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Terça, 29 de Julho de 2014 - 09:30

Seca, o eterno drama de um povo

por José de Jesus Barreto

Seca, o eterno drama de um povo
O poeta José de Jesus Barreto. Foto: Divulgação
(Em Versejos e Proseios)

 

SECA

 

O verde esturricou.

Do gado, restam os chifres,

o couro cobrindo os ossos

e o olhar opaco, de desamparo.

 

Nada se mexe,

nem um galho ressequido.

Nenhum soluço dos entes vivos,

tudo e todos quietos,

assuntando o oco do tempo.

Afora as moscas, agourentas,

o mundo está parado

até onde a vista alcança.

 

O sol, parece, vai cozinhando

as coisas, as idéias, os sonhos,

o juízo das pessoas.

O bafo, que do chão exala, faz a vista tremer.

O caroço dos olhos dói com tanta claridade.

 

Só as cigarras, nesse instante,

agarradas às varas de candeia do cercado,

rasgam o silêncio com seu grito agudo,

estalido de morte.

 

Mais adiante,

aos poucos, vindo do ermo distante,

chega aos ouvidos acesos o gemido dolente,

monótono, de um carro-de-boi.

As rodas de madeira, pesadas,

vão esmagando espinhos,

abrindo caminhos pelas veredas poeirentas,

arrastando lento as sobras de vida,

espalhando mais ainda o pó do chão avermelhado

que vai se impregnando em tudo que existe:

 

no que resta das plantas, no pêlo dos bichos,

na pele da criançada magrela,  perebenta,

nos cabelos mal-amanhados,

nesse mormaço visguento.

 

Ah, quem dera um vento!

 

O cantochão triste do carro invisível

vai chegando em ecos pela capoeira empoeirada 

e instiga a imaginação cansada.

O som dos fueiros azeitados, agora mais nítido,

atiça a curiosidade:

 


  1. Será Nezinho que já tá voltando ?
Ou será o carro de Zé d’Antero,

que saiu de manhã cedo pra buscar palma pro gado

na fazenda da Boa Hora, seis léguas adiante,

pras bandas do sol poente, e tá de volta, passando?

Teria Nezinho arrumado, queira Deus, água fresca,

boa de se beber e que dê pra botar no porrão,  já quase no lodo?

Quem me dera uma água fria, agora,

pra encher umas cabaças e pendurar na sombra! 

 

Que inclemência, Deus meu !

 

O calor sufoca,

a boca seca,

a fome dá dormência.

Não há mais suor, nem lágrimas

nem saliva pra cuspir ...

 

A caatinga ensolarada vai,

a cada dia sem pingo de chuva,

amolgando a natureza,

os gestos, o jeito, os gostos, o sentimento,

a paisagem, o pensamento...

amoldando a amplidão com seu peso...

Essa asfixia, esse calorão de agonia.

 

 

 

Nenhuma nuvem no céu estalante,

nem uma só flor de mandacaru no amanhecer

nem um esganiço de cauã no entardecer

nenhum sinal do infinito...

Nada !

 

Nesse sertão brabo, de cuia vazia, 

bicho e gente...  É tudo igual.

Feito formiga tonta, perdida, longe do formigueiro.

Povo sem destino, sem prumo, sem promessa

nessa coivara intensa.

Só essa luz escaldante

ressecando tudo, turvando as vistas.

 

Nem um raio de esperança,

nenhum clarão na linha do sem fim,

nem uma só gota de felicidade,

nenhum sinal de chuvisco no céu.

Nada.

Só cigarras gritando até rachar,

moscas azoadas azucrinando os entes

e o gemido do velho carro-de-boi

já sumindo na estrada erma, de graveto e pó.

 

- Que será de nós, nessa noite infinda?

Vai sobrar o quê, de nós, amanhã?

 

Até quando, meu Deus ? 

 

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