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Sábado, 19 de Junho de 2021 - 05:05

Atração fatal

por Lázaro Carvalho

Atração fatal
Foto: Verônica Carvalho

Quando as pernas magníficas da morena deslumbrante despontam na curva da rua enladeirada, Zenóbio, é apenas uma imagem estática fixada na moldura da janela da frente da casa onde mora. O café da manhã que dona Maria do Rosário, sua mãe, prepara com desvelo, é engolido às pressas porque Zenóbio não tem outra necessidade senão se debruçar na janela para assistir ao desfile, a um tempo, elegante e natural do morenaço que tem consumido seus pensamentos. Mais ou menos no mesmo horário lá vem ela refinada no vestir e principesca no caminhar sobre a calçada das casas e pisando, sem piedade, o terreno baldio do coração dele. Ela recebeu dos deuses ancestrais a permissão para se deixar observar com admiração e absorver o olhar guloso dos homens. Ela abusa do direito legítimo de ser bonita e usar as roupas que expressam o ímpeto mal contido das formas femininas do seu corpo de mulher. Usar saia e blazer, terninho feminino, ou saia e tailleur, cada um mais bonito que o outro, no dia-a-dia para trabalhar, faz parte da sua aparência.

 

Enquanto fuma um cigarro, Zenóbio, admira, de toda a sua alma, de todo o seu coração aquela mulher, e sofre muito por nada saber sobre ela. Como se chama, se é casada, em que trabalha, se é professora, bancária, funcionária pública, secretária de algum executivo aproveitador, essa última hipótese deixa o pobre do Zenóbio com ciúmes, temeroso, e mais inseguro ainda do que já o é. Quando vai dormir, o pensamento dele se volta todo e completamente para ela.

 

Quando ela passa em frente à janela de Zenóbio, levanta os olhos e o cumprimenta tacitamente, com um sorriso de atenção e simpatia. Aquele sorriso era bastante para deixa-lo feliz e motivado para o dia todo. Ele fica enciumado porque ela sorri para todos, que por ela passam, o mesmo sorriso que deveria ser só para ele. Se a filha da puta fosse metida a besta, não falasse com ninguém seria bem melhor, mas ela é assim mesmo, é uma pessoa dada. Ele gostaria de ao menos saber o nome dela para assim a chamar nos seus momentos de elucubração e fantasia, mas nem isso.

 

Zenóbio pensou, bem, se eu não sei o seu nome, nada me impede de colocar nela um nome para que eu possa me referir a ela nos meus momentos de secreta intimidade com ela. Pensando nas características físicas da morena, revendo detalhes de sua beleza, chegou à seguinte conclusão: a rebeldia crespa dos cabelos dela revela os traços marcantes de uma raça que exprime sua grandeza na afirmação majestosa da cor. É a bela mulher entalhada em madeira escura, imagem de escultura na primorosa, obra do grande escultor. Uma deusa trazida de longe, da dimensão mais elevada do Orum, para exercer entre nós, na beleza do seu canto, o poder e a doçura da realeza de Oxum!

 

Assim pensando, Zenóbio não teve mais dúvida: Mariene! Será o nome dela daqui pra frente, pelo menos para mim. Só depois de nomear a morena, Zenóbio conseguiu pregar olho e acordar sonolento no outro dia. Mas não perdeu o horário, quando Mariene vinha andando, no horário habitual, lá estava ele na janela para vê-la passar. Ela o surpreendeu, levantou a vista, sorriu para ele e falou, “bom dia”. Foi o bastante para alterar o sacolejo do coração dele. Zenóbio agora conhecia o timbre da voz dela. O eco daquele “bom dia” repercutia o dia todo nos ouvidos dele, que pensava, que voz mais linda tem essa mulher!

 

Ele nada sabia sobre Mariene, mas ela sabia que o nome dele é Zenóbio, que estava para fazer 40 anos, filho único de dona Maria do Rosário, solteiro, gerente de uma financeira e sabia também que aquele carro cor de picolé de manga confinado no curral de manejo da garagem ao lado era propriedade particular dele. Ela percebeu que seu admirador era tímido, muito tímido e começou a futucar a fera. Mariene sempre teve fascinação por homem tímido, inseguro. Ela desprezava homem afoito, atirado, convencido, pretencioso. O que mexia com ela era a insegurança, a hesitação dos tímidos, que chegam devagar, que demoram a manifestar, por palavras, suas verdadeiras intenções, que fica na dúvida em relação ao momento certo de dar a partida, quando dele a mulher espera uma atitude, mas que vai se afirmando aos poucos, até obter a vitória estrategicamente planejada e se apossar de vez do território conquistado.

 

Mariene resolveu aprontar mais uma surpresa para Zenóbio. Seria na manhã seguinte. Ao passar por ele, o surpreendeu de uma forma inesquecível: além de levantar a vista e sorrir para ele, o cumprimentou com um “bom dia, Zenóbio”! Ao cumprimentá-lo dessa forma, Mariene dava mais um passo à frente no sentido de fazer pirraça ao seu pobre admirador. Zenóbio tossiu, se engasgou com a fumaça do cigarro. Respondeu com dificuldade o cumprimento dela. E pensou, a sacaninha sabe até meu nome...

 

Ao sair do banho, Zenóbio, se punha diante da porta espelhada do guarda-roupa a examinar, com rigoroso sentimento de auto reprovação, o seu aspecto físico. Abominava a imagem refletida. Achava-se inexpressivo, ridículo e pretencioso, afinal, que chance teria um tipinho insignificante como ele com uma mulher do porte e da estampa da morena Mariene. Além da pífia estatura, branquelo, magricela e portador de uma calva acentuada que avançava de forma irrefreável até os ermos do cocuruto. Na vã tentativa de disfarçar a clareira formada na região central do couro cabeludo, Zenóbio, remanejava para lá os fios remanescentes das laterais a fim de acobertar a grande área desmatada. Essa técnica usada por ele consiste em retirar de onde falta para colocar onde não tem. E além dos desfavores da natureza em relação a ele, ainda carregava na certidão de nascimento o peso do incomum e embaraçoso nome próprio de Zenóbio. Não teve mais dúvida, o melhor mesmo a fazer era parar de se iludir à toa e desistir do sonho obsessivo de ter para si o amor, a companhia permanente e definitiva da morena Mariene.

 

Zenóbio prometeu a si mesmo tirar para fora da sua cabeça a imagem daninha da malvada morena e não mais ficar de prontidão na janela esperando, ansioso, o momento de vê-la passar. Afinal, ela deve ter muitos outros admiradores, homens de estatura satisfatória, homens de boa aparência, atraentes, capazes de influenciar uma mulher, homens de pegada forte, que sabem usar em seu proveito próprio a sensibilidade da alma feminina, o que não era o seu caso e não lhe interessava o desonroso lugar de último da fila. Zenóbio se esquece que as decisões do cérebro não passam por cima dos sentimentos do coração.

 

Na manhã do outro dia, quando Mariene despontou na curva da rua enladeirada, lá estava Zenóbio emoldurado na janela da frente aguardando o momento de vê-la passar. A morena o surpreendeu uma vez mais porque além de cumprimentá-lo como fazia, ela acrescentou, “ah, Zenóbio, meu nome é Mirella”. Ele correu para pesquisar o significado do nome dela. Gostou muito do que descobriu. Ela era aquilo mesmo que seu nome dizia. Mas apesar do seu bonito nome de pia, ele preferia Mariene, a sua Mariene! Este seria, para ele, o nome dela.

 

A morena avançava impiedosamente no objetivo de pirraçar o pobre do Zenóbio. No dia imediatamente posterior, uma ensolarada sexta-feira, Mariene ao passar por ele parou para lhe estender um cartão de visita, e disse, “aqui está o meu número. Me liga, tá?”

 

Zenóbio ficou à espera da coragem para ligar. Três dias depois e nada de Zenóbio ligar. Ao cabo de uma semana, Mariene lhe disse, “se você não quer ligar, me passe seu número e eu ligo”. Na sexta feira subsequente, Zenóbio, finalmente, ligou. Conversaram, combinaram, marcaram e saíram. Foi uma noite inesquecível para os dois. Um encontro de conversa, drinques, jantar e namoro. Quando Zenóbio deixou Mariene em casa, a linha do horizonte pintava o rosto com as primeiras cores do novo dia.

 

O primeiro encontro repetiu-se em muitos outros. Zenóbio falava sobre casamento. Estava bem intencionado. Mariene foi apresentada a dona Maria do Rosário que simpatizou muito com a futura nora. O casamento não demorou. Mas ficou combinado que dona Maria do Rosário moraria com eles. Zenóbio jamais deixaria a mãe sozinha. A lua de mel de 15 dias na Serra Gaúcha foi um presente de dona Maria do Rosário que viu no casamento do filho a chance de dar uma finalidade útil ao moderado acúmulo de suas economias de pensionista da Previdência Social. A pequena reforma na casa começou um mês antes do casamento. Dona Maria do Rosário substituiu o piso cerâmico, mudou o gesso do teto, comprou um conjunto novo de sofás, trocou os armários da cozinha. O insípido quarto de Zenóbio, além de remodelado, ganhou cortinas estampadas, pintura acetinada e uma nova e inspiradora cama de casal.

 

O matrimônio de Zenóbio e Mariene foi celebrado, sem grandes pompas, na mesma igreja onde ele fizera a primeira comunhão. Foi uma cerimônia simples, mas verdadeira o bastante para alicerçar uma união entre duas pessoas entrelaçadas pelo amor. A chegada de Mariene para morar com eles, tornou a família de dona Maria do Rosário mais agradável e intensificou a harmonia existente. Quando Mariene engravidou do primeiro filho fez de dona Maria do Rosário a avó mais babona deste mundo, ela só pensava na chegada do netinho, pegá-lo ao colo, dar mamadeira, fazer papinhas, entoar canções de ninar para ele dormir... Zenóbio andava nas nuvens ante a expectativa iminente de ser pai.

 

Em apenas seis anos de casados, Mariene é mãe de quatro filhos de Zenóbio. Os quatro tesouros mais valiosos da bem-aventurada vida de dona Maria do Rosário.

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