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Sábado, 13 de Novembro de 2021 - 05:04

A saga de Marcolino

por Lázaro Carvalho

A saga de Marcolino
Foto: Verônica Carvalho

O fim do casamento de Marcolino não se deu por motivo de infidelidade de qualquer das partes, ou de ambas. Marcolino gostava muito da esposa e havia reciprocidade de carinho e bem querer na relação dos dois.

 

Eles se respeitavam, nunca se ofenderam moralmente, nunca houve agressão física e nunca houve falta de respeito entre eles. O que fez ruir aos poucos até desabar de vez um casamento de onze anos foi o exacerbado e incontrolável apetite sexual de Marcolino. Eles discutiram muito a relação, ela já lhe havia pedido, muitas vezes, para não ser acordada no meio da noite para a prática de sexo intempestivo. Alegou que não nasceu com a mesma disposição sexual que ele e que já estava cansada de discutir esse mesmo assunto tantas vezes e que se ele continuasse a agir daquele modo a separação entre eles seria inevitável.

 

Ela estava farta do insatisfazível apetite sexual  de Marcolino, já que nunca teve a mesma necessidade que ele tinha. Ela dizia que aquilo só poderia ser doença, que ele procurasse um médico para se tratar. Era sexo ao acordar, depois do jantar, e ele ainda queria na madrugada. Sexo sem trégua.  Ele não lhe dava tempo para sentir vontade, o sexo exaustivo é desanimador.

 

Marcolino alegava que ele também sofria com aquela situação, afinal, a sua libido exagerada o colocava numa posição de dependência e fragilidade. Ele prometia mudar a cada conversa que mantinha com a esposa. Mas no mesmo dia, ou mais tarde, ainda na noite daquele dia, Marcolino estava novamente cercando a mulher, querendo, de forma inadiável, levá-la para a cama. Ela estava cansada de interromper a novela a que assistia porque o marido só lhe permitia assistir a duas partes, intervalo da terceira parte começava a lhe dar beijo, a lhe cheirar o cangote, a lhe apalpar os peitos, a passar-lhe a mão entre as coxas, a lhe morder os ombros  até convencê-la irem para a nave espacial, ou simulador de voo, como ele chama o quarto de dormir.

 

Quando Marcolino estava em casa,  nos dias de domingo, o assédio era bem mais intenso, até mesmo quando ela estava na cozinha preparando o almoço, Marcolino se aproximava, manhoso e cheio de más intenções, a envolvia pela cintura, sussurrava-lhe, ao pé do ouvido, coisas de delicada indecência, persistia, minava-lhe-aos poucos a resistência. De nada adiantava ela dizer que não queria, que naquele momento não podia ser, que ele a deixasse em paz para fazer o almoço. Obstinado e irrefreável, ele a seduzia, a persuadia, vencia-lhe, aos poucos, a resistência a ponto de só sossegar seu ímpeto lascivo ao conseguir dela, ainda que a contra gosto, a aquiescência para a consumação do inadiável estupro consentido.

 

Solteiro e disponível, Marcolino navegava ao sabor do vento. A solteirice proveitosa lhe deu a chance de usufruir a delícia de encontros fortuitos, desfrutar o prazer de namoros de breve tempo e sabores de relacionamentos de maior duração. Longe de Marcolino a ideia de viver sob o mesmo teto com mais alguém. Sua vida estava muito boa do jeito que estava que ele nem se lembrava mais que um dia havia sido casado. Com a solteirice de vento em popa, Marcolino entabulou namoro que de prazeroso tornou-se envolvente, de apaixonante tomou rumos de compromisso, de imprescindível desembocou em casamento.

 

Este segundo relacionamento de Marcolino foi de conflito e conturbação. No início e até os dois primeiros anos, Marcolino chegou a pensar que seu problema de carência de sexo havia acabado. Nos primeiros anos ela aceitava, sem reclamar, a constância sexual do marido, mostrava-se disposta e participativa. Nos anos seguintes começou a manifestar irritação com as tentativas e aborrecimento com a insistência do companheiro. Ela chegou a dizer que hora de fazer sexo é à noite e mesmo assim não todo dia. E muito menos a todo momento como ele achava. Marcolino viu no comportamento da esposa de então a repetição da mesma falta de disposição e de colaboração da primeira mulher. Por mais que sentisse atração física por ela, Marcolino decidiu não se submeter à negativa intransigente da esposa e não aceitar quaisquer outras imposições que por certo viriam. Desta vez, foi dele que partiu a decisão de se separar.

 

Marcolino nunca teve mágoa da primeira esposa porque ela nunca escondeu a sua inapetência para o sexo de frequência anormal, ela nunca foi uma mulher fogosa, de modo que não houve nenhum fingimento da parte dela, no início e tampouco no fim. Mas dessa segunda mulher teve muita mágoa justamente pelo fato de, no início, o ter enganado fazendo-o pensar que ela era a parceira sexual, a mulher que ele sonhava ter ao seu lado. Ela poderia ter jogado limpo com ele e dito, logo no começo do relacionamento, que não gostava de sexo em demasia. Mas não foi isso que ela fez. Fingia aceitar e o levou a acreditar que aceitava e até gostava da frequência sexual dele, na verdade, não era nada mais do que um truque usado por ela para fisgá-lo e com o passar do tempo mostrar-lhe seu verdadeiro entendimento em relação ao sexo, sua indisposição indisfarçável e sua inaptidão explícita.

 

Com o fim do casamento, Marcolino, comia o que lhe aparecia e fazia muito bom proveito do que conseguia comer.  Usou as redes sociais como um terreno fértil para  conhecer  mulheres, sem se importar onde quer que elas estivessem. Para ele a distância nunca foi impedimento para um encontro amoroso quando a motivação justifica um deslocamento maior. Com os meios de transporte disponíveis, a distância física deixou de existir. Marcolino viajou a vários municípios de diversas regiões do Nordeste, atrás de mulher. No Ceará, Quixeramobim, no Piauí, Picos, na Paraíba, Cacimba de Areia, Junco do Seridó, em Pernambuco, Afogados da Ingazeira, Brejo da Madre de Deus, em Alagoas, Arapiraca, Coité do Noia, Rio Grande do Norte, Currais Novos, em Sergipe, Simão Dias, Itabaiana e Poço Redondo, terra da sua atual mulher.

 

Menino criado na zona rural, Marcolino levou uma vida saudável, de alimentação in natura e nutritiva, de madrugada, com o dia ainda escuro, seu pai o tirava da cama para tomar leite no curral das cabras. Legumes, frutas e verduras, Jerimum, fruta pão, inhame, batata doce, coalhada, cuscuz de milho, banana da terra, macaxeira, ovos de galinha caipira, feijão de corda, cozido de osso de correr, carne verde, guisado de carneiro, bode assado, jabá com pirão de café, feijão de corda com quiabo, saladas, maxixada, jilozada, costela de porco na banha, essa variedade de delícias era a melhor parte do seu dia-a-dia.

 

A ingestão diária dessa ração balanceada deu a Marcolino uma saúde de ferro e fez dele um homem forte como um touro reprodutor de raça pura. A memória funciona, a vista é boa, o coração bate certo, a pressão arterial de tão inalterável chega a ser monótona, é sempre a mesma, o mecanismo do intestino é pontual como um relógio de pulso. O único distúrbio de saúde que Marcolino enfrenta é um apetite sexual que lhe tem causado muitos problemas nos seus relacionamentos amorosos. Uma fome de mulher que o persegue desde a terceira infância, perpassou a puberdade, se reafirmou na adolescência, e prossegue até os dias de hoje. É uma necessidade sexual insaciável, incompreensível, que transcende o nível consensual da normalidade.

 

Marcolino nunca fez acepção de pessoa. Se a mulher é bonita, ele corre atrás, se ela não é bonita, ele não desperdiça, cai pra dentro do mesmo jeito. Não exclui ninguém em função da altura, do peso ou da cor. Ele só nunca se envolveu foi com mulher casada. Ele tem certeza que nasceu para morrer de morte morrida, podendo até morrer de acidente de trânsito, ou de assalto à mão armada, jamais, porém, assassinado por envolvimento em triângulo amoroso. O que mais lhe mete medo é a incompreensível e sanguinária ira de marido traído. Por mulher casada ele tem respeito humano, reverência social e dela ele mantém distância prudente e regulamentar. Por outro lado, nem ele mesmo saberia justificar o porquê de sua íntima preferência por mulher viúva, principalmente, as de meia idade.

 

Marcolino conheceu pessoalmente a viúva sergipana Damáris, uma saroaba, natural de Poço Redondo, bisneta do tenente Deomiro Bezerra, comandante de tropa volante do cangaço, perseguidor implacável do facínora Lampião e seu bando. Damaris nem chegou a aproveitar direito o bem bom do casamento porque se casou aos vinte e quatro anos e aos vinte e sete ficou viúva do marchante Januário, assassinado a sangue frio com vários disparos de arma de fogo, em plena luz do dia, no meio da feira de Porto da Folha, município vizinho a Poço Redondo.

 

A validade da viuvez de Damáris venceu no dia que o mestre de obras e empreiteiro da construção civil, Marcolino, seu atual marido, chegou a Poço Redondo para conhecê-la em pessoa, após apenas 15 dias de auspiciosas conversas e namoro virtual pela tela do computador. Ela contava, à época, 32 anos e estão juntos há cinco, desde então, Marcolino passou a se alimentar melhor, come três vezes ao dia e não tem mais do que se queixar. Com Damáris não tem tempo ruim, ela não tem indisposição, nem dor de cabeça nem má vontade. Muitas das vezes até parte dela a atitude de intenção. Quando Marcolino aponta o lápis, ela abre o caderno e dentro do quarto de dormir, em cima da cama de deitar, escrevem juntos as mais belas páginas de um amor que tem início no desejo físico de cada um deles e se atenua na concretude da saciedade de ambos.

 

O cotidiano dos dois decorre em clima de perfeita harmonia. Marcolino é um homem feliz, tem uma mulher vinte anos mais nova que ele, sente-se bem cuidado pelo carinho da esposa e bem tratado por ela, na variedade da mesa, na intimidade ritual da cama. Damaris, o ama porque ele a faz se sentir amada, desejada, respeitada e protegida.

 

No quinto ano de uma feliz convivência, Damáris engravidou e passou pelos mesmos perrengues que toda mulher passa na gravidez: dores nas costas, enjoos, câimbras, azia, prisão de ventre, falta de ar, dor de estômago. Damáris só não sentiu os desejos estapafúrdios, comuns a algumas mulheres no período de gestação. Não sentiu desejo de comer sabonete phebo, pastel de botequim, reboco de parede velha, creme dental Kolynos, manga verde travando de azeda. Damáris sentiu desejos, muitos desejos, fortes desejos, os mesmos desejos que ela sempre sentiu. Nem o peso da barriga grande lhe arrefeceu a libido constante. A gravidez a fez mais sensível, mais carecida, mais chamegosa. Mal Marcolino chegava em casa, tomava banho, jantava, assistia ao telejornal e em seguida, Damáris se servia à vontade.

 

Na manhã de uma quarta-feira chuvosa, pouco antes de ir para a maternidade sentindo o rasgamento das dores do parto, Damáris e Marcolino haviam transado como dois animais desvairados, dois felinos esfomeados, engalfinhados, um no outro, no prazer de buscarem juntos a satisfação emergencial do cio.

 

Hoje, Damáris tem um bebê recém-nascido que no peito ela amamenta e um marido, em segundo plano, que no colo ela acalenta.

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