma candidatura para a sucessão do governador Jaques Wagner. Isso foi conversado. Agora, eu não poderia vir já como candidato, porque seria inviável ter essa visão em fevereiro de 2012 para a eleição de 2014. Eu vim para cá para ajudar a equipe do governador Jaques Wagner, para trabalhar com isso, reaproximar minha militância diária com a base do partido, com os aliados, com as lideranças políticas, com os eleitores e colocar o nome na possibilidade de ser um candidato. O diretório do PT colocou o meu nome como pré-candidato há seis meses. Eu cheguei aqui em fevereiro do ano passado.


BN – Lula e Dilma hoje estão com Zé e Wagner com Rui Costa?

 
SG – Eu duvido que Lula, Dilma e Rui Falcão tenham um candidato, porque eles não têm um porque para se ter um candidato.


BN  Têm simpatia por um candidato, então?

 
SG – Sim, mas não tem candidato. Eles não podem ter um candidato para dizer: 'é este o meu candidato' e ser derrotado caso não seja esse. Um dirigente não vai fazer isso. Ele pode ter simpatia. O que aconteceu na minha última conversa com Lula? Pesa o quadro político aqui. Não podia pedir para tirar uma candidatura. Ele sabe que tem uma tensão, na medida em que se tem quatro candidatos, e os quatro não vão para disputa fratricida, porque estamos acordados de que não iremos para uma disputa fratricida, mas poderia se ter uma posição mais convergente a um candidato. Para facilitar as coisas, poderia retirar minha candidatura. Não aconteceu isso.


BN –  Mas dizem que chegou a ter ameaça dos outros candidatos Pinheiro, Gabrielli e Luiz Caetano devido ao fato de Wagner tentar impor Rui Costa, de retirar os nomes e deixar o candidato do governador apenas com parte do partido...

 
SG –  Na verdade, os quatro pré-candidatos concordam que esgotou-se a fase de termos quatro candidatos. Nós temos que caminhar para ter um candidato. Chegou o momento. Não será hoje, mas até novembro. A eleição é dia 10 de novembro. Nós não podemos passar de novembro sem candidato. 

 
BN - Mas chegou a ter ameaça nesse momento de tensão?

 
SG – Ninguém vai fazer ameaça sobre isso. Você tem, às vezes, o seguinte: 'olha, ter uma decisão já é melhor do que não ter uma decisão'. Eu posso não concordar que a melhor decisão seja essa, mas é melhor ter uma decisão do que não ter.

 
BN – Antecipar isso não facilita mais que Wagner emplaque o candidato Rui Costa e elimine os outros três? E, por outro lado, não desgasta o escolhido também, tanto tempo correndo atrás?

 
SG – Não. Se você perceber, os quatro pré-candidatos do PT não estão disparados nas pesquisas ou é o candidato natural, com o apoio amplo e unânime, porque, se tivesse, o problema estaria resolvido. Se tivesse uma força política, de força eleitoral consolidada, que dissesse: 'é esse o candidato!', seria outro quadro. E o governador sabe disso e é por isso que o governador não está dizendo 'meu candidato é fulano', porque ele sabe que ele é o grande líder desse processo.

 
BN – A pesquisa qualitativa é quem vai indicar o nome?

 
SG – A qualitativa e a opinião das pessoas, que estão conversando com todo mundo. Nós não estamos conversando só com a imprensa.

 


BN – O senhor destacou alguns pontos como de que Wagner e o PT precisam conversar, de que existe uma tensão, mas não se fala mais o nome de Wagner sem o de Rui Costa. O governo do Estado envia releases e os eventos têm Wagner e Rui Costa. Existe uma tensão do senhor com o governador?
 
SG – De jeito nenhum. Não existe nenhuma tensão com o governador Jaques Wagner. Conheço o governador há 30 anos. Fui da direção do PT com ele em 1981. Temos relações pessoais muito próximas.

 
BN  Mas discordam sobre como tudo isso tem sido conduzido?

 
SG – Não tem discordância do modo como está sendo conduzido. Simplesmente, ele tem que ter uma posição de acompanhar o que está acontecendo e ele vai. Eu confio na capacidade política dele de considerar que não basta a eventual posição preferencial dele. Ele vai considerar a eventual posição preferencial dele, mas vai considerar as implicações e vai fazer, juntamente com o PT e os aliados, a melhor escolha.
 
BN – E por que o senhor não tem participado dos eventos?

 
SG  Porque eu tenho tarefas a cumprir. Eu estou cuidando de projetos muitos complexos, como o da Ponte [Salvador-Itaparica], que é muito complicado, e o início das audiências públicas do zoneamento ecológico-econômico do estado, que começará agora em novembro. Acabei de cuidar do orçamento do ano que vem, estou cuidando da solução financeira do Estado. Fizemos todo um processo de treinamento para planejamento de PPA para os municípios: treinamos 285 municípios no estado. Estou conduzindo todo o processo de discussão sobre as estruturas de operação de crédito que o Estado está fazendo. Então, tenho coisas para fazer.

 
BN – Eu recebi o depoimento de uma pessoa próxima do governador, que me disse que ouvir dele que o senador Pinheiro é uma pessoa dura de os partidos aliados engolirem porque, a qualquer momento, poderia romper um acordo que poderia ter sido feito lá atrás. Caetano seria um franco atirador, e sua candidatura estaria descartada, e que Gabrielli, apesar de ter um peso nacional, enfrenta o problema da refinaria de Pasadena, no Texas, e que isso poderia ser explorado pela oposição, que já teria um dossiê. O senhor sabe dessa conversa interna de se ter uma resistência em lançar o nome de Gabrielli, com medo de uma campanha contrária com base no caso da refinaria? O que o senhor tem a explicar sobre isso e existe mesmo esse receio internamente do PT?

 
SG – Se tem não chegou até a mim.  E eu duvido que o governador tenha esse receio, porque eu, pelo menos, não tenho receio nenhum quanto a isso. Isso é tão fraco, que é um traque de massa, é uma bala que dá xabu. Não tem nada. O Tribunal de Contas passou 30 dias dentro da Petrobras, já fez relatório técnico, já voltou de novo para a Petrobras e não consegue dizer nada. O Ministério Público, a imprensa diz que tem um processo, só que esse processo nunca chegou a mim. Se existe esse processo, ele está correndo em sigilo e, sequer, o acusado sabe. Pode ser que tenha, mas eu não fui notificado. E eu sou uma pessoa fácil de ser localizada. Do ponto de vista técnico, eu fui ao Senado, fiz um depoimento longo, de três horas, transmitido pela TV Senado, que mostra, tecnicamente, como o negócio foi feito de forma correta, sem problemas. Agora, como negócio de risco, a conjuntura mudou com a crise de 2008, com a mudança de valor no negócio de petróleo de refinaria.

 
BN  Como explicar isso, resumidamente?  

 
SG – Você comprou uma refinaria. E por que você comprou uma refinaria nos Estados Unidos? Porque você aumentava a sua produção de petróleo. Ao aumentar a produção de petróleo, você tem dois destinos: ou você exporta o petróleo cru ou você refina o petróleo. Para você refinar o petróleo, você precisa ter o mercado para vender o derivado. O mercado brasileiro de 1998 a 2005 era estagnado, não crescia, em torno de 100 mil metros cúbicos por ano de consumo de gasolina, diesel. Antes de nós chegarmos, ainda na gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, a diretoria decidiu no seu plano de estratégia que precisava buscar uma refinaria no exterior e, naquela época, o melhor mercado era os Estados Unidos. Comprar refino nos Estados Unidos para refinar o petróleo brasileiro e vender nos Estados Unidos, já que o mercado brasileiro era estagnado. Então, a lógica econômica foi dada antes de a gente chegar na diretoria, e a nossa diretoria manteve a estratégia de buscar refino no exterior. Aí o mercado brasileiro começa a mudar. Em 2005, 2006 começa a crescer, resultados da política de expansão do [presidente] Lula, da melhoria do mercado interno, da expansão e crescimento da agricultura brasileira. Aí nós mudamos a estratégia dentro do Brasil, que foi: 'vamos começar a pensar em fazer refino no Brasil'. A primeira mudança foi essa, em 2005, 2006 e 2007. No mercado internacional, de 2004 a 2007 é o período de ouro do refino americano, porque nos Estados Unidos, também, a última nova refinaria é de 1976. Então, a margem do refino é muito flutuante. Entre 2005 e 2008, você teve vários negócios de refinarias, mas negócios de comprar refinarias existentes. Qual foi o valor médio das refinarias compradas nesse período? US$ 7,4 mil por barril de capacidade de destilação, ou seja, capacidade de transformar petróleo em derivado. A Petrobras comprou a refinaria de Pasadena por US$ 4,8 mil por barril de capacidade; US$ 486 milhões custou a compra de capacidade da refinaria. Aí vêm, com isto, estoques que você vende, que é capital de giro, você não pode somar as duas coisas, e vem a disputa com sócios, que tem todo o processo litigioso com o sócio, que tem advogado, multas e garantias bancárias que tem que pagar. Então, essa é que é a história que a oposição está querendo transformar: um negócio legítimo, mas que foi atropelado pela conjuntura de 2008. Em função disso, a afirmação de que isso deu prejuízo à Petrobras é absolutamente ingênua. Se é essa arma que a oposição tem, eu estou absolutamente tranquilo.


 


BN  Essa oposição tem um nome, que tem falado muito sobre isso, que é o deputado Antonio Imbassahy...

 
SG – Pois é, mas que depois que fui para o Senado, deixou de falar. E por que será? Pergunte a ele.

 
BN – Na sua avaliação, o porquê de ele fazer isso? Como são quatro pré-candidatos, por que a oposição focou em um, Gabrielli?

 
SG – Ninguém bate em cachorro morto, bate? Então, eu não sou cachorro morto.

 
BN – Vou insistir nesta tecla, porque, de fato, existe a preferência do governador Wagner por Rui Costa. Pegando o gancho do desentendimento na eleição municipal, em que Pelegrino perdeu a candidatura única da ex-vereadora Marta Rodrigues e se juntou a Walter Pinheiro para tentar derrubar uma articulação de J. Carlos e Rui Costa, isso poderia contaminar a eleição estadual e impactar na escolha do candidato do PT. Então, se Gabrielli se juntar com Pinheiro e Pelegrino ‘matou’ Rui Costa? Vocês têm essa noção? Já conversaram sobre isso?

 
SG – Você está fazendo dois universos paralelos convergirem. Pode ser uma coisa boa, mas não é fácil. A eleição do PT em Salvador tem muito a ver com a política interna do Partido dos Trabalhadores. O companheiro Pelegrino tem a maior presença política dentro do diretório de Salvador. O companheiro Gilmar [Santiago, vereador ligado a Pinheiro] tem a segunda maior presença do diretório em Salvador, o companheiro J. Carlos tem a terceira maior presença e os outros têm o resto. Esta disputa, portanto, tem muito a ver com o controle do PT em Salvador e que é importante politicamente porque o principal líder do DEM, que é o nosso principal adversário ideológico, é prefeito de Salvador e está no processo de aproximação administrativa com o governo do Estado. A ação do governo e da prefeitura, em prol do cidadão de Salvador, tem que ter uma cooperação entre os dois. O posicionamento do PT em Salvador tem muito a ver com Salvador. Apesar de minha corrente [CNB] estar apoiando o Paulo Teixeira [assessor de J. Carlos], eu estou apoiando o Edinho, o Edson [Valadares]. Então, objetivamente isso em função, exclusivamente, da situação de Salvador.

 
BN – Quer dizer, a sua corrente apoia o candidato de J. Carlos, mas o senhor apoia o candidato da DS, Edson Valadares. Isso, então, já não é uma aproximação de Gabrielli com Walter Pinheiro e Pelegrino?

 
SG – Não, não é. É simplesmente por razões soteropolitanas.

 
BN – Mas isso não pode saltar para o plano estadual? 

 
SG – Não, porque, no plano estadual, o quadro é totalmente diferente.

 
BN – O senhor já negou, mas há informação de que no próximo dia 18 o senhor lançaria a sua candidatura...

 
SG – Isso é uma confusão completa. No dia 18 [de outubro] vai ter uma homenagem dos blocos afros à Petrobras, ao ex-presidente da Petrobras e ao gerente de comunicação da Petrobras pelo apoio à comunidade afro. Por favor, não confundam uma coisa com a outra. Já no dia 19 vai ter uma reunião de dirigentes sindicais, essa sim é para apoiar Gabrielli, mas não é lançamento de candidatura.

 
BN – Então, o senhor só é convidado nessa do dia 19?
 
SG – Sou convidado. Terá discussão eleitoral, mas não é para lançar candidatura.

 
BN – Nem o senhor organizou... É um evento espontâneo da militância?

 
SG – A militância está organizando, a articulação sindical junto com forças fora do partido. 

 
BN – Pelegrino falou em uma entrevista aqui no Bahia Notícias, que o próximo governador da Bahia tem que fazer além do que o governador Wagner fez, e não poderia ser uma mera continuidade do atual governo. O senhor concorda com a afirmação?

 
SG – Eu não acho que seja necessariamente isso. Nós estamos com 96% das nossas crianças, de 6 a 14 anos, na escola. Reduzimos praticamente à metade a proporção de pessoas analfabetas. Reduzimos a mortalidade infantil de 26% para 16% nos últimos anos. Criamos 550 mil empregos com carteira assinada. Duzentos mil trabalhadores por conta própria viraram empreendedores individuais. Temos hoje um crescimento econômico principalmente nas cidades pequenas e médias e uma agricultura que se transforma. Temos três grandes projetos estruturais que vão transformar a logística baiana, que são a Fiol com o Porto Sul, a FSA com a ferrovia Belo Horizonte, Brumado e Salvador e Juazeiro com a hidrovia do São Francisco. Avançamos enormente na área de criação de sistema simplificado de abastecimento de água. Avançamos dez pontos porcentuais na ligação de domicílios à rede de esgoto. E tudo isso foi no governo Wagner. Criamos uma base democrática no estado gigantesca com inúmeros conselhos, fóruns e conferências, que são uma parafernália de escuta social. Fizemos um PPA [Plano Pluri Anual] participativo, e tudo isso criou uma mudança na forma de ação do governo no Estado. Uma transformação de como fazer política e de como gerir o estado feita pelo governador Jaques Wagner. E isso tem que continuar, mas não basta continuar fazendo o que vem sendo feito. Tem que fazer mais. Nós precisamos de uma escola melhor. Precisamos de uma saúde que vá além da saúde básica e trabalhar com a média e alta complexidades. Precisamos avançar na assistência técnica da extensão rural para que a nossa agricultura possa gerar mais valor adicional do que está gerando. Precisamos ver nos entroncamentos dos programas federais quais são os impactos que nós temos para absorver mais benefícios. Precisamos avançar em alguns sistemas de adutoras e alguns sistemas maiores estruturantes para a acumulação de água para a convivência com o semiárido. Precisamos redefinir o processo da Região Metropolitana, particularmente no baixo-sul e no Recôncavo, para redefinir a integração em uma área com indicadores sociais mais precários. Então, temos hoje um conjunto de coisas a mais para fazer e aprofundar o que o governador Jaques Wagner começou. Então, não basta fazer o que ele fez, tem que fazer o que ele fez e mais.


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