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Sábado, 17 de Abril de 2021 - 05:05

Nossa família

por Elieser Cesar

Nossa família
Foto: Acervo pessoal

A exigência em todas as situações da vida é a marca de nossa família. Afinal, somos sofisticados. Não apreciamos o que a maioria gosta, não nos empanturramos com a massa amorfa e sem sabor, o pão de todos. Defendemos nossa exclusividade e nosso bom gosto com unhas e dentes, mais unhas do que dentes. Vou dar alguns exemplos do refinamento da nossa estirpe.

 

No lanche apreciamos uma boa e velha Tubaína com uma macia broa de coco do Bar e Mercearia Céu Azul, herança gastronômica que trouxemos de Feira de Santana. Já naquela época, à falta do saboroso refrigerante e da apetitosa broa, nos contentávamos com uma jarra de K-Suco (cujo efeito colateral era uma azia sutil e o lateral transformar a sobra rala em abafabanca numa forma de metal e com uma pequena alavanca para puxar o gelo). Eu e meu irmão mais velho, fazíamos uma jarra de K-Suco, de morango ou groselha, para acompanhar uma fofa “mata-fome”, aquele bolachão quase do tamanho de uma pizza brotinho que pode até engasgar o incauto comensal, mas sacia o apetite por uma tarde inteira. Havia também as bolachas de canela. Porém, essas eram crocantes e não nos possibilitava enterrar os dentes na maciez esfarelada da bolacha mata-fome.  

 

E por falar em pizza, nosso pai nos proporcionava essa raridade gastronômica quando recebia o ordenado, o melhor nome que já vi para salário, pois, para receber a alegria do lar no fim do mês (gasta em menos de uma semana), ele tinha que cumprir muitas ordens.  Era um desfile de sim, senhor; pois, não, patrão; agora mesmo, chefe; já estou indo; o senhor é quem manda; é pra já, comandante, e uma série de manifestações altivas que comprovam a coragem, o brio e a independência da nossa raça diante dos mandantes e dos poderosos.  

 

Mas, onde eu estava mesmo? Ah, sim: na pizza. Nosso pai nos levava a uma pizzaria chique improvisada nos finais de semana numa oficina de automóvel. Não vou dizer que o cheiro de graxa e óleo que exalavam das jantes, com ou sem pneus e do todo o local nos incomodava. A expectativa da tão esperada iguaria e o cheiro que nos fazia salivar se sobrepunha a qualquer odor. Até, hoje, carrego o cheiro da Ofipizza, como se chamava o arrojado empreendimento, como a fragrância maior daquele tempo redivivo na lembrança.  E nosso pai só escolhia do melhor: calabresa e margherita Com uma leve variação mensal, porque também sempre gostamos da variedade: margherita e calabresa.

 

Quando a pizza tamanho família chegava, com aquele cheiro que abre o apetite de um faquir, claro que, educados no melhor comportamento social, não avançávamos como bárbaros  nas fatias, nem “caímos matando”, como essa gente grosseira costuma dizer  hoje em dia. Simplesmente, havia uma disputa saudável e científica para ver quem era o mais capaz de arrebatar as primeiras fatias, num embolar de mãos, garfos e gritos reivindicatórios: “é meu, cheguei primeiro, cabeção”; “larga a mão, viadinho”; “deixe meu pedaço, freteira”; “vou lhe picar a porra, esmoler”. Tudo dentro dos estritos limites que regem o respeito fraterno e a boa convivência em família. Afinal, o importante era matar a fome; matar, não! Melhor, mitigar, uma vez que não éramos e jamais fomos uma família esfaimada, mas apenas com déficit histórico de acesso aos cardápios mais chiques.

 

Uma vez, meu irmão mais novo não se conteve ante a visão das fatias tentadoras, e se antecipou metendo a mãozinha suja de meleca na pizza. Nosso pai não se fez de rogado e, ali mesmo, na frente de todos, tascou-lhe um cascudão. Meu irmão começou a chorar. Logo, sempre amorosa e diligente, nossa mãe o fez calar, colocando-o no colo e dando-lhe uma generosa fatia de pizza. O moleque logo esqueceu o coque e abriu um sorriso maior do que todos nós.  Até parecia que havia recebido um agrado e não um sonoro e disciplinador cascudo.  Se nosso pai tava errado? Ora, o que é um cascudinho à toa, ou mesmo uma sova de nada, uma pequena pisa, perto de uma boa e cheirosa pizza?  Que nosso pai também me desse um cascudo daquele, contanto que depois levasse toda nossa família à pizzaria.  

 

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Como os mais inteligentes de vocês já devem ter percebido e os mais retardados perceberão bem depois, nossa família é muito criteriosa. Até no modo de se vestir. Às roupas de uma só cor, preferimos vestes coloridas, ao estilo verão havaiano e lápis marca texto. Para enfeitar o pescoço e o pulso, nós, os homens, optamos por acessórios de alta beleza como correntões dourados, com grandes medalhas em forma de cruz ou redondos da dimensão de uma broa, e relógios que, por pouco, poderiam ser pendurados na parede. Já as mulheres escolhem brincos que se assemelham a pequenos bambolês. Tudo usado na mais anônima discrição, pois, sempre tivemos a consciência de que a responsabilidade de disseminar o bom gosto requer, como contrapartida (e por mais paradoxal que possa parecer), um distanciamento de todo tipo de exibicionismo; do contrário, estaríamos expostos à inveja, à cobiça e à maledicência dos despeitados.

 

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Nossa família é também cinéfila. Só aprecia filmes clássicos e de qualidade indiscutível, como os de luta, com socos e porradas para todo lado, sem poupar ninguém. Às vezes, numa cena um pouco mais carregada de emoção (uma cabeça decepada pela espada justiceira do samurai; uma chacina num bairro miserável; o espancamento fatal de um inocente; uma criança prestes a ser asfixiada por um pedófilo e um corpo que despenca do 38º andar), explicamos às crianças que todo aquilo não passa de mentira e o que o sangue espirrado na tela é, na verdade, o saboroso ketchup que não dispensamos na pizza mensal e tão familiar. Temos esse cuidado didático em apaziguar os pequenos cérebros em formação e, portanto, mais propensos a acreditar em tudo o que veem, ouvem, cheiram, pegam e botam na boca.

 

Os melhores filmes que assistimos nos últimos tempos, (sempre com o panelão da feijoada carregado de pipoca, doce e untuosa para as crianças, salgada e coberta de queijo ralado para os adultos) foram pela ordem: “O serial killer da Rua da Paz”, “Massacre na aldeia Comanche” (ótimo caubói, por sinal); “Incêndio no orfanato”; “O Diabo arrancará suas tripas”; “Os velhinhos do mal”, “Rebelião no Convento das Freiras” e (cruz credo!) “Jesus não retornará”, este sobre um cara chamado Antônio Marcos Silveira de Jesus, crucifixado num pé de jaca por ordem de um coronel do sertão, cuja filha, de 58 anos, havia sido seduzida pelo protagonista.  Difícil controlar o entusiasmo da nossa família nas cenas mais vibrantes, quase todas. É gente pulando no sofá, batendo palmas, gritando e até vaiando as passagens que julga monótonas, comportamento que replicamos nos cinemas, aos quais temos ido muito pouco, por só passar porcarias românticas e dramalhões em que nada parece acontecer, filmes sem nenhuma ação, roteiros sem nenhuma noção para prender o público. É de cochilar.

 

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Nos domingos de sol nossa família não abre mão da praia. Logo cedo, as mulheres preparam a merenda: frango, arroz, macarrão e farofa, iogurte e geladinho para os meninos; cerveja litrão para os adultos e até uma cachacinha para abrir o apetite. Levamos tudo em caixas térmicas para que dure até o final da tarde, quando, tostados como camarões no óleo, retornamos para casa com aquele cansaço e a aquela sonolência provocados pelo sol.

 

Ah! Como é bom ver as crianças se esbaldarem na praia; correndo entre os nichos de banhistas, sem ligar para a areia que espalham pelo caminho e até na cara dos outros; chapinhando à beira da água; se enterrando até o pescoço na areia fofa; brincando de dar caldos até a vítima perder o fôlego; espanar a água do mar nos olhos do irmãozinho, da irmãzinha, do priminho ou da priminha. Nós, homens, preferimos ficar bebendo debaixo de um sombreiro. As mulheres, sobretudo, as mais jovens, nem bem chegam à praia e vão logo estendendo a canga e virando a bundona (sim, a bunda grande é uma conquista genética das mulheres da nossa família) para o sol e também (neste caso não podemos fazer nada), para os olhos cobiçosos dos banhistas. Os mais atrevidos só faltam, como nos desenhos animados, deslocarem as órbitas para os glúteos untados desses bronzeadores gosmentos comprados nos ambulantes à beira-mar; os mais discretos olham de soslaio e (ainda bem, pois nós, os homens da família, temos o pavio curto) guardam o resto na imaginação.

 

Então, todos já perceberam que a nossa família é ungida e unida pela mais recatada alegria.  Eu poderia falar muito mais sobre a nossa família. Por ora, basta informar que estamos nos preparando para sair de férias, ainda escolhendo um local com muita gente alegre (pois não gostamos de tristeza), a boa música pagodeira, pessoas introvertidas como nós, mas que, seguindo o nosso exemplo, vencem a introspecção atávica para conversar e fazer amizade, desde que também sejam tranquilas e reservadas.  É lá que nossa família vai acampar, com todos os apetrechos, adereços de verão e um acanhamento franciscano.

 

E, então, vêm com a nossa família?

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