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Sábado, 13 de Fevereiro de 2021 - 05:18

Velhas histórias de antigos Carnavais

por Janio Ferreira Soares

Velhas histórias de antigos Carnavais
Foto: Acervo pessoal

Quando o Carnaval me fascinava, acordava com a boca pedindo água, o corpo querendo calma e o cérebro implorando um analgésico que curasse dores físicas e morais derivadas das madrugadas de serpentinas voando, frevos deslumbrando e lenços ensopados de substâncias proibidas passando de mão em mão até descompassar o ritmo cardíaco de quem exagerasse na dose.

 

“Maestro, mande aí um si bemol, que eu vou de cibalena ou cibazol!”, brincava o saudoso Elói com sua surrada mortalha amarela, onde uma letra “Q” escrita acima de um enorme desenho de um felino completava a ideia de que ali estava, além de um ótimo crooner, a provável materialização de um simpático bichano pronto pra azunhar a primeira Mulher-Gato que passasse ronronando como se desfilasse nos telhados de Gothan City.

 

 

Os dois principais clubes ficavam no acampamento da Chesf que, à época, era área de segurança nacional protegida pelo Exército, guardas, muros, guaritas e o escambau. O CPA (Clube Paulo Afonso) era o point dos engenheiros e doutores, enquanto o povão brincava no Copa (Clube Operário de Paulo Afonso). E aproveitando que hoje seria o primeiro dia onde seus salões ferveriam ao som de marchas lentas, do frevo rasgado e de amores desfeitos e logo recomeçados, aproveito pra relembrar algumas histórias que já contei por aí, mas que, talvez pela idade ou por lapsos de uma memória debilitada pelo consumo dos “alucinógenos de fabricação caseira”, você nem se lembre de já tê-las lido. Simbora!

 

Por ser uma cidade barrageira nascida e crescida em função da construção das usinas hidroelétricas, Paulo Afonso era uma verdadeira babel cultural sofrendo influências de vários estados nordestinos, notadamente de Pernambuco, já que a sede da Chesf continua por lá. E esse fato fez com que, durante anos, tanto a decoração como as músicas executadas nos carnavais dos clubes, seguissem a tendência do que rolava na capital pernambucana. Só no começo dos anos 80, com a juventude exigindo mudanças sonoras e visuais, foi que os clubes se renderam às cobranças e aí a Orquestra do Maestro Turpim teve que dividir o palco com uma banda chamada Cipó, fato que provocou a história que segue.

 

Primeira noite de Carnaval e lá estava o nosso “Q” gatão com seu vozeirão a desfilar clássicos como Bandeira Branca, Allah-la-ô, Cabeleira do Zezé e afins, quando a garotada, louca pra pular ao som das músicas de seu tempo, encostou-se ao palco e começou a pedir “Cipó, Cipó, Cipó”. Irritadíssimo e ainda com várias marchinhas no repertório, Elói não aguentou a pressão e, logo após pedir ao bom Allah que mandasse água pra Ioiô e água pra Iaiá, solicitou uma pausa ao maestro Turpim e com sua grave entonação, esbravejou algo mais ou menos assim: “Ok, seus bostinhas aculturados, agora vocês vão ter o que merecem, de preferência no fiofó: Cipó!”, e aí jogou o microfone no chão e saiu fumaçando.

 

Outra boa foi quando a loló chegou por aqui – dizem as más línguas que trazida de Salvador por este que vos tecla, assunto, aliás, que prefiro não comentar, mesmo sabendo que as possíveis penas estão prescritas.

 

Pois bem, após uma infinidade de testes e degustações (por coincidência na garagem lá de casa) para saber seu poder de fogo e até onde ia o “toiiiiiin!” ecoando na cabeça antes de fechar o círculo, seu lançamento oficial se deu no Baile do Havaí, tradicional prévia carnavalesca do CPA. E foi lá, com a diretoria completamente atônita querendo saber o motivo de tantos chiliques e desmaios no salão, que o clube soltou uma circular aos sócios e pregou na portaria o famoso aviso, que dizia: “É terminantemente proibido adentrar nas dependências do clube durante o Carnaval portando qualquer recipiente contendo alucinógenos de fabricação caseira”. E, pra completar a bizarrice, proibiu a execução de Pessoal do Aló - música de Moraes Moreira e Risério – pela banda.

 

Mas aí, depois de observarmos que a revista feita pelos seguranças não incluía nem as mulheres nem os homens que participavam do concurso de fantasia, tivemos a ideia de inscrever nosso amigo Sivaldo, cuja magreza era perfeita para o plano. E então, sob o título de: “He-Man Subnutrido do Sertão”, conseguimos umas enormes galochas brancas com espaço suficiente pra colocar dezenas de frascos, que somados aos que entraram nas bolsas das meninas fizeram um belo estrago. Mas por muito pouco a estratégia não foi por água abaixo. Explico.

 

Empolgado com a situação, nosso herói tomou todas e, pra lá de Grayskull, se atracou com uma She-Ra que ia passando e caiu no frevo, se esquecendo completamente do plano de esvaziar as galochas no banheiro, onde um velho e saudoso delegado amigo - e fã da substância -, já estava de prontidão pra qualquer emergência com os policiais de plantão. E aí, enquanto alguns frascos voavam e se espatifavam no salão provocando o forte e característico cheiro da mistura, lenços começaram a girar no ar acompanhados de gritos de “loló!,loló!,loló!”, fato que serviu de senha pra banda tocar a canção proibida e mandar às favas a censura da diretoria.

 

Pra concluir, diante da situação do Bahia prestes a voltar pra o inferno da Segundona, segue a última.

 

Perseguido pelos guardas da Chesf depois de algumas presepadas na área externa do Copa, Catatau (folclórica figura que perdeu uma das mãos num acidente) pulou o muro do clube e se misturou aos foliões. Depois de muita procura, um dos guardas se posicionou em cima do palco e teve a brilhante ideia de pedir ao maestro Turpim que tocasse o hino do Bahia. Estranhando o pedido, já que o havia executado minutos antes, ele obedeceu e assim que a orquestra deu o breque para o grito de guerra da torcida tricolor, Catatau se empolgou e se autodedurou com seu cotoco vibrando no ar aos berros de “Baêêêa! Baêêêa! Baêêêa!”.

 

Que esse episódio sirva, quando nada, de motivação ao péssimo time tricolor, para que nos futuros carnavais neguinho possa continuar socando o ar e gritando com orgulho “Baêêêa! Baêêêa! Baêêêa!”, mesmo correndo o risco de ser flagrado no meio da multidão por um guarda morrendo de rir. Feliz não Carnaval a todos.

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