Terça, 29 de Março de 2011 - 00:00

Arto LindSAY something

por James Martins

Arto LindSAY something

Foto: James Martins / BN

Arto com o filho Noa, baiano e abusado

 

Arto Lindsay é cantor, compositor, guitarrista e produtor. Arto Lindsay é norte-americano, mas também é brasileiro. Passou a infância no interior de Pernambuco, onde aprendeu um certo sotaque e um certo swing. Sua primeira banda, DNA, formada em Nova York no final dos anos 1970, é referência do que se convencionou chamar ‘noise’, mas também faz pensar em Anton Webern, o pai do silêncio. Uma boa definição para Arto foi formulada por ele mesmo: “Experimental demais para o pop. Pop demais para o experimental”. Sua música joga com coisas simples e extremamente difíceis: silêncio, humor, sutileza, dureza e flexibilidade. Tripas e coração. Intensidades. Lucas Santtana, no site Diginóis, chamou a atenção da moçada para a importância das texturas no tratamento da canção; e apontou Arto como mestre. Um conselho para as gerações mais novas: fazer do fato arto um artefato. Ele produziu discos de Caetano Veloso, Marisa Monte, Ilê Aiyê, David Byrne, Gal Costa, Carlinhos Brown e outros. Está cada vez mais próximo das artes plásticas, como sempre esteve próximo da literatura. Nesta entrevista, Arto Lindsay fala sobre os planos para o futuro, os desfiles que organiza pela Europa, sobre as vias e desvios de sua carreira, discos, livros, comida e sobre como fumou um baseado com João Gilberto, no mesmo dia em que conheceu o poeta Waly Salomão. Enfim, um papo imperdível. Que a presença de Arto LindSAY something, para os que tiverem olhos e ouvidos livres!
 

James Martins: - Arto, seu último disco lançado foi Salt, de 2004, o que você tem feito de lá pra cá?

Arto Lindsay: - Comecei a gravar outro disco. Parei e quando recomecei tinha perdido o interesse neste disco. Embarquei noutra: comecei a fazer desfiles como uma forma de arte, cada um com música, tema, alegorias e coreografia própria. Fiz em Frankfurt, em 2008: I AM A MAN; e em 2009 fiz um na bienal de Veneza: MULTINATURAL (BLACKOUT); um em Berlin: THE PENNY PARADE; e um em Nova York: SOMEWHERE I READ. São inspiradas no carnaval é claro. Continuo a minha participação no carnaval baiano. Em 2009 fiz um trio pela Secult, com atabaques distorcidos e convidados internacionais e brasileiros. Em 2010 me apresentei na varanda do cinema Glauber Rocha com um trio de atabaques comandados por Gabi Guedes e com o computador de Gilberto Monte. Este mesmo naipe de atabaques me acompanhou num concerto especial que fiz em Inhotim, em Minas Gerais. Comecei a fazer mais shows solo, cantando só com o acompanhamento da minha guitarra atonal, que neste contexto vira uma referência tonal! E continuei a desenvolver alguns conceitos de espacialização nos shows. Fiz uma instalação/show no MAM, em Salvador, em dezembro de 2008, chamado DESFILE 16, com 4 guitarras e 12 percussionistas. Fiz um show, 36 YEARS IN 1 NIGHT, com 5 músicos, cada um numa torre de 5 metros de altura e com seu próprio sistema de som. Organizei uma espécie de arrastão com 70 adolescentes. Em maio deste ano voltei a excursionar com banda. Fiz um show na Korea, com banda, espacialização e coreografia. Tenho feito vários shows em clubes pequenos no Rio, com uma banda de improviso chamada Rabotnik e com Pedro Sá. Pretendo iniciar a gravação de um disco novo por agora e embarcar numa longa turnê no segundo semestre de 2011.

JM: - E, nesse novo disco, vai entrar algo do disco abortado?

Arto: - É possível que entrem uma ou duas músicas do disco abortado, mas em princípio eu não quero pensar nisso. Quero tentar fazer um disco novo, começando com barulho, passando por umas composições usando atabaques e barulho e, depois, passando para umas canções um pouco mais arranjadas e acabando com uma coisa mais grandiosa, cordas e não sei o que. A minha idéia é essa.

JM: - Por quê?

Arto: - Um cara sugeriu para mim fazer um show para identificar, pra de alguma forma estabelecer a marca. Para ganhar mais grana, pra viver melhor. Porque as pessoas não conseguem juntar todas as minhas atividades e...

JM: - ...e identificarem como um conjunto, um artista.

Arto: - É... é...

JM: - Catalogar, digamos.

Arto: - É. E, sem perder a minha liberdade, mas precisando consolidar um pouco a carreira, eu pensei que isso seria legal, entendeu? Na verdade eu prossegui agindo para que as pessoas não conseguissem me identificar. Para que eu pudesse surtir efeitos e não ficar preso a uma imagem que precisasse ser sempre reabastecida. E esse cara é um empresário. Ele tem idéias empresariais. Que não são novas para mim, mas, chegando desse jeito foi interessante. Também, eu tenho um certo receio, acho que todo mundo tem, de olhar pra trás. Aí eu tô tentando encarar isso um pouco. Ninguém quer olhar pra trás porque olhar pra trás significa que você parou. E eu sou muito, muitO, muiTO, muITO, mUITO, MUITO jovem para isso.

JM: - Mas, quando você olha pra trás, depois de ter falado de sempre procurar apagar o rastro, sobrou ainda assim um rastro que você consegue identificar que te segue e te faz seguir desde o início?

Arto: - Eu sinto uma unidade sim. E, ao mesmo tempo, não é que eu quis apagar os rastros, eu quis... Algumas vezes a gente quer subverter as expectativas das pessoas não é? Dar uma guinada. Só faz barulho e de repente faz uma coisa cantada, sussurrada. Mas isso também é previsível, entendeu? Então chega um momento em que você se dá conta de que já foi contra a previsibilidade tantas vezes que você tem que relaxar. Relaxar e simplesmente fazer as coisas. Eu sei que não tô conseguindo ser muito sintético sobre esse assunto, mas eu tô tentando.

JM: - Você já pensou em quem vai convidar para tocar neste novo disco?

Arto: - Já comecei a gravar. Gravei com Gabi Guedes. Vou gravar a guitarra sozinho. Vou tocar agora em Berlim, em um clube com um som incrível e também vou gravar e ver se consigo algumas passagens úteis e provavelmente eu trabalhe com Peter Schere, dos Ambitious Lovers, Melvin [Gibbs] e esse músico japonês Jun Miyake, com quem já trabalhei. Fora isso não sei.

JM: - E o disco já tem nome? Você pensa os nomes dos discos antes ou depois?

Arto: - Depois.

JM: - Sempre?

Arto: - Eu acho que sim.Só o Corpo Sutil foi um disco que meu amigo Diego, que era um interlocutor importante para mim na época, veio com uma lista enorme de nomes pra eu escolher. Ele queria me ajudar como uma espécie de produtor artístico (risos). Aconteceu também com o nome da [banda] DNA, que o pianista veio com uma lista enorme de nomes e só tinha que prestava, que era o DNA.

JM: - E do DNA o que restou na sua música de hoje? Porque tem muita gente que te conhece a partir do seu trabalho mais recente e fica meio chocada com quando ouve a banda. Embora sim, eu perceba uma unidade: duas potencialidades de uma mesma pessoa.

Arto: - É uma idéia de intensidade que você pode conseguir de várias maneiras. Sabe, uma idéia de experiência concentrada.

JM: - Mudando de pau pra cacete: o que você está lendo ou leu recentemente? 

Arto: - How To Do Things With Art, de Dorothea Hantelman; O Gaúcho Insuportável e O Retorno, de Roberto Bolaño; Autobiography of Red, de Ann Carson; Fifth Avenue, 5 A.M.: Audrey Hepburn, Breakfast at Tiffany's, and the Dawn of the Modern Woman, de Sam Wasson; Point Omega, de Don DeLillo; Robert Altman: The Oral Biography, de Mitchell Zuckoff; The Drop Edge of Yonder, de Rudy Wurlitzer. Comprei e ainda não comecei a ler: Hack the Planet: Science's Best Hope -or Worst Nightmare- for Averting Climate Catastrophe, de Eli Kintisch. Mas agora eu tô lendo um livro sobre o impacto de Gesualdo, que foi um compositor do final da Renascença, na Itália, no século XX. Ele escrevia madrigais, peças curtas para côro, vozes, e usava umas dissonâncias ultra-modernas. E, na verdade nunca deixou de ser conhecido, mas, no início do século vinte foi importante em momentos diversos para Schoemberg e Stravinsky. A vida dele, que é muito documentada, é descrita em detalhes no livro e o fato dele ser príncipe e tudo o mais facilitou o lance todo. Estou fascinado com a história de Gesualdo.

JM: - E, falando em livros, quais foram os livros e autores fundamentais em sua vida?

Arto: - Ninguém nunca me fez essa pergunta. Acho que Rimbaud, Willian Burroughs... Os que eu lembro assim agora, de cabeça. Sei que, quando eu era adolescente, a primeira leitura de e. e. cummings foi importante para mim. Na minha juventude eu li bastante poesia e eu escrevia poesia, antes de escrever letras.

JM: - E na literatura em português, alguma coisa te chamou a atenção?

Arto: - A literatura em português na verdade chegou para mim através da música popular. Mas o João Cabral foi um cara que eu li adolescente e gostei muito. Gilberto Freire, que é antropólogo mas também escreve pra caralho! E... mas eu li muito desde menino. Os primeiros livros que eu li eram livros de menino, tipo Ivanhoé, Três Mosqueteiros, meu pai tinha uma tradução muito bonita de As Mil e Uma Noites. Li muito. Mas eu não sou muito de ler e decorar. Geralmente as pessoas decoram as coisas que lhe são importantes. Já para mim, ler foi talvez mais atividade do que absorção. 

JM: - Você que anda pelo mundo prestando atenção em tudo, o que descobriu de realmente empolgante na música ultimamente? 

Arto: - Me liguei em algumas coisas que não são tão novas. Minimal Techno; os chamados compositores spectrais, [Gérard] Grisey e outros. Continuo empolgado pelas estrelas do rap norte americano, pelo soul e pelo samba.

JM: - No Brasil, os trabalhos de outros que você produziu são muito mais conhecidos que os seus próprios. A que você atribui isso?

Arto: - Bem, não me dediquei a fazer sucesso radiofônico. Não bati sempre na mesma tecla, nem no popular nem no experimental. Sou difícil de ser descrito.

JM: - Dos discos em que você atuou como produtor, qual o que mais se parece com você?

Arto: - Tenho orgulho de muitos discos que fiz... Não sei qual é o mais parecido comigo. Acho que seria pretensioso dizer que algum é parecido comigo.

JM: - Uma pergunta que talvez seja até besta. Como você teve a idéia de uma guitarra de 12 cordas, sem afinação (ou com uma afinação não convencional)? O que você pretendia (pretende) extrair dela? 

Arto: - Barulho, ritmo. A idéia era mais centrada no músico do que no instrumento. Era a idéia de desenvolver uma técnica própria, pessoal. As 12 cordas (de fato uso 11) chegaram por acaso. Um cara que trabalhava comigo tinha uma para vender.

JM: - Houve um tempo em que grandes ousadias musicais se davam na grande mídia (rádio e TV): coisas cotidianas. Hoje são reservadas aos pequenos selos especializados, programas ou web sites segmentados e coisas do tipo, sob o rótulo de ‘alternativo’. Como você vê essa movimentação? Não te dá vontade de que toda a população tenha acesso à sua música? Será que “a massa” nunca mais vai comer o tal “biscoito fino”? 

Arto: - Bem, não acho que seja bem assim. Quer dizer, é assim mas não completamente.
O alternativo já é um estilo estabelecido. O experimental já é um gueto muito confortável. O mainstream já incorpora barulhinhos e batidas abstratas, especialmente via hip hop. Vê o caso do Psirico, por exemplo. É cheio de coisas que em outro contexto seriam consideradas experimentais: tudo quebrado, sem repetições óbvias. Dito isso, adoro que uma certa garotada esteja cada vez mais interessada nesta música difícil. Gostaria sim que mais pessoas tivessem acesso à minha música, mas de alguma forma preferi ter um impacto mais profundo ou intenso num número menor de pessoas e não servir de papel de parede para as massas. Ahhh, mas sei que de vez em quando seria bom ouvir um monte de gente cantando uma canção minha...

JM: - Mas, independente de tudo isso, da música ser mais delicada ou mais punk ou mais digressiva ou experimental ou o que quer que seja, tem uma coisa dos próprios veículos de comunicação que não tocam determinadas coisas mais. Porque eu tenho certeza de que diversas das suas canções teriam grande eco nas pessoas se fossem ao menos executadas nas rádios. Como diria o Haroldo, “aquela música se não canta não é popular”. Eu poderia enumerar muitos possíveis hits seus, mas eu prefiro que você mesmo o faça. Quais das suas canções você acha que seriam cantadas por todo mundo se tocassem mais?

Arto: - Eu não conseguiria lembrar agora. É engraçado esse aspecto, porque eu acho que de alguma forma eu não quis aquilo, senão eu teria corrido atrás com mais persistência e atacado este problema diretamente. E, de alguma forma eu fiz cu doce entendeu? Eu até me ofereci em algum momento ao mundo pop, assim: quer? Ah, não quer não? Então eu vou embora... Tudo depende muito também do arco da carreira. Se você começa fora, para entrar é muito difícil. Se você começa dentro, você pode até ir para fora e voltar. O que eu sempre critico no pessoal de vanguarda é essa idéia de superioridade da música experimental. Eu acho que muitas vezes tem coisas mais criativas e inovadoras na música chamada de comercial e que não existe uma hierarquia de valores ali. Sempre tive um certo ciúme das pessoas tipo Prince ou Caetano que podem fazer as duas coisas. Uma vez eu encontrei o Tom Waits na rua, com o filho dele nos ombros, e na época eu tinha lançado Envy. Aí ele falou: - cara, eu queria ser como você, você faz o que quer, tá dentro e tá fora, etc. Aí eu falei pra ele: - eu queria ser como você, pagar o aluguel em dia (risos). Mas, embora a gestão financeira não tenha sido muito sagaz, eu não tenho vergonha das coisas que fiz... Ao contrário, eu acho bom e pretendo ficar cada vez mais arrogante. E já sou bastante arrogante (risos)!

JM: - Existe já, e para mim é cada vez mais claro, um estilo Arto Lindsay de fazer. Sobretudo de cantar. Você já pensou em fazer um disco assim, de intérprete, como o que Djavan fez [Ária – 2010]?

Arto: - Eu adoraria! De vez em quando até faço uma lista na cabeça... se fosse pra fazer isso agora seria muito mais fácil do que o que eu tenho que fazer. Tem umas músicas loucas que eu queria gravar. Tem uma música chamada ‘Surra de Chicote’.

JM: - (cantando) “Virgem ser, pra querer uma surra de chicote, de chicote...”, de Luiz Melodia.

Arto: - Tá vendo, você é a única pessoa que lembrava dessa música. Porque você é igualmente perverso (risos). E é uma loucura essa música.

JM: - E quais são outras músicas que você cantaria? Ou, melhor, para não ficar uma lista muito grande, quais as que não poderiam ficar de fora?

Arto: - Isso depende, porque, ou você faz um disco meio canônico, que é tipo as músicas que eu acho as melhores, [ironicamente] que eu amo, que são minha vida... não sei o quê...  ou um disco com essas músicas e outras, assim mais relaxadas. Por exemplo, tem uma música do Caetano que eu adoro e que ninguém nunca deu bola que é chamada de ‘Este Amor’, que ele fez pra Dedé no Estrangeiro. (cantando) “Se alguém pudesse ser um siboney boiando à flor do sol (...)”. Essa música é demais, cara, a melodia é linda. E a gente fez uma gravação bonita, mas um pouco dura. Tem também o Nelson Cavaquinho, que eu já cantei mas nunca gravei. E algumas músicas do Bob Dylan naquele disco ‘Blood on the Tracks’ que são muito boas e que eu adoro. É o disco do divórcio dele: (cantando) “If you see her, say hello (...)”. 

JM: - Eu lembro dessa música de uma gravação do Renato Russo.

Arto: - Ele gravou essa música? É..., aquele disco [de Dylan] tem músicas incríveis. Mas eu já gravei Prince, já gravei Al Green, nunca gravei Marvin Gaye...

JM: - O que você gravou de Prince?

Arto: - Erotic City, em Mundo Civilizado.

JM: - Verdade. Falando nisso, você tem disco favorito entre os seus?

Arto: - Eu acho que Mundo Civilizado e Prize são os melhores, solo.

JM: - E voltando outra vez ao disco novo, você disse que tá com déficit de composições, como é que vai resolver isso?

Arto: - Eu tô tentando escrever letras de uma maneira meio aglutinadora, um pouquinho aqui, um pouquinho ali...

JM: - E como é que você escolhe se vai escrever em português ou em inglês?

Arto: - Depende da frase inicial, entendeu? Geralmente começa com uma frase, uma imagem, não começa com um tema. Mas, voltando ao disco, eu também comecei um projeto com Jun Miyake e estou devendo ainda letras para este projeto, e tivemos idéias muito boas para as letras, mas eu não executei essas idéias ainda, logo estou meio embolado.  

JM: - Uma declaração sua: “O Nirvana, por exemplo, é um Beatles vestido de zoeira. O que a gente fazia era bem mais sofisticado do que isso. A técnica era mais primitiva mas a ambição artística era muito maior”. Eu quero que você explique um pouco o que era a banda DNA e o que veio a se chamar de No Wave e onde você reconhece influências daquilo hoje em dia. 

Arto: - No Wave era um movimento sem medo de começar do início, sem medo do absoluto. Tínhamos um desejo de fazer da música uma arte fundadora de novas experiências, não de representar uma contemporaneidade. Queríamos conseguir estas proezas no meio da balada, louvar as mini saias e dominar os salões. Acho que a garotada tem saudade da ambição, da radicalidade.

JM: - Sobre aqueles desfiles, como é que é isso exatamente?  Onde esses eventos se encontram com a sua música e vice-versa?

Arto: - Posso entender um desfile como uma canção ou um livro apesar de ser mais parecido com um filme ou com uma peça de teatro.

JM: - No filme Coração Vagabundo, de Fernando Grostein Andrade, vê-se uma acalorada discussão entre Caetano Veloso e Hermeto Paschoal a respeito da superioridade da música americana sobre a brasileira (ou o contrário). Você, que faz parte de ambos os cancioneiros, tem opinião sobre isso? Se mete em briga de baianos? 

Arto: - Hermeto é baiano? Vi o filme mas não lembro da cena. Caetano defendia a superioridade norte americana? Acho os dois cancioneiros riquíssimos. Canto samba, canto soul.

JM: - Não, Hermeto não é baiano. Eu apenas brinquei com a declaração de Millôr Fernandes, na época da briga Caetano x Paulo Francis, que, consultado, respondeu: "Não me meto em briga de baianos". Sendo Francis também não-baiano e portador até de uma 'baianofobia'. Usei pelo fato de você ser um baiano-não-baiano. E por fazer parte das duas musicografias. Sim, Caetano defende a superioridade da música popular norte americana sobre as demais (inclusive a brasileira). E Hermeto rebate. Perguntei a mesma coisa a Júlio Medaglia [Passo para Arto a resposta de Medaglia, que pode ser lida aqui].

Arto: - Quem me dera responder do jeito que o Medaglia responde. Não que eu concorde com ele.

JM: - Outra coisa, sobre a questão do sucesso popular. Entendo que você tenha escolhido "ter um impacto mais profundo ou intenso num número menor de pessoas". Mas estou falando das mídias eletrônicas (rádio, TV). Quero dizer que, independente de tudo o que você disse, várias das suas canções seriam sim cantadas por um monte de gente se tocassem no rádio ou saíssem na trilha da novela. O gosto do povo continua amplo, a programação é que ficou restrita. Quero saber sua opinião sobre isso.

Arto: - Sim, seria bom ser tocado no rádio. Mas acho que a cultura popular procede de maneira cíclica: abre, fecha, abre e fecha de novo... Claro que prefiro períodos dum gosto popular mais abrangente. Acho, como você, que o povo gosta de graça e de prazer. São os homens de negócio que têm receio quanto a futuros próximos.

JM: - Qual é o melhor lugar do mundo para se viver hoje em dia? 

Arto: - O Rio de Janeiro.
 

JM: - Mas e quando você está em Salvador, o que é que gosta de fazer?

Arto: - Olha, gosto de ver as pessoas, os amigos, gosto do carnaval. Eu não sou muito de praia, em lugar nenhum, entendeu? Aqui come-se muito bem, principalmente na casa das pessoas. Mas não tenho um lugar específico para citar. Seria muito clichê, Sorveteria da Ribeira. Eu tô achando que o que me fascina agora em Salvador é Cachoeira, que era desconhecida pra mim.

JM: - Lembrei agora de uma vez que te acordei para perguntar sobre o seu disco brasileiro preferido, saído nos anos 1980. Você falou Outras Palavras.

Arto: - Não foi Velô?


JM: - Não. Velô foi a escolha de Carlos Rennó. E eu fiquei, depois, me perguntando porque você não escolheu O Estrangeiro, que você mesmo produziu e é o meu favorito de Caetano nesse período.

Arto: - Porque não é dos anos 80.

JM: - É sim, de 1989.

Arto: - É verdade. Ah, sei lá cara... Aquele disco Velô, por exemplo, as músicas são tão boas, mas o disco é meio...

JM: - Eu acho que o som daquele disco é...

Arto: - Ninguém gosta do som daquele disco, mas já não é necessário nem desgostar daquilo, sabe?

JM: - Mas aí eu fiquei pensando, como você tem uma ligação com o Rock’n’Roll e no Brasil a década de 1980 foi o tempo do rock, o sucesso de Titãs, Legião Urbana, Paralamas, etc. Eu queria saber qual a sua ligação com esse pessoal do rock brasileiro dos anos 80.

Arto: - Eu gostava de Paralamas, de Titãs... não tanto dos outros. Não era necessário pra mim gostar daquele rock, entendeu? Eu já tinha gostado de muito rock.

JM: - Mas você gostava de Legião Urbana, por exemplo?

Arto: - Não. As pessoas são queridas, mas... [faz cara incisiva de negação].

JM: - Agora, conta aquele negócio da maconha do João Gilberto.

Arto: - Eu já falei disso numa ocasião pública, quando o Carlinhos Nader lançou o DVD sobre Waly e eu participei de uma mesa com Caetano, Júnior do Afroreggae, Antonio Cícero. Eu contei essa história porque foi o dia em que eu conheci o Waly. E é o seguinte, um amigo que até já morreu estava morando no Chelsea Hotel e ouviu dois caras cantando e disse - “Olha que lindo”! Eram uns pontos de umbanda e ele perguntou se eles queriam gravar. E os caras disseram que estavam saindo naquela hora, mas que podia ser no outro dia, e passou um endereço. Aí eu fui com esse meu amigo e era no apartamento do Fabiano Canosa, que é um cara bacana do mundo do cinema, um apartamento antigo, enorme, como não existem mais em Nova York, de oito quartos. Então, num desses quartos, com a porta fechada, estava João Gilberto, sentado na cama, gravando uma música. Estava o João Gilberto, em cima da cama com um gravadorzinho, estavam Zé Celso [Martinez Correa, diretor de teatro], que é o cara que o meu amigo tinha encontrado no Chelsea, o namorado dele, Waly Salomão, Fabiano, meu amigo e eu. Fabiano foi embora logo, meu amigo também cansou logo e foi embora e o João ficou gravando a mesma música 50 vezes e sempre apagando -“Ah, não tá bom não”. E todo mundo se derretendo, - “Ai, tava lindo!”. E eu não lembro se ele deixou o Zé Celso levar alguma coisa gravada ou não. Mas ficamos só o João, Waly, eu, Zé Celso e o namorado. Aí o João falou que queria queimar um baseado e perguntou quem queria fumar com ele. Todo mundo falou não, não quero não... Ninguém queria enfrentar aquele momento e eu falei eu quero. Aí tivemos que procurar outro quarto nesse apartamento enorme, entramos, trancamos a porta, fumamos o baseado, começamos a conversar sobre o exílio, o auto-exílio e começamos a chorar... chorar com saudades do Brasil e com saudades da gente mesmo, sabe, aquela coisa. Depois descemos e todo mundo foi embora pro metrô. E nesse dia o João ia para um lado, o Zé Celso e o namorado pra outro e só quem ia descer pro Village era o Waly e eu. E o Waly falou que tava procurando um lugar pra morar porque tinha acabado de sair de um apartamento, brigado com a menina e tinha ido pra rua, realmente sem ter onde morar e não tinha areia (risos)... Eu acabei dividindo um apartamento com ele durante quase um ano. Acabou a história.

JM: - E qual foi a impressão desse contato pessoal com João Gilberto, já que ele é uma figura tão mitificada e inacessível?

Arto: - Não... ele é um cara que é... olha (silêncio)... super doce e super maquiavélico.

JM: - Em que sentido?

Arto: - Porque ele controla as pessoas ao seu redor. Ele... mas ele é uma pessoa muito doce, sabe, muito carinhoso, sedutor, como no palco, na vida.

JM: - Esse negócio foi em que década? Anos o quê?

Arto: - 70.

JM: - Ele já era um mito né?

Arto: - Sim, era um mito. Então imagina, você entrar num quarto... eu sabia que ele morava em Nova York porque a gente tinha o mesmo fornecedor de maconha.

JM: - Nessa época o Hélio Oiticica era um dos fornecedores de drogas. Não tinha essa história?

Arto: - Tinha. Eu fiquei amigo do Hélio também, através de Waly. E fiquei amigo também do Julinho Bressane e do Neville de Almeida.

JM: - E por falar em Nova York, das cidades em que você viveu, qual a que você gosta mais?

Arto: - Não sei, gosto muito de Nova York, do Rio de Janeiro, gosto. Salvador. Foram só essas né? Depois da faculdade foram só essas.

JM: - Mas você tem uma relação estreita com o Japão não é?

Arto: - Mas nunca morei no Japão. Teve uma época em que eu ia bastante lá, mas faz tempo já. Devo voltar esse ano, ver se rola.

JM: - É uma coisa que eu não entendo muito bem, essa coisa dos japoneses com a música do Brasil, eles que aparentemente são tão fechados culturalmente.

Arto: - Não. Eles são fascinados por todas as culturas do mundo e são grandes estudantes de tudo o que não é japonês. Conhecem super bem, sabem de tudo o que você fez muito melhor do que você.

JM: - Eles são apaixonados pelo nosso futebol e pela bossa nova. Bebel Gilberto é uma diva lá.

Arto: - Eles têm um culto à bossa nova. Mas aí dá pra você entender um pouco, porque eles têm essa coisa de serem polidos, detalhistas, mas também cultivam a espontaneidade. É, faz sentido. Têm pontes entre a estética deles e a estética da bossa nova.

JM: - E a sua entrada lá se deu porque você é bossa nova também?

Arto: - Mas também eles adoram barulho. Tem a turma do barulho né? Tanto que a turma da gente, de Nova York, entre outras coisas, inspirou uma cena de barulho incrível no Japão. Gente de muito talento que foi pra esse mundo do barulho. 

JM: - Você ainda acompanha a música de carnaval aqui na Bahia?

Arto: - Quando eu tô aqui acompanho. Todo mundo acaba acompanhando né?

JM: - Sim, inevitavelmente. Mas e por escolha?

Arto: - Teve uma época em que eu até me interessei um pouco, meus amigos eram interessados nas conseqüências dos acordes verdes.

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