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Segunda, 28 de Janeiro de 2013 - 11:00

Maria Quitéria

por Evilásio Júnior / David Mendes/ Carol Prado | Fotos: Tiago Melo

Maria Quitéria
Foto: Tiago Melo / Bahia Notícias


Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias

Bahia Notícias – A senhora teve 207 votos a seu favor, mas 141 contrários. Como vê todo o processo de votação e da sua eleição?

Maria Quitéria – Eu achei muito natural, tranquilo. Claro que eleição sempre é eleição. Mas teve uma participação efetiva dos prefeitos, o que era uma vontade da nossa diretoria no intuito de fortalecer a entidade. Isso devido muito à questão do voto de procuração ter sido cancelado. A gente fica muito feliz de ter conseguido trazer um grande número de prefeitos. Eu digo sempre que não havia adversários. Foi uma eleição de colegas, que escolheram seu representante, A gente sabe que o nosso eleitorado é muito qualificado, já que são prefeitos, não são simples eleitores, que não têm informação. São pessoas que estão ali em busca de um objetivo e nós entendemos que agora é o momento de unirmos todos, tanto uma chapa como a outra. Tantos os 207, quanto os 141 que não votaram em mim, além dos prefeitos que não puderam vir, porque algumas cidades estão em estado de calamidade. Eu estou muito satisfeita, não só porque ganhei, mas também porque foi um processo muito democrático e respeitoso da minha parte e da parte do meu colega.

BN  - A senhora é a primeira mulher a comandar a mais forte entidade representativa dos municípios da Bahia. Hoje, o estado tem apenas 64 prefeitas eleitas, ou seja, de 417 estados, mais de 90% são comandados por homens. Como você está pensando em trabalhar dessa maneira e como vê essa questão?

MQ – Bem, a gente já nasce de uma mulher e de um homem, né? Então, temos que pensar que vamos trabalhar tranquilamente com homens. Na minha diretoria, só tinha eu, praticamente, de mulher. Agora, tem mais duas, mas a maioria continua ainda sendo de homens. Isso é salutar. Eu digo que sempre que a mulher não ocupa espaço por ser mulher, mas pelo seu grau de comprometimento, porque competentes todos nós somos se nos dedicarmos. Então, eu acho que essa eleição é um marco histórico. Acho que também foi a eleição que teve a maior vantagem de votos. Tudo isso demonstra o reconhecimento do meu trabalho enquanto vice-presidente. Acho que houve a importância, sim, das nossas lideranças políticas, que escolheram seus lados. Mas não significa dizer que, porque eu tinha um líder e meu concorrente tinha outro líder político, de outro partido, nós seriamos vencedores por causa deles. Cada um se dedicou. A dedicação maior foi daquele que teve a condição de agrupar mais colegas. Eu, durante esses um ano e seis meses, enquanto eu fui vice-presidente da entidade, tive a oportunidade de conhecer a realidade de muitos colegas, de compartilhar os desafios. Acho que isso, essa aproximação que eu tive por estar sempre próxima à UPB, deixou a minha eleição mais tranquila, em relação ao nosso colega Wilson. Porque, de toda forma, você normalmente vota em quem já conhece o trabalho. E eu quero ser uma grande presidente. Eu acho que a parte administrativa dos municípios é um foco que eu quero atacar em relação à capacitação, a dar à gestão de cada cidade o subsídio para trabalhar de uma forma coesa, com transparência e com facilidade. Os prefeitos tem sofrido muito e a gente fica com dó, porque é difícil achar mão de obra qualificada. Eu, que já fui secretária, sei que não é fácil conseguir no município um secretário que tenha um comprometimento. Com a Lei de Responsabilidade Fiscal, seus avanços e as exigências do tribunal, ficou mais difícil encontrar mão de obra qualificada. Eu parto do princípio de que as prefeituras têm que se profissionalizar, para que os prefeitos não tenham problemas com seu nome. Pra fazer uma gestão pública de qualidade, hoje, você tem que procurar, a dedo, os melhores profissionais. O problema é que, muitas vezes, o prefeito não tem dinheiro pra pagar, porque o melhor vai querer ser bem remunerado. Aí é onde eu quero chegar: a gente precisa capacitar cada região, cada município, para que ele não precise trazer profissionais de outros lugares. Quanto mais longe, mais caro.

BN – Qual é a avaliação que a senhora faz do seu padrinho político, Luiz Caetano (PT)? O apoio dele foi decisivo?

MQ – Tenho certeza que foi muito decisivo. Caetano foi um grande líder na nossa entidade. Eu lembro que me muitos prefeitos me perguntavam quem seria a pessoa que daria continuidade ao trabalho dele. Caetano soube direcionar, dirigir a UPB, junto com a nossa chapa, e soube também agregar aliados. Foi Caetano quem buscou o apoio do presidente da Assembleia, Marcelo Nilo [PDT], de João Leão [deputado federal pelo PP], Mário Negromonte [deputado estadual pelo PP], Ângelo Coronel [deputado estadual pelo PSD], Jonas Paulo [presidente do Diretório Regional da Bahia do PT]. Também tivemos o apoio de Nelson Pelegrino [PT], Augusto Castro [deputado estadual pelo PSDB], Zé Rocha [deputado federal pelo PR], Daniel Almeida [deputado federal pelo PCdoB] e do secretário da Casa Civil da Bahia, Rui Costa. Sem falar na bancada de deputadas estaduais: Maria Del Carmen, Fátima Nunes, Neusa Cardore, Luiza Maia [todas do PT], Ivana Bastos, Ângela Souza [ambas do PSD], além da deputada federal Alice Portugal [PCdoB]. Enfim, fomos apoiados por diferentes partidos, que entenderam que Caetano e Quitéria tinham uma proposta de governo. Agora eu vou ter o papel de desmistificar totalmente o que foi criado em torno da minha candidatura. As pessoas tentaram me colocar como candidata de Caetano e, na verdade, não há problema nenhum, porque ele foi um grande líder. Mas a minha candidatura é tão legítima como a de qualquer outro. O meu município, Cardeal da Silva, foi transformado por uma mulher, que fez uma atuação forte na UPB e que virou presidente, não foi à toa.

BN – Um dia antes da eleição, ainda como presidente, Luiz Caetano me disse a seguinte frase: “A UPB não é partidarizada e nem secretaria de estado”. O que a senhora acha que ele quis dizer e qual a sua avaliação sobre o comentário?

MQ – Ele tem toda a razão. O próprio Luiz Caetano, sendo do PT, poderia não procurar ter embates com o governo. Mas ele, em todo momento, foi imparcial e buscou conversar com o governo para resolver os problemas do município, dialogando. Eu avalio esse discurso como uma tentativa de mostrar o que a gente realmente é. A gente não resolve problema, porque não é secretaria. O que fazemos é pegar a demanda dos municípios e ir às secretarias. Só que a entidade não tem como resolver tudo. Somos uma espécie de sindicato. Caetano foi muito feliz na colocação dele. Eu diria que ele, como presidente, tem um perfil e eu vou ter o meu. Caetano é um político de cidade grande. Eu venho de uma cidade pequena, onde eu enxergo os problemas com outro olhar, muito diferente. Por isso, eu acredito que a gente vai ter um resultado muito maior, no sentido administrativo, mas político nunca. Porque eu não vou ser uma política como Caetano. Ele é um grande líder, consegue envolver.

BN – Qual seria a principal bandeira, para 2013, da entidade? O que a senhora já está pensando?

MQ – Olha, uma das minhas bandeiras Dilma já até falou hoje [24] de manhã. Quando eu acordei, hoje, pensei: “Poxa, eu ia pedir à presidente que liberasse os médicos formados fora do país para atuar no Brasil e diminuir essa questão da dificuldade de conseguir atendimento médico”. E ela nos deu essa notícia, que daria a autorização. Claro que eles terão que passar por uma prova, ser avaliados, tudo isso. Mas isso vai levar a um resultado muito rápido para os municípios. Porque, se terá um número maior de médicos atuando, então com certeza não vão faltar médicos nos postos.  De toda forma, a base da nossa bandeira agora, segunda-feira [27], vai ser a derrubada dos vetos e o pedido, ao governo federal, de que faça a compensação do FPM [Fundo de Participação dos Municípios], porque isso já foi feito com os estados e a gente quer, agora, que façam com os municípios.

BN – A senhora falou do quão decisivo foi o apoio de Caetano. Só que a senhora é do PSB, partido de Lídice da Mata. Em 2014, Quitéria prefere ver uma candidatura de Luiz Caetano ou da colega de legenda?

MQ – Eu sou muito pequenininha para decidir isso (risos).

BN – Mas como líder da UPB, membro do PSB e prefeita de Cardeal da Silva. Qual seria sua preferência?

MQ – Não faça isso com sua amiga, não! Não me bote em rua estreita que eu não sei dirigir (muitos risos)! Eu acho que é uma conjuntura, não tem preferência. Claro que é o sonho de toda mulher ver outra mulher no poder. É bonito. A gente tem, hoje, uma presidenta e, diga-se de passagem, Dilma está tendo coragem de fazer o que muito homem não teve. Eu acho que tem que ser quem estiver mais bem colocado, melhor posicionado. Lídice da Mata já foi prefeita, Caetano também, eles têm o conhecimento. Eu digo que, pra ser governador e presidente, tinha que ser prefeito antes, e de uma cidade pequena e pobre. Eu acho que a sucessão vai ser bem construída, mas a UPB não tem nada a ver com isso. Eu, particularmente, não me envolverei nessas questões. Deixa isso pra lá, viu?

BN – Então vamos voltar a falar de gestão... A senhora já foi vice-presidente, deve ter um raio-X da situação dos municípios na Bahia, hoje. Desde o dia 31 de dezembro até agora, temos noticiado aqui casos de novos prefeitos que não têm acesso à folha, à lista da rede municipal de ensino, dívidas enormes, entre outros problemas. Como a senhora analisa essa questão e o que pensa em fazer para que, daqui a quatro anos, essa situação não volte a acontecer?

MQ – A postura dos novos gestores, que acabaram de assumir, tem que ser de deixar tudo organizado na prefeitura quando saírem. É o que eu pretendo fazer, embora não tenha sido desse jeito que eu encontrei a prefeitura de Cardeal da Silva quando assumi. Com essa situação, quem sofre não é o prefeito, é o povo. Eu fico muito triste com isso. Acho que a gente tem que pensar sempre no amanhã. Quem entra na vida pública, tem que ter a consciência de que, depois da gente, o município continua. Acabou a eleição, acabou a disputa, começa o municipalismo.

BN – Ainda em relação a esse raio-x, a senhora tem ideia de como está a situação dos municípios do semiárido e da Chapada Diamantina, que tem sofrido com as queimadas? Como a UPB pretende ajudar essas regiões?

MQ – Estive nessas regiões por agora, deu uma chuvinha. Mas a gente não pode achar que o problema da seca acabou. Acho que temos que continuar as ações que já estão sendo feitas. Conseguimos R$ 20 milhões com o governo, para investir em carros-pipa e todo tipo de ajuda, porém ainda é pouco. Temos que tomar medidas mais efetivas. Há municípios, por exemplo, que são próximos do rio São Francisco e, com uma tubulação de mais ou menos 100 km, poderiam suprir as necessidades com a água do rio. Dessa forma, a UPB tem o papel de ser mediadora de ações preventivas, porque a gente sabe que a seca é um fenômeno da natureza que vai acontecer sempre. Eu não sei porque que, todo ano acontece, sempre da mesma forma, e muito pouco é feito. A entidade vai ter esse papel preventivo, junto com o Ministério da Integração e o Ministério da Agricultura. Dentro do meu plano de ações, já estou pensando em chamar o secretário estadual de Agricultura para uma reunião na semana que vem, quando eu voltar de Brasília, para a gente pensar em projetos, alternativas para que, nesse momento de seca, os agricultores tenham uma segunda opção. Como já falei, não somos secretarias de estado, mas existem ações que não temos como resolver sem a integração das secretarias.

BN – Essas medidas de prevenção incluem a capacitação dos gestores?

MQ – Com certeza. Aqui na Bahia, essa questão da capacitação é um foco que eu quero atingir. Por isso, já tive conversas com a Universidade Federal da Bahia, fizemos uma parceria. Vamos montar uma escola de gestão. Já venho até conversando com alguns ministros, para saber de que forma a gente pode pegar esses gestores e fazer uma formação, um intensivão mesmo sobre educação, saúde, infra-estrutura... A gente já fez algumas parcerias com o governo do Estado. Deu muito certo o link com a secretaria de Saúde, por exemplo, e eu pretendo expandir à outras secretarias. Vamos buscar engenheiros na Conder [Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia], pensar projetos estruturantes para cidades pequenas, que passam por dificuldades relacionadas ao saneamento básico e infraestrutura. Parcerias privadas também... A segurança pública mesmo. Conversei com o secretário, podíamos fazer parceria com a Oi, por exemplo. Enfim, a negócio é inovar, ser prático, objetivo, não perder tempo. O nosso papel é ajudar o prefeito a ser bom gestor, ajudar o povo a ter mais emprego e ajudar os governos federal e estadual a entender onde é que estão, de fato, as necessidades. Uma vez eu fiz uma reunião com o pessoal do oeste da Bahia pra tratar de segurança pública. Ouvindo os problemas deles, eu não tinha coragem de pedir um delegado para minha cidade. Então, por que pedir se não precisa? Meu município teve uma estiagem enorme, mas não tinha tanta plantação, então pra que entrar em estado de emergência? A gente tem que ter essa sensibilidade para fazer uma gestão coesa com a realidade que nós vivemos.

BN – Como presidente da UPB, qual o conselho a senhora para os prefeitos “marinheiros de primeira viagem”?

MQ – Segurar. A ordem agora é contenção de despesas. Realizar pouquíssimas contratações, só mesmo as necessárias. Afinal, a gente não sabe como irá transcorrer o ano em relação aos recursos. Eu diria para eles fazerem o que eu não fiz. Em 2009, peguei Cardeal da Silva numa crise. Contratei muito e, no final do ano, não tinha como pagar. Acabei tendo que demitir muita gente. Esse é o momento de planejar e economizar. Não tá fácil fazer uma boa gestão sem recursos.

BN – E para 2014, pretensões?

MQ – Beijos e abraços (muitos risos)! 

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