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Sábado, 17 de Julho de 2021 - 05:05

Aquele jeito baiano de ser boêmio

por Otto Freitas

Aquele jeito baiano de ser boêmio
Foto: Fabio Bouzas

O templo do mocotó

 

Em qualquer canto da cidade, no Centro ou nos bairros, em mercados e na feira de São Joaquim, sempre havia onde comer um bom prato da culinária tradicional popular, para quem tinha estômago forte: mocotó, rabada, feijoada, buchada de bode ou de carneiro, língua de ensopado, xinxim de bofe, só para citar alguns. 

 

No caso do mocotó – que era praticamente o rei das madrugadas boêmias, depois da feijoada – havia lugares famosos, inclusive em bairros populares como Cosme de Farias, onde o pessoal comparecia religiosamente só para comer o mocotó de Semírames. Mas o templo sagrado do mocotó era mesmo o Mercado das Sete Portas, que faz parte da história de Salvador. 

 

Construído em 1940 pelo empresário Manoel Pinto de Aguiar, ganhou este nome por causa das suas sete entradas. Até hoje é um labirinto com estreitas ruelas e dezenas de boxes. Depois de São Joaquim, é a segunda maior feira livre da cidade, com barracas de secos e molhados, carne verde, verduras, frutas e folhas, além de comida e bebida. 

 

Depois de inaugurado, logo se tornou reduto da boemia baiana, atraindo músicos, artistas plásticos, sambistas, capoeiristas, jornalistas e escritores, entre eles Jorge Amado e Carybé, autor do livro As Sete Portas da Bahia. A tradição se manteve, especialmente dos 1970 em diante. Às sextas-feiras era quase devoção nas madrugadas; a farra só acabava quando os feirantes começavam a chegar trazendo das antigas hortas da Estrada da Rainha o perfume e o frescor das folhas e temperos verdes.

 

Amigo de fé e boêmio com larga experiência, Bunda Podre era presença frequente nas farras das Sete Portas, junto com seus amigos, principalmente no Alagoano, uma das barracas de comida e cachaça de rolha mais famosas da época (mais tarde virou restaurante, no primeiro andar do mercado). Calejado na noite, manhoso, costumava levar a feira da semana para casa, um jeito carinhoso de aplacar a ira da patroa com sua vida boêmia.  

 

Bunda Podre andava sempre de táxi, cuja frota era formada exclusivamente por fuscas amarelos e depois brancos. O passageiro viajava atrás, pois o banco dianteiro direito era retirado para dar lugar às compras e bagagens. Vez por outra, Bunda Podre esquecia no táxi a feira e o argumento pelo atraso na volta para casa, já com a luz da manhã. 

 

Naquele dia memorável, ele não fez a feira. Gastou todo o dinheiro que tinha “no mocotó”. Por isso mesmo, pediu ao taxista, um cara alto e forte, que o acompanhasse até o apartamento, para pegar a grana da corrida. 

 

Meio melado, Bunda Podre bateu na porta, como de costume, pois há muito desistira de carregar no bolso as chaves de casa, de tantas que já havia perdido. Do lado de dentro, uma voz masculina, ameaçadora, perguntou quem era. A bebedeira passou na hora:

 

- Quem é uma porra! Quem é você, que está aí na minha casa, seu filho da puta? Donana! Ô, Donana! O que esse cara está fazendo aí?! gritava Bunda Podre, cheio de maus pensamentos, esmurrando a porta, desesperado. 

 

Assustado, o motorista do táxi tentou aliviar a tensão:

 

- Deixa pra lá, playboy. Não precisa pagar. Esse negócio vai dar merda!

 

- Deixa pra lá um caralho! Tem um cara aí no meu apartamento com minha mulher! Donana! Ô, Donana! Abra a porta, Donana!

 

O taxista não esperou para ver, principalmente depois que ouviu uma arma ser engatilhada por trás da porta. Desceu as escadas correndo e se picou. Bunda Podre riscou imediatamente no seu rastro. Mas não foi por medo de levar tiro. É que somente nessa hora percebeu o número no tapete da soleira da porta: estava no apartamento errado, um andar abaixo do seu. 

 

Para agravar o engano, a dona da casa também se chamava Donana. Mas isso Bunda Podre só foi saber no dia seguinte.  

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