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Sábado, 20 de Fevereiro de 2021 - 05:10

Pistoleiro, alcova e juiz

por Almudena Ruiz

Pistoleiro, alcova e juiz
Arte digital: Learn More

Não sou de inventar histórias.

Conto o acontecido, e só isso.

Ouvi de velho conhecido, e achei bom dar ciência, não guardar segredo.

Sou apenas um contador de histórias, aprendiz ainda.

Contar história é coisa de muita ciência, aprendida pelos sertões, e eu ainda careço de sertões.

Conto o que ouvi, e dou fé.

O juiz não acreditava:

            - É isso mesmo deputado?

            Era.

            Verdade verdadeira.

            O deputado tinha um amigo enfronhado nos lençóis de bela dama, e estamos falando dos anos 50 na Cidade da Bahia. Um porém: bela dama casada.

            E o amigo confidenciava, contava o deputado, e pedia desculpas, vênia ao meritíssimo, sempre necessário respeitar autoridade de juiz, pedia escusas por dizer isso, revelar a confidência, necessária talvez para o supremo entendimento do que viria a seguir: a bela dama era um vulcão.

            O juiz mexeu-se na cadeira, incomodado.

            Tenso, teso, sabe-se lá mais o quê.

            Ensaiou perplexidade:

            - Um vulcão?

            -Sim, meritíssimo. A cama com ela irrompia em chamas. Meu amigo esquecia-se de tudo. Foi uma primeira vez, pensou seria aquela apenas, e tudo foi se seguindo sem parar, aqueles encontros escondidos, o vulcão em irrupção, não via lençóis, era o corpo dela lindo lindo fogo fogo puro fogo vermelho vermelhou aquele mundo lindo mundo ele afundado ali sem saber como sair e sem querer sair – e o juiz interferiu:

            - Está muito interessante, excelência, mas o deputado parece estar fugindo um pouco do assunto, não?

            - Está bem, meritíssimo, tentou emendar-se – com juiz não se discute.

            Tinha mais, isso tinha, o amigo havia lhe dado detalhes, confessa ter ficado, como diria, tinha ficado emocionado, envolvido. Ate houve o acontecido, uma noite, e como narrador tenho de contar, narrador não deve guardar segredo: chegou a sonhar com o incêndio, aquela mulher surgiu em sua cama sua própria cama tudo em chamas gritou de prazer e com seu gozo, desculpem, acordou a santa esposa, e ela o acalmava o que foi benzinho, calma, está tudo bem, é apenas um pesadelo, santa mulher.

            Mas, o meritíssimo, incomodado, e não querendo se interessar, e com a consciência de que juiz há de ter siso, não pode deixar arrastar por turbilhões por tentações a lhe turvar a mente ou arrastá-lo a pensamentos demoníacos – veio-lhe a mente o magnífico romance de Thomas Mann, doutor Fausto, e fantástica história do pacto com o Diabo – não, com ele não, afasta de mim esse cálice, valha-me o Senhor Jesus Cristo, e quase benzeu-se, quase se persignou.

            O deputado seguiu.

            - Sucede, meritíssimo, um imprevisto. O marido, homem de letras, honrado, reconhecido na sociedade, dado a envolver-se com o estudo dos sertões, e dotado de valores familiares muito sólidos, soube. Para sua tristeza e indignação, descobriu: sua casta esposa se refastelava em outra cama. Casta, até ali, o meritíssimo entenda-me.

            O juiz, agora, verdadeiramente incomodado, doido pra saber aonde o deputado queria chegar:

            - Sim, excelência. Somos amigos e tudo, mas de que modo posso ajudá-lo neste caso?

            - Ah, caro amigo, permita-me chamá-lo assim, há uma tragédia a caminho.

            - Como? – pergunta o juiz, assustado.

            - O marido, ofendido em sua honra, contratou um pistoleiro para matar o meu amigo.

            Soube, e narrador sabe é de coisas.

            Em casa, sujeito de uma coragem da porra, disse à mulher:

            - Corno, sim, disse à mulher em prantos, mas corno manso, não. Esse sujeito vai morrer.

            Arrastava-se aos pés do marido, prometia que nunca mais, jurava pela Virgem Maria fora uma única vez, umazinha só, inocente, um descuido, a perdoasse, só sua, de mais ninguém, juro por Deus Nosso Senhor Jesus Cristo, pela Virgem Maria, e chorava, chorava.

            - Uma vez? Que seja. Chifre é chifre, e ninguém tira. Só o sangue, a morte. Só isso lava a honra, garante o respeito.

            O juiz, assuntando, e assustado:

            - Sim, deputado, mas e eu com isso, com todo o respeito?

            - Acontece, meritíssimo, que o pistoleiro é seu conhecido.

            O juiz aí assustou-se de vez:

            - Não estou entendendo, meu caro deputado – reagiu.

            - O senhor um dia, juiz consciencioso, numa das mortes dele, o rapaz não é iniciante, lá em cidade do interior por onde passou, amaciou na sentença, e ele nunca mais o esqueceu, reconhecido para sempre.

            - Lembro disso, não – meritíssimo saltou de banda, tentou desviar-se.

            O deputado refrescou-lhe a memória, e ele aquiesceu.

            - Mas, e daí? Vossa excelência quer o quê de mim?

            - Que chame o pistoleiro aqui e o convença a não matar o meu amigo.

            Intermináveis segundos de silêncio na sala.

            O juiz pegou o copo d’água, tomou um gole, outro, pensou. Não queria frustrar o deputado, amizade antiga, e juiz precisa de deputado, não é?:

            - O seu amigo então já localizou o pistoleiro?

            - Já. E sabe: é morte anunciada.

            - Vossa Excelência pode trazê-lo aqui?

            - Pra ontem – disse o parlamentar.

            O juiz exigiu: vou conversar com ele, mas vossa excelência vai ficar aqui na sala ao lado sem ninguém saber e vai ouvir toda a conversa.

            Virou-se, esforçou-se, o deputado e deu-se tudo como o combinado.

            Uma tarde, o pistoleiro apresentou-se com sua melhor roupa: camisa cinza gasta pelo tempo manga curta manga comprida não tinha calça cáqui botina também gasta pelo tempo o chapéu a rodar nas mãos nervosas secretária mandar entrar fica em pé boa tarde senhor juiz pode sentar com licença fique à vontade como vai o senhor quer um cafezinho um copo d’água não senhor carece nada não estou bem.

            O juiz não fez muitos arrodeios:

            - O senhor sabe: juiz sabe é de coisa. O senhor veio à capital matar um cidadão, e eu sei quem é. O cidadão é amigo de um amigo meu, e vou querer que não faça esse trabalho.

            - Meritíssimo, o senhor me perdoe. Sou agradecido ao senhor até o fim de meus dias, juro por Deus que está no céu. Mas, esse pedido não posso atender, sinto lhe dizer isso. Fui contratado, e serviço combinado não tem jeito de voltar atrás. É palavra dada, e sou homem de palavra. Se não cumpre trato, homem não merece viver. Melhor morrer.

            Uma enrascada, pensou o juiz, à sua frente um homem de valores sólidos, mas carecia insistir, quase suplicar:

            - Preciso desse favor seu.

            - Tem jeito não doutor. Vou ficar lhe devendo. Sinto, juro, por essa luz que me alumia.

            E o pistoleiro botou acréscimo:

            - Além de tudo, já recebi pelo trabalho. Como não vou cumprir? Será servicinho rápido, e já está pago. Entendeu, doutor? É minha honra em jogo. Vagabundo é que recebe e não faz o serviço combinado.

            O juiz pensou rápido:

            - Então, vamos fazer o seguinte: me diga quanto foi pago pelo seu trabalho. Eu lhe dou o valor, você devolve o dinheiro ao contratante, e some no mundo.

            Silêncio, aqueles intermináveis segundos, o pistoleiro girando o chapéu de abas largas nas mãos nervosas, assuntando, até que falou:

            - Vou aceitar doutor, pelo muito que lhe devo. Com isso, saio daqui mais leve, e vou tocar minha vida por esse interior afora que trabalho graças a Deus não me tem faltado.

            Meritíssimo deu-lhe o dinheiro, ele contou nota a nota, e seguiu viagem.

            O amigo do deputado não morreu.

            E acabou levando o vulcão com ele lá pras terras do Sul.

            Um vulcão assim não se deixa pra trás.

            Mesmo com risco da própria vida.       

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