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Sábado, 01 de Maio de 2021 - 05:08

Jornalismo e boa literatura

por Jose de Jesus Barreto

Jornalismo e boa literatura
Foto: Noosfero UFBA

 “Boquira”, livro de Carlos Navarro Filho, é na real uma grande reportagem. A retomada, com boas amarrações literárias, de coberturas, matérias feitas na década de 70 e mostradas à época, com boa repercussão, pela imprensa (escrita) local e nacional. Navarro, que foi repórter do Jornal da Bahia e comandou a Sucursal do Estado de São Paulo em Salvador por mais de duas décadas, esteve à frente dessa arriscada tarefa de coberturas do assunto. Eram os tempos sombrios do regime militar, censura e violência, fazer jornalismo decente exigia coragem, ousadia e compromisso com a verdade dos fatos.

 

 O livro narra com detalhes de boas apurações e um texto enxuto, bom de ler, a desgraceira acontecida pelas bandas de Boquira, à época um fim de mundo localizado no sertão baiano, além do miolo da Chapada, já perto do rio São Francisco, entre Bom Jesus da Lapa e Ibotirama. Desgraceira que envolve interesses multinacionais, governos (estadual, municipal, nacional), políticos de toda estirpe, policiais e forças armadas, corruptos em geral e até um padre, um vigário vigarista.

 

 Conta Navarrinho (permita-me) que tudo começou com uma extrema-unção que o tal padre, rompendo catinga no lombo de uma mula, foi ministrar a uma velha beata num cafundó de caboclos roceiros que viviam até ali na santa paz de deus com suas cabras e plantios. Mas na estrada o padre bateu os olhos no Morro do Pelado, aquele pedrão acolá que rebrilhava com o bater do sol, dourado, prateado, enchendo de cobiça aquele ser de batina e alma sujas. “Ali tem ouro e prata”, apostou. E na volta pra sua igreja levou umas pedras para averiguar. Ora, com pouco tempo lá voltou o vigarista tomando assinaturas e digitais dos pobres ignorantes posseiros das terras, como se fosse um abaixo-assinado pra construir um templo. Em cartório apossou-se das terras e deu início à desgraceira.  Sim, as pedras dos morros de Boquira tinham muito chumbo à vista e, escondido, veios de prata e ouro.

 

  O padre ficou rico negociando as terras com uma grande mineradora multinacional, a Mineração Boquira, que tomou conta do lugar, da região, de tudo, com a aquiescência e compadrio dos governos e governantes, massacrando de fome, sede e bala os que se opunham à devastação da natureza e dos bens e dos seres que cruzavam o caminho da usura.  A empresa montou uma estrutura gigantesca de retirada, processamento, beneficiamento e exportação de chumbo, sem nenhuma fiscalização e controle governamental.  O mesmo chumbo (e cádmio) que arrasou com Santo Amaro e o Subaé, e gerações inteiras de santamarenses contaminados, até hoje.

 

  Fora o ouro e a prata encontrados e que saíam escondidos do país, sem nenhum registro. Fecharam os olhos dos militares do poder, a mineradora dando todo auxílio e cobertura local para a absurda e custosa operação militar – exército, marinha, aeronáutica, polícia federal, polícia civil e PM estadual, mais de centena de homens armados até os dentes – na caçada e execução do guerrilheiro capitão Carlos Lamarca, escondido com fome, sede e doentio nos brongos da catinga ao lado de um companheiro apenas, sem nenhum poder de fogo. Agradecidos, os milicos deram carta branca pra mineradora tomar conta do pedaço, com todos os poderes de mando.

 

  Está tudo isso bem contado no livro de Navarrinho, que li em duas sentadas, atraído pela história bem escrita, verdadeira, nossa história.  Realidades bem próximas, tão atuais ainda, neste Brasil cada vez mais incompreensível, desmantelado, entregues a desmandos de toda espécie.

 

 No mais, foi bom relembrar dos papos nas redações, das pautas discutidas, dos enfoques, das viagens, da questão da segurança dos repórteres, da batalha para que as reportagens fossem acatadas pelos editores (principalmente no Sul) e publicadas, a labuta de Bel com as fotos, a diligência de Daílton (foi meu repórter na Tribuna, foi-se cedo), o tesão no assunto de Antonio Jorge (saudade), a competência e articulações do mestre Navarro, aceso, incansável...

 

  Bem, está tudo dito, escrito e bem narrado nesse “Boquira”, que li, risquei, anotei e guardarei como documento. Recomendo, é leitura obrigatória a quem se interessa por nossa história, por compreender os meandros da usura, dos poderes, da violência e da corrupção neste país.

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