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Sábado, 24 de Abril de 2021 - 05:02

Filho morto, alma lavada

por Almudeña Ruiz

Filho morto, alma lavada
Foto: Paulo Barros

              Ouvi foi coisa por essas terras desde chegado de longe. Estrangeiro aguça mais o ouvido. Penso em Vargas Llosa. Pisou aqui, olhou, olhou, e destampou a guerra do fim do mundo. Não, Deus me livre guarde: não quero comparações. Deixa ele pra lá. Nem quero muita proximidade dele. Gênio, mas com posições políticas de arrepiar, sempre do lado direito. Vá lá entender.

 

                Andei muito por essa Bahia de meu Deus. Soube dessa história. Deu-se em Tucano, município desde 1933, surgido lá pelo final do século XVIII. Caminhos da guerra do fim do mundo. Nas encruzilhadas, nas paradas, nos botecos, nos povoados, ouvindo. E anotando. Se tudo verdade, tempo há de dizer. Tinha noção não de como sangue corria por essas bandas. Imaginava terra da paz, da felicidade.

 

                Senhorinho das Palmas era sujeito querido. Não era latifundiário, nome dado nesse Brasil a quem tem terra a perder de vista, e sem serventia. Tinha sua terra, suas cabras, suas vacas, poucas, sua roça. Uma loja de equipamentos agrícolas na cidade. Dava pro gasto, dava pra viver e pra repartir. Pobre não era.

 

                Homem de paz. E valente. Todos no Tucano sabiam: com Senhorinho melhor não pisar no calo. Não pisassem, doce de pessoa. De pouca fala, pouco riso, boas maneiras. Aquele silêncio, aquela face contida, coisas pra muito dizer sem dizer. Os mandões da terra, latifundiários, o tinham como inimigo. Ele, na dele.

 

                Guerra: de vez em quando, os mandachuvas encomendavam a morte de um parente dele, um amigo mais próximo. Devolvia: mandava matar alguém do lado de lá. Chumbo trocado não dói. Boa regra. Seguia.

 

                 Homem de bom coração. De verdade. Ajudava os pobres, gostava. Diferente dos coronéis da terra, acostumados a tirar o sangue dos coitados, e como tiravam.

 

                Manhã bem cedinho, sentado no banquinho amarrado na cintura, tirando leite da vaca pro café da manhã, ouve palmas na porteira. Era o Alemão. Não, não era alemão, mas o nome. Estranho, difícil de gravar, ao menos pra ele, capiau do sertão. Sobrenome alemão, difícil. Então, o chamava Ademar, o primeiro nome. Ou então Alemão, preferido.

 

                Gostava dele. Agora, cismara de ser candidato a prefeito. Mandou empurrar a porteira, e seguiu sentado tirando o leite, ele falando, a candidatura, Senhorinho assuntando. Foi simpatizando, decidiu apoiá-lo. Mais encrenca. E daí? Acostumado com elas.  

 

                Era homem de revolução, o Alemão. Nas suas terras, tinha feito brotar água pra nunca mais acabar. Andava falando em cooperativas, distribuição de terras, dizia até reforma agrária, organizou gente, juntou pequenos agricultores, era gente do bem, gostava de ajudar o próximo, gostava mesmo. E ele gostava do governador Waldir e do doutor Euclides, os dois, ele dizia, amigos dos pequenos.

 

                Tinha conversas estranhas. Falava até no mar de Tucano – louco, louco, mas louco do bem. Dizia: aqui há água pra nunca mais acabar. É só furar o chão. Em sua fazenda ao menos mostrou isso. No derredor, Tucano inteiro, uma seca de dar dó. Senhorinho andava por Creguenhem, Mandacaru, por aqueles distritos todos, aquelas roças, tudo ressequido.

 

                Caminhava com o Alemão pra lá e pra cá, campanha. Não, nada de falar muito. Não era. Apenas acompanhá-lo. Homem de muito voto. Simpatia, o povo tinha por Senhorinho. Pelo adjutório, pela atitude sincera. A campanha andava quente. Os coronéis não se conformavam com o surgimento do Alemão e os comentários corriam pra todo lado.       

 

                Senhorinho seguia estrada. Dera palavra, não ia mudar, não adiantava pressão. O Alemão estava na frente, todos sabiam. Perto do dia da eleição, choveu dinheiro, colchões, diabo a quatro. Apuração, e o Alemão começou ganhando, botou 900 votos de frente. Nada. Coronéis deram ordens de fraudar, e Alemão perdeu. Barulheira na cidade, bebedeira, fogos de artifício. De repente, um corpo no chão, tiro.

 

                Na noite, chega gente esbaforida na fazenda, onde fora dormir:

 

                - Senhorinho, atiraram em Toinho.

 

                O filho, pouco mais de 20 anos, Antônio.

 

                Não aceitara o conselho de sair da rua, ir pra casa. Os adversários comemoravam, era perigoso. Dois, três meses no hospital. Não resistiu.

 

                Alemão foi ao enterro, morrendo de medo. Clima pesado. Parecia conto de Guimarães Rosa, velório de Damastor Dagobé, um dia li, todos com medo, menos Senhorinho, só dor. Passou depois na casa dele. Encontrou-o pensativo.

 

                Alemão sentou ao lado da cama, onde repousava. Ouviu:

 

                - Não há problema. Sei quem foi.

 

                Guerra é guerra. Mas, o filho, não. Tudo certo, mas o filho, não. Dizia assim – repetia, baixinho. Fora Zé da Farmácia. Bebia, ficava violento, e os coronéis davam-lhe cachaça propositadamente. Os mandachuvas não precisavam sujar as mãos de sangue. Atirou em Toinho, só de maldade. Alemão contemplava todo o sofrimento do mundo estampado nas faces enrugadas de Senhorinho. Meu filho? – perguntava-se Senhorinho, quase morrendo de tristeza, indignado, voz trêmula de raiva. Nada não:

 

                - Tem volta, tudo na vida tem volta.

 

                E falava do filho, de como gostava de um cuscuz com leite, de carne de sol, tá certo, um pouco estourado, mas não fazia mal a ninguém. Teve prova: Zé da Farmácia encolheu-se. Passou recibo. Morava em casa grande, centro de Tucano. Farmácia embaixo, todos os aposentos em cima. Meses, e não se via Zé. Desaparecido, ninguém sabia como. Só os funcionários no atendimento. Fazenda dele, empregados cuidando.

 

                Senhorinho, depois da morte do filho, chamou dois cabras conhecidos, bons de serviço, conhecidos pela pontaria. Nem cobravam tão caro. Vida ali valia pouco, muito pouco. Profissionais do ramo, muitos.

 

                Disse: sujeito morto, recebem no ato.

 

                Orientou:

 

                - Tiro na nuca.

 

                Deu ordem:

 

                - Fiquem de butuca o tempo inteiro. Nem cochilar.

 

                Meses arrodeando a farmácia, dia e noite, os dois, sem dar na vista.

 

                Um dia, Zé da Farmácia concluiu: tanto tempo já se foi, e tudo se acalmou. Cansado de tanta reclusão, desceu para o atendimento, feliz. Chegou um freguês jovem, aparentando querer um remédio. Apressou-se em atendê-lo.

 

                Zé ainda teve tempo de vê-lo sacar a arma. Só isso.  Dois tiros na cabeça, como o mandado.

 

                Nunca mais vender remédios, nunca mais cuidar de vacas, nunca mais matar ninguém. O freguês saiu andando tranquilamente. Carro esperando, sumiu no mundo. Senhorinho tamborilava na ampla mesa da cozinha da fazenda quando soube.

 

                Pediu um copo à mulher. Tomou uma talagada de cachaça.

 

Disse:

 

                - Vindo polícia, nada de barulho, nada de choro, nem escarcéu. Me entrego de alma lavada.

 

                Tomou outro gole:

 

                - Aqui se faz, aqui se paga.

 

                Levantou-se e foi tirar um cochilo.

 

                Dormiu o sono dos justos.

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