Sábado, 09 de Novembro de 2019 - 08:00

Para além de Sandy: Nossa História termina coroando Junior como protagonista

por Júnior Moreira Bordalo

Para além de Sandy: Nossa História termina coroando Junior como protagonista
Foto: Divulgação

Foi no ano de 1999 que Sandy e Junior começaram a entoar que “o que é imortal não morre no final e se distante é assim... Isso não vai ter fim”. Naquela altura, os irmãos já tinham 10 anos de carreira, eram considerados fenômenos da música brasileira e a canção “Imortal” virou mais um tijolo na construção desta sólida estrada. Vinte anos depois, os fãs terão que acordar do sonho e se apegar nestes e outros versos para seguir sem a dupla novamente.

 

Isso porque a tão comentada turnê "Nossa História" chega ao fim neste sábado (9) para uma plateia de 100 mil pessoas no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro. O projeto como um todo marca o reencontro da dupla 12 anos após sua última série de shows, no Acústico MTV, além da comemoração dos 30 anos da primeira apresentação televisionada, no palco do programa Som Brasil, da TV Globo, apresentado por Lima Duarte.

 

Os números impressionaram desde o anúncio dos shows comemorativos. Se no início eram oito, a turnê chega ao fim com 18 apresentações pelo Brasil, EUA, Portugal, mais de 600 mil ingressos vendidos, lucro estimado – apenas com os bilhetes – de R$ 32 milhões. Só a fila online chegou a 500 mil pessoas na espera para fazer a compra no site da Ingresso Rápido. Em três horas, todas as entradas para as cidades previamente anunciadas estavam esgotadas.


Em São Paulo, por exemplo, a turnê bateu recorde. Com quatro shows, os irmãos entraram no hall dos músicos que mais tocaram no Allianz Parque desde a reinauguração da arena do Palestra Italia, em 2014. Só perdem para Paul McCartney – que, além de ter sido o primeiro a fazer uma apresentação no belo estádio renovado, contabiliza cinco apresentações em cinco anos. Tudo isso enfrentando um ano considerado difícil para os brasileiros, especialmente na economia e política.

 

A passagem por Salvador foi logo no início: 13 de julho. Era a segunda apresentação da sequência, mas o clima nostálgico já estava estabelecido. Na ocasião, o setlist – que viria a sofrer poucas alterações – cumpriu com o prometido e trouxe só sucessos, como "A Lenda", "As Quatro Estações", “Eu Acho que Pirei” e “Vamo Pulá”. Contudo, naquele momento, uma constatação já pode ser estabelecida: a turnê Nossa História serviria para reafirmar o brilho de Junior Lima. Sim. Não é novidade para ninguém que, ao longo de toda a carreira, o filho de Xororó foi apontado diversas vezes como “a sombra da irmã”, “cota figurativa”, dentre outras adjetivações que minimizavam seu talento. Aliás, seus talentos.

 

Com a Arena Fonte Nova lotada, o músico se mostrou um verdadeiro performer. Vocais seguros e exatos – apesar de não possuir uma grande extensão vocal, foi certeiro no que se propôs a fazer -, entrega total nas coreografias, domínio de vários instrumentos, como guitarra, violão e bateria. Além disso, coube a ele um dos melhores números da apresentação: o musical de “Enrosca”, releitura do clássico de Fabio Jr. Na plateia o que se via no público era um misto de “surpresa” com “orgulho” e até “desejo” dos (as) fãs mais assanhados (as). Sim, ele tornou-se algo de desejos das mulheres e parte do público LGBTQ+.

Não é que Sandy estivesse apagada. Após tantos anos, ela seguiu entregando sua bela voz, precisa e limpa, que a transformou em uma das melhores e maiores cantoras do País. Contudo, a sensação é que agora o bolo está – como sempre deveria ter sido – dividido igualmente. Este sentimento se estendeu ao longo de toda a turnê. É como se o “star quality” de Junior tivesse aflorado. Não à toa que quase todas as críticas especializadas ressaltaram o “despertar do olhar” para o músico.

 

Durante um especial sobre a carreira da dupla no seu canal do YouTube, o Pipocando Música, Júnior foi questionado sobre a “prioridade” que os diretores, imprensa entre outros passaram a dar para sua irmã nos 17 anos de carreira. “A gente nunca competiu, a gente sempre se entendeu como complementares e isso foi fundamental para termos um bom relacionamento, para não gerar ciúmes”, desabafou. Para ele, virar segunda voz foi algo que aconteceu naturalmente.

 

“Eu tinha uma habilidade e gostava da segunda voz, que era o lance de abrir harmonia. Quando a gente foi gravar a primeira música da vida, a Sandy foi gravar a primeira porque era um ano mais velha, estava mais ensaiadinha, e eu estava do lado e comecei a fazer segunda voz da minha cabeça. Meu pai olhou: 'Como assim, moleque? Você tá fazendo segunda?'. Eu tinha seis anos de idade”, relembrou orgulhoso.

 

Apesar do entendimento interno, o posicionamento de ser “menos importante” que Sandy na dupla o fez buscar outros estímulos. “Esse tipo de coisa me estimulava a fazer um trampo legal, sabe? Vou dançar bem, aprender a tocar instrumentos... foi o meu incentivo. 'Ah beleza, estão falando que eu sou sombra?'. Então, vou fazer um solo de guitarra nesse show”, pontuou. Assista:

O fato é que durante esses 12 anos longe dos grandes holofotes, Junior pode experimentar coisas que a carreira em dupla não permitiria. Por exemplo, assumiu a bateria de uma banda de rock, fez projetos na música eletrônica, produziu CD’s de outros artistas, virou youtuber e até criou uma exposição fotográfica. Nas redes sociais, vem defendendo causas sociais, o que mostra estar antenado – e preocupado - com os acontecimentos do Brasil, apesar da sua vida cercada por privilégios. Talvez, por isso, ele também tenha se destacado ao protagonizar as maiores repercussões da turnê. Relembre alguns momentos:

 

MARIA CHIQUINHA

Durante show em Fortaleza, no dia 19 de julho, o público aproveitou uma falha do som para entoar versos de “Maria Chiquinha”. Porém, ao invés de dizer "O resto? Pode deixar que eu aproveito", parte do final da canção, Junior mudou a letra, considerada por muitos como "machista". "Para com isso. Isso não é mais aceitável. Não são mais os anos 90. Não vou fazer nada com o resto. Deixa em paz a Maria Chiquinha. A Maria Chiquinha faz o que ela quiser no mato".

AMAZÔNIA

Como a turnê aconteceu durante todos os protestos pela preservação da Amazônia, no primeiro show em São Paulo, no dia 24 de agosto, após cantar a “Libertar”, o músico foi ao microfone e pediu: "Deixem a nossa Amazônia em paz!". Na sequência, parte do público começou a criticar o presidente Jair Bolsonaro.

CARISMA

Ao contrário da irmã que optou por deixar o filho, Theo, longe dos holofotes, Junior não só levou o herdeiro Othon para os bastidores dos shows, como permitiu que ele participasse dos ensaios, fazendo a alegria dos fãs, que anseiam por ter mais detalhes da vida dos ídolos. Em um dos registros, o pequeno aparece tocando bateria. Othon é fruto do seu casamento com Monica Benini.

 

 

Como dito, o último show da dupla acontece neste sábado (9) em uma especial de “Sandy e Junior Rock in Rio”. Pela primeira vez no projeto, outras atrações integrarão a line-up. Se você é uma das 100 mil pessoas que conseguiram um dos ingressos, programa-se. O show de abertura com a banda Melim começa às 19h30; em seguida, Sandy & Junior, às 21h30; logo após, o encerramento será com DJ Santti + Trio Elétrico com Samby e Junior, às 00h15. Na última aparição como dupla na TV, no “Domingão do Faustão”, os irmãos reafirmaram que, apesar do sucesso, o projeto chegará de fato ao fim, mas o momento será eternizado em um DVD que terá por missão sintetizar o poder que o cantor, dançarino, músico e performer teve ao longo dessas 18 apresentações.

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