Sábado, 08 de Agosto de 2015 - 05:33

Reflexões de um frasco de desodorante

por Biaggio Talento

Reflexões de um frasco de desodorante
Sem poder fazer nada, o frasco de plástico de desodorante acompanhava o drama do seu “patrão”, como se referia ao sujeito que lhe comprou, retirando-o de uma prateleira empoeirada da farmácia do bairro. O frasco era uma espécie de ultimo dos moicanos de seu lote, e ficara sensibilizado com o gosto que o “patrão” tinha por ele como produto desodorizador de axila. Isso porque usava o velho sistema de spray acionado quando se aperta à altura da “barriga”, muito mais prático e ecológico que o aerosol dos seus primos mas novos, que agora dominam o mercado dos produtos de perfumaria.
 
Ocorre que o “patrão” nunca se dera tão bem com um desodorante quanto com ele, principalmente pelo fato de não irritar a pele e predominar sobre o odor natural do sovaco por quase 24 horas. Detestava os formatos que a indústria batizou como “roll-on”, aqueles bastões melequentos que se passa diretamente na pele. Por isso a fidelidade ao spray. O problema é que aquele modelo de frasco plástico foi rareando nas farmácias e supermercados até restar o último: ele, que se encontrava num canto do espelho do banheiro da casa do “patrão”, havia dois meses.
 
Dia a dia o frasco roliço acompanhava a preocupação do homem com o término gradativo do líquido perfumado que compunha o seu “eu”. Restava pouco mais de meio dedo da colônia no frasco. Na religião dos desodorantes, o invólucro equivalia ao corpo e o líquido à alma, de forma que pouco a pouco, a colônia estava desaparecendo a cada vez que o frasco era acionado e parte do líquido virava um jato de vapor. Nesse momento o “patrão” se desesperava, tentava economizar ao máximo, pois resultaram infrutíferas as buscas de um produto da mesma cepa pra comprar. O frasco se comovia, encarando o consumidor sem poder ajudar.
 
Uma bisnaga, quase vazia, de pasta de dentes, circunstante naquele mesmo banheiro, vivia seu próprio drama ao contar as horas para, também, ser descartada. Contudo, ela era plenamente substituível por embalagem nova da mesma marca já que aquele produto não havia saído de linha. Procurava consolar o desodorante vizinho com aquela lenga-lenga esquerdista: que eles eram meras engrenagem da indústria capitalista para servir escravos do sistema, que precisam se higienizar para melhor cumprir seu papel de explorado no trabalho ou circular pelo circo cínico dos eventos sociais burgueses.
 
-Você devia se preocupar é com seu próprio destino -, disse certo dia a bisnaga.
É verdade. O que pode esperar do futuro um reles frasco de desodorante vazio? O que reserva o deus Unilever, criador dos desodorantes, para os invólucros usados? Um pós vida?
 
-Sua sorte é que, no seu caso, ainda há esperança da reciclagem, eu não -, consolava a bisnaga , tentando animar o outro com sua própria desgraça.
 
O frasco pensou. Uma reciclagem equivaleria a uma reencarnação ou uma transmigração. Seria possível voltar renovado a uma prateleira, com uma embalagem nova e uma porçãozinha da mesma alma matriz perfumada que o gerou. E a vida seguiria. Mas, se na cidade não houver reciclagem, o destino, provavelmente, é o fogo. O mesmo do inferno dos humanos. E ai será o finito, como na situação descrita no pós vida egípcio, quando o coração da pessoa morta é pesado na balança de Mait, a deusa da verdade. Se o coração pecador for mais pesado que a pena de ouro é o fim. O “petisco” é jogado para “Tot”, o “comedor de mortos”. E a existência, em qualquer plano, acaba ali. O desodorante adormeceu com essa filosofia...
 
Na manhã seguinte, o frasco acordou de lado, com um ponto de visão bem diferente dos outros dias. Estava próximo ao chão, com vista do teto e parte do vaso sanitário. Logo percebeu que estava dentro da lata de lixo do banheiro. O fiozinho de colônia que ainda restava no invólucro, como um restinho de alma, era suficiente para ele manter uma certa consciência da situação. Ao seu lado a bisnaga pessimista.
-Acabou amigo-, disse.
-Sei que nosso futuro é incerto, mas eu gostaria de saber se o “patrão” conseguiu achar um novo frasco-, retrucou o desodorante com seu velho sentimentalismo. Levou as incertezas para o túmulo. A faxineira veio logo pela manhã limpar o banheiro. Amarrou o saco de lixo e o colocou na esquina da rua. Pouco depois, moleques haviam transformado o saco numa fogueira.
 
 

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