Segunda, 12 de Novembro de 2012 - 11:00

Silvio Humberto

por José Marques / Bárbara Souza / Juliana Almirante

Silvio Humberto
Fotos: Tiago Melo / Bahia Notícias

Bahia Notícias  – O que você acha da renovação na Câmara de Vereadores, já que você é um dos novos expoentes? Você acha que melhorou ou acredita que essa renovação não vai diferenciar tanto em relação aos velhos costumes da Câmara?
 
Silvio Humberto  – Nós temos uma boa perspectiva se a gente pensar nos nomes, nas histórias das pessoas que estão hoje eleitas. Temos chance de fazer uma boa legislatura se considerarmos a história de vida dessas pessoas dentro da sociedade, a contribuição que essas pessoas têm dado à sociedade soteropolitana, baiana e brasileira. Temos a perspectiva de fazer uma boa legislatura em defesa da cidade, da população, para ter mais debates, uma Câmara mais participativa e próxima do povo.
 
BN  – O PSB  é um partido da base aliada do governo, mas os dois deputados estaduais baianos, Capitão Tadeu e Sargento Isidório, têm uma posição um tanto independente na Assembleia Legislativa. Eles nem sempre votam com a bancada do governo. O PSB, na Câmara, vai ser oposição ao governo de ACM Neto ou ser um bloco independente?
 
SH  – Certamente vamos ser oposição. As pessoas que votaram em mim e em Fabíola [Mansur] votaram na nossa história em defesa de princípios, de valores, de uma visão do mundo. Às vezes, as pessoas confundem você ter uma oposição responsável em você votar de forma infinita contra o governo, mas é importante a gente dizer que tem lado. É uma visão diferente das pessoas que hoje serão governo, acho que é isso que vai pautar a nossa ação dentro da Câmara de Vereadores: os projetos que contribuírem, de fato, para mudar a vida das pessoas da cidade. Dentro dessa oposição responsável, não significa que a gente será intransigente. Política não se faz com intransigência, se faz com diálogo, mas a gente não vai fazer politicagem, mudar a sabor do vento. Acho que tem que ter princípios e valores. Aquilo que for de acordo com os nossos valores e para isso, a gente vai ouvir o partido e a população, as pessoas que nos apoiaram e vamos votar de acordo com isso.
 
BN  – Atualmente, a gente está vivendo uma polêmica com relação à Câmara Municipal, que é considerada subserviente na relação com o poder Executivo, motivo pelo qual ainda não votou as contas da prefeitura de 2010, por exemplo. E agora, mais recentemente, foi levantada a questão de que a Câmara não deveria julgar o parecer técnico de um órgão idem, que é o Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Qual a sua opinião sobre essas duas questões: primeiro, a relação da Câmara atual com o poder Executivo; e segundo, esse questionamento da legitimidade de a Câmara, que não é composta por especialistas, avaliar o parecer de especialistas do TCM?
 
SH  – Em relação ao poder Executivo, a Câmara tem que preservar o papel dela, afinal são três poderes. Ela é um dos poderes. Então, cabe mediar ou não a coisa, mas você ter uma postura subserviente e você levar essa discussão em torno de uma maioria, que às vezes funciona como um rolo compressor, isso é complicado. Mas a voz da minoria precisa ser preservada, precisa ser dita, acho que em alguns momentos isso foi colocado, foi posto. Agora evidentemente, quando você tem a maioria, você reclama, reclama, e na hora da votação você perde e as pessoas precisam arcar com suas escolhas. Acho que isso tudo tinha que ser em aberto. Você precisa sempre criar canais para que a população participe. Às vezes, na Câmara, tem esse jogo de interesses que têm dificultado. Quando você está nas ruas vê o reflexo disso, a população desacreditando desse papel que é do vereador e até não entendendo bem qual é o papel do vereador. Acho que isso também cabe, que você tenha um Legislativo que se coloque dentro das suas atribuições, do que está previsto na Lei Orgânica, na Constituição Federal, do que é permitido ao Legislativo fazer. Isso precisa ser dito. Precisa-se criar um canal de comunicação, em que a população se sinta minimamente informada. E com relação a essa discussão, se cabe à Câmara ou não, do ponto de vista técnico, se vai fazer um julgamento político. Acho que se está nas nossas atribuições, você tem pessoas capacitadas para fazer a avaliação. Se as contas do prefeito foram rejeitadas, você tem que fazer essa avaliação. Se fosse assim, também não se faria no Congresso Nacional, no Senado, em função só dos especialistas. Os especialistas propõem, você analisa. Porque assim, às vezes o parecer técnico também tem, entre as pessoas que dão esse parecer, divergências. Se não fosse assim, a lei só teria uma interpretação e as chamadas brechas em que as pessoas dão suas interpretações. Então eu discordo muito quando dizem assim: “Algo é uma visão política, algo você tem uma visão técnica”. Acho que onde você enquadra o seu parecer também tem muito do que você acha sobre um determinado assunto. Até a interpretação das contas também cabe, se cabe recurso, não é? Não será a primeira vez que o Tribunal sinaliza de um lado e a Câmara vem e sinaliza de outro.
 

 
BN  – Já é o primeiro ponto de divergência com o prefeito, que diz que a Câmara não deveria sequer opinar.
 
SH  – É cada qual com seu cada qual.
 
BN  – Durante a campanha eleitoral, houve uma polêmica entre a vice-prefeita eleita, Célia Sacramento, e o Instituto Steve Biko, do qual você é um dos diretores. O instituto chegou a divulgar uma nota dizendo que o atual posicionamento da vice é contra o posicionamento da entidade e inclusive a proibiu de usar o nome do instituto. O que você acha de ela ter usado o nome e da posição atual dela?
 
SH  – A nossa posição sempre foi muito clara com relação ao papel e aos princípios do instituto. E o instituto sempre teve lado. O instituto é apartidário, mas politicamente, nós nos posicionamos. Na história do instituto, são 20 anos praticando ações afirmativas e nós sabemos, de fato, quem apoiou o instituto. Nós não negamos a colaboração da professora Célia Sacramento, mas afirmamos que ela não foi fundadora do instituto, foi em cima disso que nós nos posicionamos. Se, pessoalmente, ela resolveu aderir ao democrata, a acreditar ideologicamente aos Democratas, isso para mim tem uma coisa que nega a história dela. Ela tem uma história e assim, pelo menos antes, coadunava com o instituto. O posicionamento que ela tomou ao aderir ao Democratas foi uma escolha pessoal. O que nós fazemos foi dizer: “O nosso instituto tem lado”. Nós sabemos o esforço que nós fizemos ao longo destes anos 20 anos, preparando essa juventude negra para entrar na universidade. Ganhamos prêmios de direitos humanos, ganhamos prêmio Jovem Cientista e nós sabemos que é o abandono da escola pública que leva o surgimento do instituto. E nós sabemos quem fez isso. Então para a gente, causou, em determinado momento, surpresa. Mas a posição individual, se ela resolve aderir ao projeto do DEM, eu não me posiciono, mas quando envolveu o instituto, se colocar como diretora – pelo menos foi o noticiado – e fundadora do instituto, ela nunca foi. Nós afirmamos que na ata de fundação do instituo o nome dela não está lá. Então o que nós fizemos foi informar, neste momento, de forma bastante objetiva, qual era o posicionamento do instituto e reestabelecer a verdade.

BN  – Você acha que no governo ACM Neto o movimento negro vai ter representação?

SH  – Acho que, tradicionalmente, o movimento negro, a sua história é de construção dentro da esquerda. Se haverá pessoas negras que vão estar no governo de ACM Neto... Eu lembro que Martin Luther King dizia que os negros não são super-humanos, são humanos. As pessoas têm o seu posicionamento. Se, individualmente, as pessoas acreditam que o próximo governo vai promover, vai ter políticas de promoção da igualdade racial, as pessoas podem estar lá. Eu não acredito, porque não é a história deles, muito pelo contrário. Basta ver, foi o partido, não foi a pessoa, que entrou contra as cotas, contra o ProUni e os quilombolas. Um partido significa que você tem um conjunto de pessoas, um conjunto de ideias, que não coaduna com o que, tradicionalmente, o movimento negro tem contribuído com a sociedade brasileira. O movimento negro é um mundo, tem uma diversidade grande, mas, individualmente, podem ter pessoas...

BN  – Durante a campanha eleitoral, a vereadora Olívia Santana disse que as principais representações, todas do movimento negro na Bahia, estavam ao lado dela.

SH  – Verdade. As pessoas que sempre construíram o movimento negro, quando 20 de Novembro era apenas um dia e transformaram em uma data importante, reconhecida nacionalmente. Essas pessoas que transformaram uma data em um mês de comemoração e contribuíram para a discussão racial começar em janeiro e ir até dezembro, para ir além do 20 de Novembro. Essas pessoas e organizações certamente não estarão com ele [ACM Neto], mas isso não significa que as pessoas não possam estabelecer diálogo. Agora eu, desse lugar que estou, se você se basear na história dos Democratas, que é o PFL, que é o antiga Arena, não é da tradição deles desenvolver políticas de promoção da igualdade racial, porque foi a partir dessa pressão do movimento negro que se conseguiu. O governo que se abriu a essas possibilidades, criando espaço, como a Sepromi [Secretaria de Promoção da Igualdade]. 
 
BN  – O seu eleitorado vem desses movimentos sociais ou você não tem essa noção exatamente de quem seriam majoritariamente seus eleitores? Qual a relação que isso vai ter com seu trabalho?
 
SH  – Eu diria que eu participo dos movimentos sociais desde os meus 18 anos, eu tenho 49 hoje. Eu sempre digo que o meu primeiro voto foi com a professora Edenice Santana, pelo PT, isso lá em 1982. Minha formação política foi o movimento negro que me deu. Participei do movimento negro unificado, participei do grupo negro da Ucsal, que na época participavam João Jorge, a promotora Márcia Virgens, Antônio, Silvio Augusto, várias pessoas. Em 1992, eu entro no Steve Biko como um dos fundadores e, ao longo desses 20 anos, fazendo coisas na cidade. Eu fui eleito em função das pessoas acreditarem em uma história, de as pessoas verem um trabalho que nós fazemos, educação com qualidade, que muda a vida das pessoas. E também percebe que não adianta você garantir educação se do outro lado você não tem oportunidades. Então o fato de eu participar, de estar sempre ao lado da construção desse movimento, sem fazer a chamada política partidária, mas sem ser contra a participação política, que juntou, conseguiu aglutinar a militância de segmentos populares, de movimentos negros. Essa nossa candidatura foi o juntar de muita gente boa, como diz Peu Meurray, “gente boa se atrai”. Juntamos jovens, a “juventude acumulada”, que são as pessoas mais velhas, de diferentes credos e cores, que acreditam na diversidade, e pessoas até de outros partidos que votaram na gente. Isso deu o resultado desses 4123 votos e mais um detalhe, que eu observei, as famílias desceram para votar na gente. Nós temos votos de famílias, da minha participação na faculdade, vários economistas, isso deu muito resultado, eu credito a isso. A essa minha capacidade de aglutinar gente boa. Na Câmara, nós temos quatro eixos: a educação; a promoção da igualdade racial de gênero; as pessoas em situação de deficiência, as questões de acessibilidade, eu tive oportunidade de trabalhar com isso; o que envolve orçamento, finanças, em função da minha profissão mesmo - eu sou auditor fiscal da prefeitura há 27 anos, economista com mestrado e doutorado -; com as discussões sobre geração de trabalho e renda e desenvolvimento econômico da cidade. São essas as áreas importantes que eu pretendo dialogar e eu acho que tem algo importante que é o ser professor lhe dá. Como diria Paulo Freire, ele dizia que professor não é aquele que ensina, mas aquele que tem uma capacidade de aprender. O que eu não sei eu tenho uma boa capacidade para aprender. Eu aprendi, pelo menos ao longo desses 20 anos a, mais do que ouvir, escutar bastante.
 

 
BN  – Eu estava no comitê do PT quando eles receberam o resultado e estava todo mundo muito cabisbaixo, muito triste com o resultado de ACM Neto ter ganhado a eleição em Salvador. Foi insatisfação com o PT, tem a ver com as greves, a população não reconhece o projeto do governo do Estado? Qual a sua avaliação da derrota do PT?
 
SH  – Eu diria que é complexo, são n variáveis. Não há como fazer uma análise objetiva, de alternativa a e b, é um conjunto de fatores, alguns acertos, alguns erros, perdeu porque não conseguiu convencer essa massa a votar. Se você considerar que você tem 44% de pessoas que disseram não e considerar os votos nulos e brancos e as pessoas que não votaram, teve uma massa que disse não a isso aí. Você não conseguiu foi convencer essas pessoas a votarem no projeto. Acho que um erro capital foi que a gente precisa fazer uma política dizendo que tem lado. Quando você não explicita o seu lugar de oposição, isso não significa que você vai ser intransigente. Acho que, em alguns momentos, a população não conseguiu perceber e o PT conseguiu se afirmar claramente como oposição, sobretudo ao governo João Henrique e você deslocou o debate da prefeitura para o governo, você antecipou o debate para o governo do Estado. Isso gerou um problema. Tanto que o prefeito disse que ia votar no 25, votou no 25, parecia que a gente estava vivendo na cidade literalmente, em um paraíso. Mas você não conseguiu convencer a população, a estratégia tinha que ser com propostas, para ficar bem claro para a população de que o que estava em jogo era a avaliação da prefeitura de Salvador e não a avaliação do governo do Estado. A greve dos policias e dos professores, essa que mais pesou, você não conseguiu. E a população: “Cadê as obras do governo na cidade?”. Acho que poderia até ter dado mais visibilidade a essa intervenção na cidade já que a prefeitura não cumpriu o seu papel. Se você tivesse conseguido fazer isso, acho que teríamos outro resultado, mas não se fez essa boa comunicação. Dizem que a comunicação não é o que eu falo, é o que você entende. Então a população não entendeu e tem aquela brincadeira assim de “eu quis dizer você não quis escutar”. Eu acho que faltou isso.
 
BN  – Na quarta-feira (7), saiu uma notícia sobre o Censo 2010, que aponta que menos de 10% dos deputados federais são negros e o deputado federal Luiz Alberto (PT-BA), presidente da Frente Parlamentar Mista pela Igualdade Racial e em Defesa dos Quilombolas disse que a surpresa não é a ausência, mas é a presença. Em um tom irônico, evidentemente. Primeiro, como você avalia esse tipo de questão, segundo, se esse fato de ter tão poucos deputados negros é mais um estímulo para uma futura pretensão política de Silvio Humberto?
 
SH  – Em mais de 30 anos no movimento negro, e se você avalia esses últimos anos, nós temos avanço. Poderíamos ter avançado mais? Sim, porque eu acho que a barreira racial impede que as pessoas que moram nessa cidade de alcançar o seu potencial. Acho que a ausência da diversidade, sobretudo aqui, como se diz: “Pense em um absurdo, é aqui”. É um absurdo a Bahia não ter eleito um senador negro, um governador, um prefeito, porque se você vai para o outro lado, em Porto Alegre, você já tem um senador. Rio Grande do Sul: senador, deputado...

BN  – Tem Edvaldo [Brito], que foi prefeito em Salvador.
 
SH  – Foi prefeito, mas não foi eleito, tentou e não conseguiu. Então se você olha, porque essa naturalização não acontece em um estado como a Bahia? Já conseguiu se fazer isso no Espírito Santo, até aqui no estado vizinho, em Sergipe, era o governador, que agora é prefeito João Alvez, mas você tem em Porto Alegre, foi o governador Alceu Collares. Porque que o natural aqui não acontece. O racismo não é complicado, é uma questão complexa. Complicado é o que se está buscando uma solução e você encontra uma solução simples. Mas ele é muito complexo, envolve desde questão objetivas a subjetivas. Eu acho que a gente está em um crescente. A participação política da população negra é fundamental, porque se a questão racial não estivesse no centro, tinham sido outras. Parece que agora a cor deixou de fazer diferença. Porque antes fazia tanta diferença que você não queria nem para vice. Hoje você teve as pessoas saindo como candidato a prefeito e vice. Podem não ter sido do movimento negro genuíno, mas você começa a derrubar um dominó. Você não sabe se a onda que você está criando vai lhe favorecer ou não, mas o fato é que você trouxe a questão racial para o centro. Quem vai ganhar com isso? Acho que quem ganha com isso é a cidade, porque se você pode olhar as pessoas negras e pode pensar que pode ser prefeito, pode ser educativo. Há um processo educativo grande. Agora eu insisto que é preciso ter em vários espaços a diversidade, seja na área de comunicação, na política, vai educando. É o que me incomoda profundamente e é isso que vai refletir nessas escolhas, porque, de fato, a forma que se organizou a política em nosso estado. Porque se você não tem a população negra participando de forma ativa, então, se está todo como está, eu sempre vou escolher os mesmos. Tanto faz os conservadores como os progressistas. Então, hoje com esse movimento e, sobretudo com as ações afirmativas das cotas você colocou um debate que antes se debatia no 11 de Maio. Falar de ações afirmativas, você está falando de desenvolvimento econômico, você está falando de combate à pobreza, você está falando de uma coisa muito mais ampla do que você pensar que é fundamental eliminar o racismo, mas reduzir as desigualdades raciais para que o Estado e a sociedade avancem. Isso é fundamental e vai refletir hoje no aumento da representação política da população negra. Genuinamente, o movimento lutou na esquerda. Mas hoje você tem o movimento negro das pessoas que são consideradas conservadores e de centro. Se pegar a linha do tempo, você tem avanço. O que está reservado para o futuro vai depender do nosso desempenho, porque o que chancela, em última instância, é a população. Eu tenho essa qualificação que consegui ao longo desses anos, como professor e militante, eu posso colocar isso em disposição da cidade. Alguns amigos já perguntaram: “Você vai sair da sua zona de conforto?”. Não adianta você estar bem e você olhar ao lado e ver uma juventude que está caindo nas ruas. A juventude negra é que está morrendo. Você anda na Paralela e você vê determinados empreendimentos imobiliários não quererem jovens negros para entregar panfleto, isso eu acho o cúmulo. Parece que mudou, mas tem hora que parece que desce uma Noruega, uma França sem diversidade, para entregar panfleto na Paralela. Hoje tem algumas mudanças, mas se você reparar bem, em quem entrega o panfleto do Extra é para um público, quem entrega o panfleto de um determinado empreendimento imobiliário é para outro grupo, então você está dizendo que você não quer sua imagem associada [ao negro]. As pessoas perguntam porque os jovens não querem devidas oportunidades. O tráfico é quem melhor pratica a diversidade. Não tem problema nenhum, tem para os ricos, para os pobres e para a classe média. Não é uma opção boa porque as pessoas morrem. As pessoas não conseguem ter a “juventude acumulada”. Não têm cabelo branco, não estão envelhecendo, uma ordem natural está sendo invertida, pais enterrando filhos, mas isso só está acontecendo com a juventude negra. É preciso barrar isso porque estamos desperdiçando talentos. Eu volto para o Steve Biko, quando eu vejo uma menina que sai de lá de Paripe, hoje termina o mestrado em Estatística pela Unicamp e antes ganha o Prêmio Jovem Cientista. Assim como Scheila, Regina, há outros talentos. Estão à disposição, mas as pessoas simplesmente não se importam. Isso me estimula, é parte da minha missão e missão dada é missão cumprida. Quero contribuir dentro dessa missão para ter um avanço de fato da diversidade na nossa cidade. Eu sou daqueles que acredita na mistura, agora mistura precisa ser de todos os lugares, não pode a mistura só do carnaval e do futebol. A gente perde muito quando não utiliza essa mistura para fazer essa cidade, esse estado, esse país levantar. Tem aquela imagem que é fantástica do gigante adormecido, do Keep Walking Brasil. Então para o gigante de fato caminhar precisa ter essa diversidade. Se não tiver isso, pode ter certeza que vai ser mais do mesmo.

BN  – O secretário estadual de Promoção da Igualdade, Elias Sampaio, disse em entrevista, uma vez, que ele é a favor de cotas para tudo e falou de um conceito que eu acho muito importante que é o racismo institucional, que a Câmara pode ter isso. Você é a favor de cotas para tudo?
 
SH  – Eu acho que se você garante, como na educação, o mercado de trabalho. Acho que tudo precisa ser definido, você precisa ter um prazo. Acho que tem duas formas de você promover essa educação, ou você vai pela imposição, que é uma lei, ou você vai pelo convencimento. Como envolve poder e aí a relação com o racismo institucional... Se você chegar em uma redação de um jornal e só tiver pessoas brancas, tem alguma régua invisível que impede a chegada das pessoas negras.

BN  – Necessariamente?

SH  – Uma coisa é quando você não tem os profissionais. Se você tem um universo de dois milhões na cidade, quantos são jornalistas, os que chegam para fazer e não passar, tem alguma coisa que impede. Se você disser assim, só tem homens em uma redação, então tem uma régua que impede a entrada das mulheres. Não era comum as mulheres discutiram futebol, era restrito aos homens. Hoje você tem mulher discutindo futebol. Então isso é um processo, se você deixar naturalmente. Se deixassem as livres forças da economia, sem barreiras raciais, essas pessoas passariam. Porque as pessoas que vem do Sul entram aqui facilmente? Porque elas são mais capacitadas ou porque preenchem um modelo? É comum chamar secretários, pessoas que vêm do Sul, para assumir cargos. O contrário não é verdadeiro, por isso que o racismo é complexo. É para resolver ou para brincar que vai resolver? Se for para resolver, você tem que ir até o limite. Isso que a presidente está dizendo que vai fazer é importante. Tem que mexer nos cargos de confiança. Não quer fazer com os funcionários públicos? Faça com os cargos de confiança, porque se você chegar em determinados lugares, parece que não está aqui. Então tem alguma coisa que impede a entrada das pessoas. Se for para fazer, você tem que pegar e fazer. Não tem? Então forme. Porque é ganho. Não se está fazendo isso para a reparação. Do ponto de vista estratégico, um dos problemas do nosso país é que tem comércio com a África, quer avançar sua posição no mundo com relação ao Caribe e, quando chega a diplomacia brasileira, é toda branca. Eles [os brasileiros] que se dizem multiétnicos, multirraciais, só chegam os brancos. Para quem pensa do ponto de vista estratégico, vê que é preciso mudar isso. Você só muda isso se investir nas pessoas. As pessoas ficaram de fora porque não foram dados os meios e as condições. Você não pode dar para um uma bicicleta e para outro, uma Ferrari e dizer: “Olha, são 2km, quem chegar primeiro leva”. Sabe aquela brincadeira de o cara dar uma volta e parar do seu lado? É isso que a gente está vendo. Quando não achamos que são razões pessoais. Tem problemas de ordem subjetiva e pessoal, porque é um perfil que diz “não gosto do seu cabelo, do seu nariz, da sua boca”. Para aqueles que não querem a imagem da sua empresa associada a isso. Isso vai tirando as pessoas dos seus lugares e colocando em outros. Se é para resolver, a gente precisa aprofundar porque, de fato, o problema existe, não é por soluções paliativas, cabem várias. A pobreza é multidimensional, porque tem cor, tem idade e gênero, atingem as mulheres, os jovens e as pessoas negras. À medida que eu reconheço isso, eu tenho que ter um programa que venha arcar essas coisas, para poder resolver, se não a gente vai ficar dando voltas. Não está se cobrando se fulano é bonzinho ou não. É só do ponto de vista da política. É para promover políticas de promoção da igualdade? Tem um slogan da Sepromi que diz assim: “Igualdade Racial é Pra Valer”. Se é para valer, então quantas pessoas negras serão contempladas? É preciso fomentar o empresariado negro? As licitações vão contemplar a questão da diversidade? Sua empresa não tem diversidade? Então, sinto muito. O Desenbahia e esses programas de fomento têm que fazer isso. Como foi que os Estados Unidos fizeram? Atlanta, que hoje é uma referência, fez isso. Você está querendo refazer o mérito. Então, quando Elias [Sampaio] diz que é preciso ter cotas, a gente precisa discutir. Evidentemente, uma coisa é o que nós queremos, outra é o que vamos negociar com a sociedade. Basta ver o que foram as questões afirmativas. Basta ver o que foi com o advento das universidades. O que mais chama atenção é que antes, quando a gente vinha falar sobre as cotas racias, as pessoas diziam que queriam as cotas sociais. Basta ver os editais da imprensa dita conservadora. Quando se abriu para fazer as cotas sociais, os mesmos vieram com os mesmos argumentos. Então eles não querem mudar nada. “Vai cair a qualidade de ensino”. Eles não querem mudar absolutamente nada. Por isso a defesa da participação política ativa. Acho que tem que ter esse trabalho de convencimento, você tem que ocupar esse espaço, no Judiciário, no Legislativo, no Executivo. Isso tem que ser a tônica. Participação política, convencimento, sobretudo os mais jovens. Com os jovens devidamente convencidos, você tem aliados para sempre. Tem uma frase de um líder, Thomas Sankara, presidente do Burkina Faso: ‘O povo você não vence, o povo você convence, quando você vence, você tem adversários, quando você convence, você tem aliados”. Então eu acho que temos que buscar o convencimento. Acho que a política é o lugar de se fazer isso.

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