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Sábado, 03 de Julho de 2021 - 05:01

O espírito secreto das ruas

por Elieser Cesar

O espírito secreto das ruas
Foto: Maria Cecília

Alegre, melancólica, sinistra, beligerante, pacífica, aristocrática, proletária, indolente, religiosa, profana, moderna ou histórica, dentre outros adjetivos, toda rua, da metrópole cosmopolita à cidadezinha provinciana, guarda uma essência no ar, um jeito peculiar de ser, uma idiossincrasia distintiva, um traço subjetivo que a diferencia dos demais logradouros e faz com que seu morador – ou mesmo um visitante casual - se identifique com ela. Sim, como as pessoas as ruas têm alma, mesmos aquelas aparentemente desalmadas, palcos involuntários de crimes memoráveis e por onde se volatizaram as mais baixas perversões.


Pela atmosfera das ruas circula um espírito que não é de fácil apreensão, mas perceptível ao transeunte mais sensível e disposto a conferir que entre uma calçada e outra, entre uma esquina e a mais próxima, entre uma placa de identificação e a seguinte, há mais coisas do que imagina a nossa vã geografia urbana.  É como se cada rua oferecesse a quem passa um bilhete oculto, uma passaporte mágico, um ingresso fantástico para que se possa adentrar na sua subjetividade única, no seu espírito secreto, na sua personalidade discreta, enfim, na sua alma invisível e recôndita.


Porém, para captar a quintessência das ruas é preciso flanar despreocupado pela cidade, bater pernas, andar por aí, sem lenço e sem documento como na canção de Caetano Veloso, mas documentando tudo no arquivo da memória. Sempre atento aos mínimos detalhes, da simples vibração de uma árvore sacudida pelo vento à fachada musgosa de um casarão em ruínas.  Nessas pequenas coisas, aparentemente banais, se esconde o espírito secreto das ruas.
Essa aventura em busca do âmago das ruas foi empreendida, no começo do Século XX, por um jornalista e cronista com o nome do tamanho de uma avenida: João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, ou simplesmente João do Rio (1881-1921). É dele o livro que inspira esta reportagem: “A alma encantadora das ruas”, reunião de reportagens escritas entre 1904 e 1907 para o jornal Gazeta de Notícias e a revista Kosmos. Para o cronista, as ruas têm uma alma que distingue um determinado logradouro de outro, havendo ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, melancólicas, esnobes, ruas aristocráticas, ruas amorosas, ruas covardes... O cronista revela que a melhor hora para observar a cidade e apreender o sentido das ruas é na madrugada, pois, “a alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias” E ainda adverte: “Rua é como cobra. Tem veneno”. Portanto, é preciso ter muito cuidado ao sair por aí, bisbilhotando as ruas dos outros.
O cronista carioca diz que as ruas também têm pensamento próprio, “pois são entes vivos, pensam, têm ideias, filosofia e religião, havendo aquelas inteiramente católicas, livres-pensadores e até ruas sem religião” E ainda adverte: “Rua é como cobra. Tem veneno”. Portanto, é preciso ter muito cuidado ao sair por aí, bisbilhotando as ruas dos outros.


Uma caminhada pelos becos, ladeiras, avenidas, praças, largos, travessas, alamedas e simples vielas de Salvador, se observados com um olhar perscrutador, permite vislumbrar esse espírito secreto das ruas de uma cidade que, com sua mistura de cores, sons e sabores, tem muitas almas. Vejamos alguns exemplos. A Praça Castro Alves parece soprada pelos ventos da liberdade (por ser do povo) e pela brisa da alegria (como nos velhos carnavais). Via que liga a Carlos Gomes à Praça da Piedade e assim chamada porque ali eram conduzidos os condenados a serem executados no centro da cidade, como em 1835 os quatro mártires da Revolta dos Malês (Lucas Dantas, Luiz Gonzaga, Manuel Faustino e João de Deus), a Rua da Forca tem, provavelmente, uma alma penada. O Campo da Pólvora, bélica. A Rua da Faísca, elétrica. A Ladeira da Preguiça teria uma alma indolente, não fosse assim chamada por uma aberração histórica: era passagem dos negros escravizados que carregavam enormes fardos da Cidade Baixa para a Cidade Alta, e ainda tinham que ouvir os senhores de escravos que, refestelados no conforto de seus casarões, debochavam: “Sobe, preguiça!”. Verdade ou lenda urbana, o fato é que subir aquela íngreme ladeira, logo após a Igreja da Conceição da Praia, dá mesmo uma preguiça retada.


O Beco do Mijo (apelido da Rua do Curriachito, colada ao  Espaço  Glauber Rocha de cinema) tem um temperamento anti-higiênico. Descamba pela Ladeira da Água Brusca uma alma cataclísmica. Os principais locais do Comércio (Avenida Estados Unidos, Terminal da França, Rua da Grécia e outros)  abrigam um espírito estrangeiro. E mais algumas almas das ruas de Salvador: Ladeira da Montanha (lasciva); Voluntários da Pátria (patriótica); o quadrilátero que vai da Praça da Sé ao Cruzeiro de São Francisco (religiosa); o Pelourinho (histórica), Graça, Corredor da Vitória e Barra (aristocrática); Desterro (exilada); Mouraria (nômade), assim batizada no começo do Século XVIII pela presença de ciganos mouros. Já a Estrada da Rainha só pode ter um espectro de nobreza enlouquecida, como o Castelo de Elsinor, por onde vagava o fantasma do pai do príncipe Hamlet, da tragédia de Shakespeare.  A via foi construída na época de Dona Maria, a Louca, mãe de Dom João VI. Dizem que, desvairada, ela teria passado por lá.


No centro da cidade a Rua General Labatut e arredores - pela tranquilidade e a preponderância de famílias enraizadas a algumas gerações - teria uma alma geriátrica. De fato, à noite o silêncio é de asilo depois da última novela da TV. Com um enclave da juventude descolada no meio, o Bar e Restaurante Velha Espanha. E o que dizer da Rua da Lama, existente no imaginário de muitas cidades? Tem o espírito de porco.

 

Geografia Sentimental

 

Com as antenas da subjetividade ligadas, os poetas e escritores são uma raça mais sensível à metafísica das ruas. Os jornalistas também, por percorrerem diariamente a cidade num carro de reportagem, atentos a tudo o que acontece ao redor. Baiano radicado no Rio de Janeiro, o escritor e jornalista Luís Pimentel, inspirado na geografia sentimental das ruas, escreveu o livro “Esquinas dos dias” (Editora Patuá, 2020). No poema “Esquinas”, Pimentel observa que as ruas “nascem de um desenho vago/para crescer, multiplicar/parir becos, virar avenidas/inchar cidades e seus viés”.
Também poeta e jornalista, Kátia Borges vê as desigualdades sociais na Praia do Cantagalo, “um enclave de areia e sal e homens que morrem jovens no coração da cidade”, como retrata Kátia no poema “Cantagalo”; uma praia onde “a nobreza é uma miragem”. De Santa Catarina, onde reside atualmente depois de ter morado em Salvador, outra escritora e jornalista, Katherine Funke, enxerga uma alma ancestral nas árvores balançadas pela brisa do final de tarde do Corredor da Vitória. “Sempre me pareceu que as árvores conversam entre si sobre o destino dos homens, há dezenas de anos, séculos, quem sabe...”, poetiza Katherine.


Com os olhos voltados para o livro de João dos Rios e também para Amargosa, bela cidade do Vale do Jiquiriçá onde ensinou no campus da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a professora, poeta e cronista Ângela Vilma diz que “as ruas são intercâmbios crepusculares de narrativas; por exemplo, em cada casa que comunga com a outra; principalmente na conhecida parede-meia na qual segredos, dores e alegrias são espreitados por ouvidos e carnes trêmulas”.


Poeta que faz da memória a matéria-prima de seus versos para iluminar e transcender o passado, Ruy Espinheira Filho retorna à Rua da Itália da cidade de Poções, onde passou a infância e parte da adolescência. “Lá ainda vivem doces fantasmas, como na casa que meus pais construíram em meados dos anos 50. E parentes, e amigos, e amadas...”, rememora Ruy.


Como o amigo de longa data, de Feira de Santana, o poeta Antonio Brasileiro volta aos verdes anos à Ruy Barbosa, sua terra natal, para  apontar,  na Rua da Vitória, um espírito sensual. “Era uma rua estranhíssima, até que comecei a frequentá-la”, confessa o artista.


O escritor Carlos Vilarinho, autor do romance “Barroquinha”, pinta o largo homônimo da cidade com um verniz popular.  Já o escritor e jornalista Rogério Menezes direciona o pensamento para a vertiginosa Ladeira do Pepino, desafio para pedestres, ciclistas e motoristas em Salvador. “Num domingo avistei o Dique do Tororó. Dei uma volta, e perguntei: - Que ladeira é aquela? Alguém respondeu: - Do Pepino. E perguntou: - E vai subir neste calor brabo, maluco? Subi. Na metade da metade do caminho, pensei em desistir, mas fui até o fim”.


De Portugal, o escritor baiano Paulo Martins poderia escolher uma das ruas lusitanas em que a melancolia de um fado está muito presente, ou  até a Baixa Lisboeta por onde vaga, atenta à tabuleta (“o brasão das ruas”) de uma tabacaria, a alma múltipla do poeta Fernando Pessoa, mas preferiu ressaltar a forte ligação da literatura com as cidades. Observação incontestável, pois, é impossível dissociar a Paris do “antigo regime” de Balzac, a Londres vitoriana de Dickens, Salvador de Jorge Amado e (ápice da subjetividade urbanística ) “As Cidades Invisíveis”, do italiano Italo Calvino.


O escritor Marcus Borgón vai a Rua Jogo do Carneiro, a principal do bairro da Saúde, na capital baiana: “É uma bonita desordem, quase resumo de Salvador. Casarios antigos, e idosos de cadeira na porta contrastam com a movimentação de carros”. A jornalista Alzira Costa revisita a Sapeaçu de sua infância, no recôncavo baiano: “A rua não tinha nome. Ficou gravada na minha memória afetiva como 'Lá pra Baixo' e Lá pra Cima' por causa da topografia do seu início e do seu final”.


Dono do Mimosa, boteco etílico-literário com mais de 50 anos  no Dois de Julho, o comerciante João Santos de Oliveira Santos, o Santinho (bendito seja, com tantos Santos no nome!), indica uma predestinação cultural na Rua do Sodré: “Aqui faleceu  o poeta Castro Alves, no sobrado que hoje é o Colégio Ypiranga, onde estudaram, dentre outras personalidades, os cantores  Raul Seixas e Simone, e o escritor Jorge Amado.”
O jornalista Nelson Rios se volta para Lençóis, diamante da Chapada, para sublinhar na sua geografia sentimental a Rua da Baderna.  “Sempre achei o nome da rua interessante e também por ser perto da sede da prefeitura, um antigo solar do início do século XX creio. Era só sair do ofício e ir direto para a diversão, ou ao contrário. Tanto faz.”, explica. Deságua na memória do escritor e editor Valdomiro Santana a Rua Paulo Barreto, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde morou de 1974 a 1975: “Havia uma atmosfera diferente quando chovia naquela rua toda arborizada”.
O jornalista e escritor Carlos Navarro se debruça para a Rua do Alecrim, na Alagoinhas do final dos anos 60 do século passado. “Naquela época era uma subida arenosa que ia se alargando quando chegava em cima, no Alto do Alecrim, ou simplesmente Alecrim. Aí ficava o grande puteiro da cidade que ali reinou por um bom tempo. Era quase despovoada, mas muito alegre durante o dia e à noite”, suspira Navarro.


São tantas ruas, tantas recordações, tantas almas a vagar pelas artérias das cidades. Porém nestes tempos dolorosos de hecatombe provocada pela pandemia da  Covid – 19,  todos parecemos convergir para um mesmo logradouro: o Largo dos Aflitos. Ainda bem que por aí (e em qualquer cidade) sempre existe uma rua com o nome da Compadecida: Nossa Senhora.
 Rogai por nós!

 

Onde Tudo Acontece

 

À frente da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), órgão de planejamento urbano da Prefeitura de Salvador, Tânia Scolfield, até por dever de ofício, sempre lançou uma olhar diferenciado para as ruas da cidade. Sua visão de arquiteta e urbanista enxerga também as nuances culturais do espaço público. ”A rua é lugar mais importante de uma cidade. É onde tudo acontece” observa Tânia. Para ela, tornar a rua mais agradável é fazer a cidade melhor. Como exemplo cita o programa “Ruas Completas”, de valorização, requalificação e humanização das ruas da cidade, tocado desde 2017.  Tânia afirma que “cada rua tem a sua identidade” e destaca o espírito que anima algumas ruas de Salvador, sem desmerecer a importância das demais.


Avenida Sete de Setembro (Multicafetado): “É onde tudo acontece, o comércio formal e ambulante, os serviços e também uma área residencial. Todas as pessoas passam por lá”. (Esse mesmo logradouro é lembrado, de Feira de Santana, pelo professor Humberto de Oliveira: “Tem um ar muito especial, uma mistura do antigo e do kitch modernoso, casarões quase em ruínas sobre lojas de quinquilharias e roupas de duvidosa grife, bancos e mendigos, multidões e solidões, cores, cheiros...” )


Trecho Largo de Roma-Dendezeiros-Colina do Bonfim (Religioso): “É o Caminho da Fé. Neste espaço temos dois grandes santuários, o de Santa Dulce dos Pobres e a Igreja do Bonfim”.
Rua do Curuzu (Cultural): “Ali temos uma diversidade muito grande como a Casa de Maria Felipa [Centro de Visitação, Estudos, Pesquisas e Empreendimentos Étnico-Culturais, batizado com o nome da heroína negra da Independência da Bahia], o Ylê-Ayê e muitos serviços como salão de fazer tranças nos cabelos”..
 Tânia Scolfield menciona ainda logradouros em que pairam um espírito móvel (no sentido de intensa mobilidade urbana) como a Avenida Dom João VI, a principal de Brotas, a Rua Sabina Silva, que liga o bairro de Ondina à Barra, a Rua Adhemar de Barros, entre a Avenida Garibaldi e Ondina, a Avenida Joana Angélica, também no centro da cidade e locais que considera de centralidade como a Avenida Barros  Reis, ao final das sete Portas, Avenida São Rafael e Rua Ulysses Guimarães, em Sussuarana.  

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