Segunda, 16 de Setembro de 2013 - 12:30

Zezéu Ribeiro

por Evilásio Júnior | Fotos: Alexandre Galvão

Zezéu Ribeiro

O deputado federal Zezéu Ribeiro, um dos fundadores do PT no estado, confirmou ao Bahia Notícias o que há muito se comenta nos bastidores: Rui Costa é mesmo o candidato do governador Jaques Wagner à sua sucessão. Pela primeira vez, também, o parlamentar admitiu que a sua saída da Secretaria de Planejamento (Seplan) foi uma abertura de espaço para José Sérgio Gabrielli, que seria o nome da cúpula nacional petista (leia-se Lula e José Dirceu) para a eleição de 2014. "Acho que para onde ele fosse o sentido era dar a ele uma projeção no plano estadual", reconheceu, embora pontue que a manobra e o projeto da Ponte Salvador-Itaparica não foram caça-votos. "Eleitoreiro seria se fosse uma manifestação para fazer dele candidato. E acho que ele se colocou de forma muito tímida nesse processo. Ele tinha que ter sido mais ostensivo na formulação de uma política e na afirmação do seu nome nessa política. Ele é o meu candidato", revelou. Na entrevista, Zezéu fala ainda dos motivos que o levaram a desistir de disputar a reeleição à Câmara, aposta no nome do reitor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), Paulo Gabriel, como "herdeiro" da sua votação, ratifica que tentará ser conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e comenta a crise ideológica na sua sigla. "Acho que o PT perdeu muito. Ele tinha que ser mudado, porque não pode ser o PT de 1980 agora em 2013. [...] Eu entendo que a política de alianças é uma política correta, mas às vezes a gente amplia mais do que o necessário", avaliou, apesar de reclamar da "inconsequência da direita" sobre o colapso econômico, classificar o mensalão como "manipulação da grande imprensa" e atacar a Rede Globo: "Ela quer ser a opinião pública". Em relação aos tiros disparados pelo subsecretário de Segurança Pública Ary Pereira contra militantes do Movimento dos Sem-Terra (MST) – historicamente ligado ao PT –, o deputado definiu como "temeridade" a invasão com foices e porretes ao prédio da pasta, mas condenou a reação. "Isso aí leva a uma irracionalidade de um dirigente, que eu não posso dizer que concordo que se dê tiro em população. Eu acho que tinha forma de coibir de outra forma. Seria mais salutar", considerou.

Bahia Notícias – O senhor anunciou que desistiu da candidatura à reeleição de deputado federal no próximo ano. O que o levou a tomar essa decisão?

Zezéu Ribeiro – Não chamaria de' desistir'. Essa é uma missa encomendada. Quando eu fui eleito pela primeira vez deputado federal, eu disse: 'se o povo quiser, eu volto mais de duas vezes'. Eu faço uma brincadeira dizendo que eu sou um rolling stone, porque as pedras têm que rolar. Pedra parada cria limo e a gente termina, em vez de construindo o novo, se adaptando à manutenção do mandato ou da entidade. A entidade vira aparelho e o mandato uma questão mais pessoal. Eu acho que tem que renovar. Não estou obrigando ninguém a isso. Não acho que tem que ser uma regra para todos, mas, para mim, foi assim que me fiz. No sindicato dos arquitetos eu fiquei nove anos, cinco como presidente; no IAB [BA – Instituto dos Arquitetos do Brasil na Bahia]eu fiquei 11 anos e fui presidente; no PT eu levei 11 anos na direção e fui presidente durante cinco anos; na Câmara Municipal, eu levei dez anos [vereador de Salvador]; agora, meu mandato federal tem 12 anos. Eu quero mudar o mundo e acho que, desta forma, eu contribuo para isso.

BN – Mas o senhor se afasta da política?

ZR – Não, em absoluto. No próximo ano fará 50 anos que eu faço política. Fiz política secundarista, fiz política universitária, política profissional, política sindical, política partidária, com movimentos sociais nas mais diversas formas: no combate à ditadura, na luta pela anistia, em defesa da Amazônia, pelas Diretas Já... A minha vida foi preenchida com militância permanente. Desses 50 anos, 47 estive em mandato eleito. Quer dizer, eu sempre estive de frente com o processo, não é agora que eu vou retroceder.

BN – Mas o senhor vai ficar sem mandato nenhum. Vai fazer política apenas de bastidores?

ZR – Eu tenho trabalhado umas alternativas, conversei com o governador sobre elas e ele recolocou a questão do Tribunal de Contas [do Estado], então é uma coisa que eu venho trabalhando.

BN – Então o senhor pode pintar como conselheiro?

ZR – Posso. Tenho trabalhado também a questão da reforma urbana. Tem um organismo da ONU [Organização das Nações Unidas], que se chama Habitat e trabalha nessa linha. Podia ser um caminho, também, fazer alguma consultoria nessa área, tanto interna quanto externamente. Uma terceira opção seria trabalhar a integração do Brasil na Sul-América, que é uma coisa que sempre me preocupou muito: ferrovias, rodovias, aerovias, comunicações, energia: um Parlasul, que é o Parlamento sul-americano, por exemplo. São vetores que me preencheriam enormemente.

BN – E quem herda o eleitorado de Zezéu Ribeiro?

ZR – Eu não tenho a condição de dizer 'é fulano' e fazer. Tenho construído alguns nomes. O que eu acho que tem preenchido quase todos os âmbitos da minha atuação é o companheiro Paulo Gabriel, que hoje é reitor da Universidade Federal do Recôncavo Baiano.

BN – Paulo Gabriel vai ser candidato?

ZR – Acredito que sim. Mas tem outros companheiros e eu pretendo contribuir com eles e temos discutido isso com a base que me elegeu. Eu tenho a tranquilidade de dizer que eu perco muito poucos votos, porque o meu voto não é comprado. Eu gasto pouco dinheiro nas campanhas porque tenho um voto que é cativo, mas é político. Então, eu não tenho como dizer 'vou te transferir tantos votos', porque eu não tenho votos para transferir. Eu discuto e trabalho. Em algumas regiões a gente vai apoiar alguns companheiros: Jorge Solla, Emiliano José, Waldenor Pereira...

BN – Agora, o senhor sai no momento em que as ruas exigem maior moralidade dos governos e dos parlamentares. O senhor também não se sentiu cansado por essa política praticada pelo Congresso?

ZR – Não. Tem uns aspectos negativos, mas também tem outros aspectos positivos. O Congresso é o reflexo da sociedade, não tenho dúvida disso, e não vejo solução fora da política. A gente tem que renovar e melhorar a política. É a política ou a barbárie.

BN – O senhor foi um dos primeiros candidatos do PT a prefeito e a governador e é da geração em que Lula fazia a 'TV Povo', acusava Sarney, ACM e Collor de corrupção e sempre teve uma postura mais à esquerda. Depois que chegou ao poder, o PT se aliou ao PMDB, a Collor e, aqui na Bahia, tem até ex-carlistas que fazem parte da máquina. Zezéu, que fazia parte daquele PT mais radical, entende que isso foi um avanço ou critica a política de alianças que consolidou os governos do PT?

ZR – Eu me considero dos mais radicais do PT, no bom sentido da palavra. No sentido da raiz, dos princípios e de transportar os valores para todas as situações da vida. Os valores não são adaptáveis às circunstâncias. Então, nisso aí, eu assumo a radicalidade, inclusive no deixar um mandato que eu teria uma reeleição certa. Acho que, para governar o país, você tem uma sociedade que tem conservadores e você tem meios de dominação que são históricos. Isso é normal no mundo. Nós vivemos em um processo em que as mudanças são as mudanças da elite. A história oficial é a história determinada pelas elites. Eles [integrantes da elite] criam até os heróis nacionais.

BN – O senhor não vê uma decadência na ideologia do PT?

ZR – Acho que o PT perdeu muito. Ele tinha que ser mudado, porque não pode ser o PT de 1980 agora em 2013. O mundo mudou. Nós vivemos em uma situação no mundo que é muito difícil, onde há um individualismo e um capitalismo exacerbados. Esses valores começam a presidir, então, os sentimentos mais nobres do homem. A coisa é muito materialista, no sentido pequeno da palavra – do possuir, do passar por cima, de não ter solidariedade, de a concorrência presidir as ações. Isso é fruto de um processo histórico internacional, da globalização, e reflete na sociedade como um todo. Ainda assim, nós fizemos uma revolução profunda nesse país. Incluímos milhões de brasileiros no processo produtivo, à possibilidade de consumo. Vivemos uma seca agora, que é a pior dos últimos 50 anos, e não vimos os famélicos nas sinaleiras das BRs das grandes cidades do Brasil. Isso é de uma importância extraordinária. A Europa está vivendo uma situação de crise e, aqui, a direita fica falando porque a inflação aumentou um pouco, porque Lula chamou de 'marolinha', essa coisa toda. Esses caras são de uma inconsequência completa. Perderam a dimensão de qualquer coisa. Não estão olhando a realidade do que está acontecendo no mundo, de fome, de desemprego na Europa. Os países da Europa estão pegando alimentos fundamentais, com prazo vencido, e botando nas prateleiras com preços mais baixos. Tem um prefeito de uma cidade na Espanha que tem 30 e poucos por cento da população desempregada e está promovendo assaltos aos supermercados para alimentar o povo. O desemprego na Grécia atinge 50% da PEA [População Economicamente Ativa]. Aqui a gente tem greve por aumento de salário. Nós estamos ainda na maravilha. Nós chegamos ao poder e tínhamos que fazer uma série de concessões para conseguir uma estabilidade política, e essa estabilidade foi dada pelo PMDB, com todas as mazelas do PMDB. Agora, o que cabe é uma avaliação do tamanho dessa frente. Eu entendo que a política de alianças é uma política correta, mas às vezes a gente amplia mais do que o necessário. Eu preferia não ter alguns e ter mais segurança e consistência. A gente precisa ver na sociedade quais são aqueles que podem estar conosco no processo para afirmar o projeto e que constituam a maioria necessária para isso. E que isso leve também a gente a um processo de aprendizado e informação à sociedade – e isso nós estamos fazendo pouco, acho até que é débil, nesse sentido. Agora, a grande imprensa manipula de uma forma estúpida. A autocrítica da Globo em relação à ditadura é algo vergonhoso. É um autoelogio. Ela tem um domínio enorme sobre os meios de comunicação e ao imaginário social. Ela quer ser a opinião pública (risos).

BN – O senhor criticou a grande imprensa, por querer ser a opinião pública, mas um ponto que foi denunciado e divulgado pela grande imprensa – o mensalão –, no julgamento pelo Supremo Tribunal Federal lideranças do PT foram condenadas com provas. Como fundador do partido, Zezéu Ribeiro ainda assim acha que houve manipulação?

ZR – O nome 'mensalão' já é uma manipulação. Isso foi uma manchete de jornal que pegou. Eles não suportam a realidade de um operário ter sido presidente da República. Eles repudiam. Eles têm uma ojeriza. É uma turma que tem medo do povo. São os escravocratas, os imperialistas. São os que defenderam a dependência de Portugal, os que defenderam o Império e depois, do dia para a noite, todos viraram republicanos. A gente buscou modificar isso, embora tenha uma parcela significativa deles que estão se aproveitando disso [governo do PT].

BN – O senhor saiu da Secretaria Estadual de Planejamento em uma situação meio embaraçosa em que ninguém entendeu direito o que estava acontecendo. O senhor tinha acabado de fazer um PMI [Procedimento de Manifestação de Interesse] bem-sucedido, que elegeu o metrô como modal para Salvador, e entrou em seu lugar aquele que foi o seu vice na campanha de 1988, José Sérgio Gabrielli. Foi uma questão política? Como o senhor avalia a entrada de Gabrielli e os projetos que ele tem tocado?

ZR – Gabrielli é um quadro histórico. Eu faço política com ele desde o movimento secundarista e temos uma relação de amizade muito grande. A operação da minha substituição, eu acho que o povo compreendeu bem e viu que teve uma política desastrada no processo. O tempo supera e a gente tem que ter habilidade na consequência disso. Eu falei da minha discordância do processo, explicitei, mas não fiz disso nenhum cavalo de batalha.

BN – Diz-se que Gabrielli é o nome escolhido por José Dirceu, Lula e a cúpula do PT nacional para disputar o governo do Estado em 2014. Houve imposição do nome dele para ficar na vitrine e a Ponte Salvador-Itaparica é um projeto eleitoreiro?

ZR – Não é um projeto eleitoreiro não. Você tem um quadro que é significativo, que está habilitado a assumir e que tem que ter um papel de destaque, inclusive para ser testado pela sociedade. Então, isso não é eleitoreiro. Eleitoreiro seria se fosse uma manifestação para fazer dele candidato. E acho que ele se colocou de forma muito tímida nesse processo. Ele tinha que ter sido mais ostensivo na formulação de uma política e na afirmação do seu nome nessa política. Ele é o meu candidato.

BN – Ele é o seu candidato, mas o senhor não acha que ele foi colocado ali para ter função de destaque, para tocar projetos grandes como a Ponte Salvador-Itaparica, e se viabilizar como candidato?

ZR – Acho que para onde ele fosse o sentido era de dar a ele uma projeção no plano estadual, como ele conquistou no plano nacional e internacional como presidente da Petrobras. Gabrielli, se não tivesse vindo para a Bahia, podia ser hoje um grande executivo nacional na área de petróleo, mas preferiu vir para cá e assumir essa responsabilidade de construir um projeto para a Bahia e para o Brasil.

BN – Apesar de dizer que o seu candidato é Gabrielli, o senhor mesmo falou que ele se colocou timidamente. Ele já é carta fora do baralho? Rui Costa é mesmo o candidato do PT?

ZR – Rui Costa buscou se afirmar. Está fazendo um discurso, ocupando os espaços, é pretensamente o candidato do governador...

BN - ...ele é, né?

ZR – É. É.

BN – É?

ZR – É. [pausa] Mas também o governador tem responsabilidade política, pessoal, com o partido e com a sociedade. Então, ele vai buscar a solução que melhor agregue o partido e que possa fazer uma disputa vitoriosa no processo [eleitoral].

BN – A gente falava da suposta crise no ideário do PT e na semana passada houve um episódio que foi surpreendente para parte da militância do partido, que foram os tiros dados pelo subsecretário de Segurança Pública, Ary Pereira, contra o pessoal do MST que pretendia invadir a secretaria...

ZR – Isso não tem nada a ver com o PT.

BN – Não tinha. Só que o governador, que é do PT, defendeu a decisão do subsecretário de atirar contra os sem-terra. Qual é a avaliação que Zezéu Ribeiro faz disso?

ZR – Eu acho que os movimentos sociais têm que ter limites. Tem que ver onde pode ir e onde não pode ir. Um movimento social invadir o prédio da Segurança, isso é a criação de uma instabilidade insuportável. Chegar armado de foice, com qualquer arma branca, em um espaço público, já é uma temeridade. Pode até ocupar em determinadas situações de impasse. Agora, fazer isso em um simbolismo que tem a Segurança Pública é extrapolar qualquer limite democrático. Então, isso aí leva a uma irracionalidade de um dirigente, que eu não posso dizer que concordo que se dê tiro em população. Eu acho que tinha forma de coibir de outra forma. Seria mais salutar.

BN – Não te surpreendeu Wagner declarar apoio abertamente e justificar que pela foice, pela invasão, cabia ao Ary Pereira fazer isso?

ZR – Ele tinha as circunstâncias dele. A sociedade vai avaliar isso.

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