Segunda, 05 de Março de 2012 - 10:59

Entrevista com o Professor Germano Machado (CEPA)

por James Martins

Entrevista com o Professor Germano Machado (CEPA)

O professor Germano Dias Machado é um jovem de 85 anos ainda cheio de sonhos e projetos mesmo diante do muito que já realizou. Fundador do Cepa (Círculo de Estudo, Pensamento e Ação), Professor Germano, como é chamado carinhosamente pelos inúmeros alunos e amigos, no entanto, é adepto do “sonho mão à obra”, não é de ficar parado, mesmo após ter sofrido e sobrevivido a três enfartos. Pelo Cepa já passaram nomes tão ilustres quanto Glauber Rocha e Carlos Lacerda, numa época em que, de fato, estudo, pensamento e ação se completavam num amálgama vital. Nesta entrevista, Germano Machado relembra a trajetória do Cepa, comenta o momento atual da cultura baiana, fala sobre ecumenismo, política, tece críticas ao livro de Nelson Motta sobre Glauber Rocha e ainda convida os jovens interessados em fazer parte do círculo. Autor de diversos livros, com destaque para “Tempo Decorrido e Outros Tempos” e “Sintetismo: Filosofia da Síntese”, Germano comprova neste bate-papo que ainda tem fôlego para fazer da poesia uma filosofia. E vice-versa.
 
James Martins: - Professor, o Cepa [Círculo de Estudo Pensamento e Ação], fundado em 1951, completou 60 anos em 2011. Conte-nos um pouco da história do movimento e as motivações que o levaram a fundá-lo.
 
Germano Machado: - O Cepa surgiu entre 49 e 51, no Palácio da Sé, com um grupo de rapazes e moças da Ação Católica. Como tínhamos uma saleta, com livros do filósofo Jacques Maritain, e revistas da JOC e algumas socialistas de São Paulo, Monsenhor Aníbal Matta, Diretor do jornal A Semana Católica, jogou no chão os livros, revistas e jornais. Essa saleta nos foi oferecida para essas reuniões por D. Anita Tourinho e D. Lindaura Silva. Na segunda-feira, quando fui entregar meu artigo semanal para publicação, D. Anita avisou do fato. Então procurei Ático Villas-Boas da Mota e lhe contei o fato. Ambos tínhamos uma visão negativa sobre a linha editorial da Semana Católica, pois Monsenhor Aníbal defendia, no próprio jornal, uma linha pró-franquismo e era realmente mais do que conservador. Sabíamos disso. D. Anita Tourinho e D. Lindaura Silva acharam que aquela saleta não era visitada ou olhada senão para limpeza, de quando em vez, não esperando que Monsenhor Aníbal descobrisse. Esse círculo de estudo não era conhecido em nenhum setor da Ação Católica, pois nós queríamos análise de política nacional, internacional, combate à ditadura de Vargas, que nós achávamos que não foi desmontada. A visão de Maritain era bem larga, tanto no aspecto político, quanto religioso. Lembrar que esse filósofo foi o criador, no Século XX, do neo-tomismo. Foram esses motivos e outros, em relação às diversas problemáticas, que levaram o grupo a querer inicialmente apenas estudar, ler, entender, discutir. Como gesto do referido monsenhor, Ático sugeriu, e nós nos movimentamos, que fundássemos um pensionato para estudantes do interior. Achamos uma casa, no Largo da Saúde, 9. Colocamos em vários setores educativos o que pretendíamos e foram aparecendo elementos, morando no pensionato, estudantes do interior. Quem avaliou foi Maneka Pedreira, que depois de junho/julho de 51, apresentado por Carlos Lacerda a mim, sempre nos ajudou.
 
JM: - Dessa trajetória tão longa, quais momentos o senhor destacaria como especialmente prazerosos e/ou difíceis?
 
GM: - Vou lhe dar uma resposta aparentemente não objetiva, porém real. De 1951 a 2011, fatos prazerosos e difíceis estiveram sempre – e estão – em contínua sintonia. Um exemplo de fato prazeroso, entre 2010 até agora: a ida para a Faculdade Dois de Julho, onde é agora que são realizados os cursos, quer de Filosofia, Cultura, Poesia etc, como antes você conheceu no Barbalho e no Barbalho, hoje, é somente a parte administrativa. Outro exemplo: houve um período, depois dos anos 85/86, em que nos sediávamos aos sábados no Colégo Antônio Vieira. Era um fato inoportuno, mas o prazeroso foi a sugestão do querido cepista e meu amigo de coração, hoje morto, Antônio Bartolomeu Santos, sugerindo a criação da Revista Cepa Cultural e começamos, sabe Deus como, era uma revista pequena e, depois, por sugestão de Tony Pachedo, de A Tarde, desdobramos e ficou uma revista de primeira qualidade, sobretudo porque através dela fizemos dois concursos internacionais. Um em 92, com apoio de Graciela Santos Elgart, que foi até a Bulgária, onde ela falou sobre a revista, em TV Nacional, e também na Itália. Há também a ideia da Universidade do Trabalho, que é um sonho. Há semelhante na Itália, conforme me falou a própria Graciela. E uma sugestão, que só agora está surgindo entre nós, não haveria vestibular, mas o preparo técnico e apresentação prática. Um sonho? 
 
JM: - O senhor defende um conceito que, a meu ver, é extremamente importante para o momento atual que o país e, especialmente, a cidade do Salvador vive. O conceito de “Elite da massa”. O que significa isso?
 
GM: - A idéia de Elite da Massa aprendi-a no primeiro Encontro Nacional da JOC (Juventude Operária Católica Internacional), com a presença do Padre Joseph Cardijn, que tratou desse tema. Então solicitei de Francisco Mangabeira, sobrinho de Otávio Mangabeira, Presidente então da Petrobras que apoiava inteiramente a JOC e a Ação Católica. Conhecia essa sociologia e economia de Cardijn e me deu um texto. Cardijn era belga, pessoa de origem proletária, cujo pai trabalhava em minas, e foi para o seminário por esforço da mãe. Que até solicitou o apoio de senhoras católicas para que ele pudesse ir para o seminário. Voltando de férias, foi recebido pelos seus antigos companheiros jovens, e até adultos, com vaia, chamado de “pequeno burguês, “traidor da classe operária”, etc. Então Cardijn começou a elaborar toda uma perspectiva sociológica para a elevação social da classe operária ou trabalhadora. Uma dessas ideias foi Elite da Massa. Para Cardijn, mesmo na massa, até analfabeta, ou razoavelmente alfabetizada, existem rapazes e moças com tendência liderativa, transformadora. E ela, trabalhada e educada, se constitui na Elite da Massa. Explica também que não é contra a elite, mas que a elite, dentro da sua perspectiva sociológica e política, deveria estar em função da massa. Cardijn foi mal visto na Igreja Católica, então dirigida pelo Papa Pio XII, bastante conservador, foi tido como suspeito de comunista, socialista etc.. Não fora a vida correta que sempre teve, por certo teria sido posto de escanteio total. Morto Pio XII, sucede-o um papa, João XXIII, Cardeal Roncalli, de origem proletária, que fez uma verdadeira revolução, em vários aspectos da Igreja Católica, um homem que aos 80 anos, com câncer no estômago, teve a coragem de abrir o Concílio Ecumênico Vaticano II, que renovou a liturgia, a própria Doutrina Social e, cobrindo a injustiça, nomeou cardeal o já velho e fraco fundador da JOC Internacional, o padre belga Joseph Cardijn.
 
JM: - Na sua opinião, o Cepa não seria mais útil no combate à violência do que as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs)?
 
GM: - Sim. O Cepa seria mais útil no combate à violência do que essas UPPs. Entretanto, não somos o Estado, não somos a Prefeitura, não temos condições financeiras para criar células cepianas nos bairros de periferia ou de violência. Seria um ideal termos penetração porque este assunto está ligado àquela pergunta que lhe preocupou – Elite da Massa. A polícia não percebe, nos locais de UPP que ali, naquele bairro ou local, há gente da massa com capacidade para dirigir, aprender ciência, seja ela qual for, o que falta é a Nação, o Estado e o Município terem uma Filosofia, uma Sociologia, uma Psicologia em prol da massa e da Elite da Massa. Desgraçadamente, estamos em um capitalismo que não se quer renovar, modificar-se, trasformar-se, selvagem. É a filosofia do dinheiro. O dinheiro compra tudo. Talvez toda essa barafunda venha a gerar homens que compreendam, entendam e façam na prática o que o Cepa propõe como Elite da Massa e, assim, compreensão total do valor da massa. Devo lhe dizer que a palavra massa foi usada por Cardijn devido à época. Hoje ela precisa ter uma nova face e talvez um novo nome. Sugeriria ascensão da Classe Trabalhadora. Mas é muito o que falar.
 
JM: - Dentre os inúmeros títulos publicados pela Editoração Cepa, quais o senhor destacaria? E que prêmios orgulham mais ao grupo?
 
GM: - O Prêmio Jabuti foi conferido no ano de 1990 ao Cepa, como prêmio de edição do livro do Professor Remy de Sousa, melhor autor na classe Ciências Humanas, com o livro Complexo de Macunaíma. Só a Editoração Cepa, na Bahia, recebeu esse prêmio. Em 4 de fevereiro de 1988, a Casa da Bahia, no Rio de Janeiro, conferiu o diploma Honra ao Mérito Ruy Barbosa a dois elementos do Cepa: o seu fundador e o Professor Hermano Gouveia Neto. O Cepa também foi laureado com a Medalha de Honra ao Mérito Castro Alves, devido à Revista Cepa Cultural, com um número especial sobre o autor, ao Concurso Nacional de Poesia Catro Alves e à Antologia Castro Alves Vivo, na pessoa do fundador do Cepa.
 
JM: - O Cepa sempre foi uma instituição ecumênica. Como o senhor acompanha o boom neo-pentecostal com a sua tendência a demonizar as demais manifestações religiosas?
 
GM: - Estou de acordo com a sua observação. Ecumenismo, entre igrejas realmente cristãs, de quaisquer tendências, merece toda manifestação e respeito. A revista Ultimato, dirigida por presbiterianos mineiros, combate ferozmente religiões neo-pentecostais que se comportam como empresas. Entretanto, não é intolerância religiosa, mesmo com essas organizações, porque as pessoas que as frequentam não têm culpa, merecem o nosso respeito e consideração. É polêmico, é, mas é verdadeiro.
 
JM: - Falando um pouco do senhor, quais foram os escritores e pensadores fundamentais na sua formação? E como a presença deles se faz sentir na gestação e condução do Cepa?
 
GM: - Primeiro Jacques Maritain, em face da problemática social, política, mesmo religiosa ou teológica. Outro foram os teólogos das revistas Communio e Concilium, onde estavam presentes nomes como de Danielou, Karl Hanner, Joseph Ratzinger. De outro lado Hans Küng, no seu monumental Ser Cristão; o grande pensador Karl Barth. No Brasil, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção, Gerardo de Melo Mourão e, embora sendo político, considero A Vida de Jesus, de Plínio Salgado, uma obra-prima da literatura brasileira, mesmo internacional. Li a maioria dos textos nacionais e portugueses de Hegel: sinto-me um tanto hegeliano. Farias Brito, em suas várias obras, Miguel Reale e uma infinidade. Não esquecendo As Confissões e as obras do grande africano Santo Agostinho de Hipona. De Orhan Pamuk, Outras Cores e Istambul: me deixaram encantado. Estes, entre tantos. 
 
JM: - Quais as medidas que o Cepa teve (tem) que operar para se atualizar às novas exigências trazidas pelas novas mídias (internet, etc.) e políticas culturais (Lei Rouanet e afins)?
 
GM: - Desde o ano de 1997, o CEPA já conta com um computador na sua sede administrativa para produção e arquivamento de documentos. O atual foi ofertado pelo Conselheiro Antonio Constantino Pereira. Recentemente, foi criado nosso site, cujo endereço é www.cepabrasilba.org.br, e também uma página no Facebook, nos quais divulgamos nossas notícias e as produções dos cepistas da Bahia e de fora. Quanto às políticas culturais, Lei Rouanet e afins, gostaríamos de contar com você.

JM: - Reclama-se muito dos rumos que a cultura baiana tomou, que estaria perdida no dinheirismo, no turismo desvairado, no carnaval-de-ano-inteiro, etc. Como o senhor avalia o momento atual da Bahia? É possível se falar em “saudades de ACM”? 
 
GM: - Infelizmente, a cultura baiana esteve e está no dinheirismo, no turismo, no carnaval-de-ano-inteiro e na paixão do Pelourinho e etc. É preciso que homens e mulheres, de mentalidade diferente e nova, façam política, candidatem-se e ultrapassem essas falhas, tanto da direita como da esquerda. O momento atual da Bahia é, possivelmente, de espera e de quem ouve para aguardar respostas. Quanto a ACM, todos sabemos, teve seu lado negativo, mas a parte nova de Salvador e o Centro Administrativo ainda estão sendo as saídas mais condizentes, uma vez que dolorosa e envergonhadamente, não temos um metrô, não de calças curtas, mas de grande extensividade. É urgente. É preciso.
 
JM: - Quais são as atividades atuais do CEPA e como os jovens interessados podem participar do círculo?
 
GM: - Tenho uma imensa ânsia de que o Cepa do Barbalho tenha uma atividade cultural permanente, todas as quintas-feiras, pois temos sala adequada, além da nossa biblioteca, e eu convidaria até pessoas para darem aulas, quer de Literatura, quer de Filosofia, de Sociologia, de História etc. A Faculdade Dois de Julho, aos sábados, foi e é uma bênção de Deus, onde a Diretora Executiva Rosa Valente nos deu esse empurrão benéfico. Ainda no dia 17 de dezembro, encerramos e lançamos um livro de minha autoria “Da Filosofia e do filosofar: o sentido do viver humano”. Temos tido semanalmente atividades culturais, aos sábados, e contamos com alguns elementos que nos apóiam, como Antonio Constantino Pereira, Antonio Fernando Barbosa Sacramento, o casal Dr. Mattoso e Sra., Robson de Menezes, nossa Diretoria, destacando-se Nildes Trigueiros Rodrigues e Rosa Valente. Igualmente o nosso secretário adminstrativo, estudante de Psicologia, Elder Carlos dos Santos, que vai aprendendo e, às vezes, me suportando... Enfim, você apareceu. Não desapareça e suporte esse velho que em maio espera fazer 86 anos. Depois de vários infartos miseráveis, mas estou aqui piscando os olhos e esperando abraçá-lo. Você não é FDP, é Filho de Jesus, Maria e José e meu – vá...

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