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Sábado, 22 de Maio de 2021 - 05:02

A languidez do vazio

por Afonso Machado

A languidez do vazio
Foto: Acervo pessoal

Nem a companhia da folha em branco.

 

A tela, sem o brilho.

 

A caneta sem carga. O caderno sem páginas. O celular que jamais toca. A caixa de e-mail vazia.

 

Nem raio de sol. Vento. Lua. Nem as luzes da avenida.

 

(O escritor escreve com a dignidade e o fatalismo de saber que jamais será lido.)

 

Geladeira seca. Travesseiro gasto, sem fronha. Sem um cigarro no maço. No único bolso sem fundo. No último furo do cinto.

 

(Sente a desesperança crescer a cada linha.)

 

Dois dentes furados. A lente dos óculos, partida. O salário do mês do tamanho de um comprimido.

 

(O cursor pisca em espera. Não sabe se deleta o que escreve.)

 

Livro sem capa. Palavra sem letra. A pasta de arquivo, sem texto. As estrelas caem do céu. As aves não se sustentam no voo. Os galhos vão perdendo as folhas; os postes, os fios. Não havia mais água no lago. Nem a pedra no meio do caminho.

 

(Rasga as anotações. Nem ao menos consegue um título para o conto? Joga, com desespero, o caderno no chão. E pensa que suas esperanças são desilusões, apenas. O sonho de viver da escrita jamais se realizará. Porém, admite: apesar do fracasso, isso já deixou de ser motivo suficientemente forte para parar de escrever. Escrever – repete para si, em voz alta – é o que realmente importa! Conclui, resignado.)

 

Vai para o quarto e se deita. A esposa que dorme ao lado, acorda. Toca, de leve, no peito da esposa, e experimenta, uma vez mais, a sensação de vazio do seio extirpado pelo câncer.

 

(Ela fixa, por um momento, os olhos tristes, cansados, dentro dos seus.)

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