Segunda, 01 de Abril de 2019 - 14:00

'Furacão Anitta' decepciona pelo teor 'chapa branca' defendido por Leo Dias na narrativa

por Ailma Teixeira / Júnior Moreira Bordalo

'Furacão Anitta' decepciona pelo teor 'chapa branca' defendido por Leo Dias na narrativa
Foto: Reprodução / Instagram

Levando em conta que uma biografia existe para contar a história de vida de alguém, é imprescindível que o foco desse texto seja uma pessoa, vamos dizer, “biografável”. Sendo Anitta uma jovem mulher de 26 anos, que saiu de um bairro periférico do Rio de Janeiro, e hoje tem uma carreira consolidada no mercado brasileiro e ascendente no cenário latino e estadunidense, tanto na música quanto na publicidade e no setor empresarial, é claro que sua vida desperta interesse, o que justifica tal obra. Ainda assim, “Furacão Anitta” não empolga, porém não por falta de fatos interessantes na vida da cantora.

 

Provavelmente o maior jornalista especializado em fofoca no Brasil, Leo Dias divulga essa biografia há tempos e já repetiu várias vezes que não se achava capaz de tal feito. E talvez aí resida um dos primeiros problemas. Muitos dos fatos relatados no livro já eram conhecidos pelos leitores do seu blog, já que quase que diariamente ele foi revelando trechos que seriam abordados. Nos últimos dias, por exemplo, durante processo de divulgação, ele próprio soltou spoilers completos de alguns dos capítulos, já entregando parte do conteúdo que o leitor teria. Leo tem contato direto e diário com Anitta. É quase um especialista de sua vida e carreira, especialmente quando se trata de “polêmicas”.

 

Mas esse não foi seu maior pecado. O texto é prejudicado pela admiração que o autor sente pelo foco da sua obra. O jornalista não esconde o quão “empolgado” é com a história de Anitta – e tudo bem! –, mas quando o livro a coloca como correta em todos os seus conflitos é difícil não pensar que o julgamento dele, de certa forma, foi prejudicado pela paixão. Ao longo das páginas, o leitor se depara sempre com a ótica de que a artista foi vitimizada pelos seus algozes. A impressão que passa é de que o outro lado da história – tão importante quanto a biografada –, quase nunca foi escutado ou levado em consideração.  Óbvio que não há motivos para minimizar ou descredibilizar a versão de que ela foi “apunhalada e explorada” por inúmeros aproveitadores até chegar aonde chegou. Porém, o que trava é a narrativa defensora, que em nenhum momento entra em conflito com o que ela, porventura, poderia não querer falar.

 

Dois exemplos: Anitta revelou sua bissexualidade em um momento em que parte de seus fãs lhe cobrava um posicionamento político em favor da população LGBTQ+. Então, ela deu a entender que fazia parte do grupo e, em seguida, deixou isso claro em sua série para a Netflix. Depois, teve também o clipe de “Não perco meu tempo” em que ela beija várias pessoas, inclusive mulheres. A cantora não precisa provar sua sexualidade a ninguém, claro, mas se o livro dedica um capítulo para falar dos relacionamentos amorosos com homens, por que não há nenhuma informação sobre as mulheres com quem ela já se envolveu? Além disso, todos os nomes citados já haviam sido apontados pela imprensa especializada em fofocas dos famosos. Inclusive, como o próprio autor lembra, alguns divulgados pela própria para “abafar” outros assuntos, como o processo que se arrastou por anos contra a ex-empresária Kamilla Fialho.

 

Segundo: cadê Gabriel Medina? Desde o Carnaval deste ano se especula que a cantora e o surfista estão se “conhecendo melhor”. E o curioso é que esses boatos nasceram concomitantemente ao fato comprovado de que ela deu pelo menos um beijo no “mano Neymar” durante a folia. Essa segunda parte, que o “Fofocalizando”, programa do SBT que o jornalista apresenta, deu ampla cobertura, está presente no livro. Já Medina nem é citado. Nem para dizer que não há nada ou para comentar a especulação. No mínimo estranho, já que, segundo o autor, o livro estava concluído quando ele decidiu acrescentar informações sobre o tumultuado Carnaval de Anitta. Era melhor não ter mexido.

 

Outro problema da obra é a própria narrativa. O jornalista começa apresentando a história da família da cantora, que veio da Paraíba e os dramas vividos para se estabelecer no Rio de Janeiro. Traz o avô de Anitta, Pedro Júlio, como um homem autodidata, que tocava piano, clarinete e saxofone e ressalta como ele foi fundamental na escolha da neta. Em outro momento, Leo diz que algumas pessoas sugeriram a mãe da funkeira, Mirian Macedo, que interrompesse a gravidez, por conta das dificuldades financeiras, mas ela “rejeitou por ser muito católica e o ‘amor pela vida que crescia dentro dela já era imenso’”. O desenrolar dos fatos é grosseiro, sem repertório linguístico para construir uma história mais sólida. Quando tenta trazer um texto mais literário, falha. Quando apresenta algo mais jornalístico também não convence, pois as ideias são apresentadas no senso comum, sem dados exatos, a exemplo do trecho: “Em um mundo digital, em que a vida online ocupa cada vez mais o tempo...”. É genérico.

 

Quanto aos conflitos, as brigas com Simaria e com Pitty (dá pra chamar de briga?) parecem infantis a ponto de nem merecer capítulo. Outros entraves, no entanto, têm cheiro de processo. Preta Gil é pintada de cobra e uma resposta a isso é mais que esperada. A própria Kamilla Fialho, contra quem pesa acusações gravíssimas, reuniu seu posicionamento em suas redes sociais. Segundo a biografia, a empresária chegou a dar anabolizantes para Anitta e Lexa, sem que as artistas soubessem o que estavam consumindo. A reviravolta disso fica por conta do fato que a Poderosa decidiu chamar a (ex?) rival para sua festa de aniversário, celebrada apenas um dia após o vazamento/ lançamento do livro. É muito marqueteira ou não é? Inclusive, outros desafetos listados na biografia, como Rômulo Costa – dono da Furacão 2000 e uma das pessoas que mais teria prejudicado a artista no início da carreira –, também estavam na festa.

 

Provavelmente, a grande revelação do livro foi a religião de Anitta – novidade para quem não dá audiência a Danilo Gentili, no SBT, e Daniela Albuquerque, na RedeTV!, porque Leo também adiantou isso nos programas de ambos. Outro ponto desconhecido que a biografia trata é o rompimento da parceria meteórica da cantora com a Audio Mix, o maior escritório de empresariamento artístico do Brasil.

 

Além disso, o autor apresenta o nome do suposto grande amor da vida da cantora: Daniel Trovejani. Sobre ele, o livro não diz muito: se limita a contar que os dois se envolveram no passado, hoje são sócios e ele odeia a fama, vide o perfil trancado no Instagram. Mas vale lembrar que o ex-marido da funkeira, Thiago Magalhães, também era reservado no início.

 

De toda forma, no texto, falta coesão, o que faz parecer mais um remendo de tópicos em alguns trechos do livro, e também falta fluidez, o que pode deixar a leitura cansativa. No final, o jornalista ainda se arrisca a declarar o futuro da cantora. Um passo ousado, já que ela pode repensar os planos para a carreira a qualquer momento.

 

Em suma, “Furacão Anitta” é uma obra que apresenta deficiências, mas que pode satisfazer os fãs mais assíduos por conteúdos da artista, mesmo que muitos dos fatos sejam apenas declarações do entorno da mesma. Demonstra também o intenso trabalho do jornalista e sua equipe no processo da pesquisa e no acesso a conteúdos até então "secretos". Não há dúvida que a carioca é um “case de sucesso”, que desperta o interesse por onde passa e que tem uma vida de vitória, mas a sensação que fica é que ela merecia mais. Talvez, um texto escrito por alguém que não fosse tão “empolgado” com a sua história para trazer um pouco de equilíbrio. Vale lembrar que Leo Dias lançará a biografia em Salvador no dia 7 de abril, às 15h, no Salvador Shopping.

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