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Sábado, 02 de Janeiro de 2021 - 05:08

Um bosque pra preservar quem já morreu

por Janio Ferreira Soares

Um bosque pra preservar quem já morreu
Foto: Acervo pessoal

São cinco e pouco da manhã do último domingo de 2020 e uma canoa desliza em minha direção com seus remos balançando numa sincronia tal, que de longe parecem braços de fãs acompanhando as batidas da bateria num show de rock’n’roll.

 

O tempo sem vento deixa as águas numa placidez só quebrada por um martelo castigando uma bigorna ao leste, talvez ajustando as rédeas do jumento que diariamente relincha lamentos por carregar tanto peso nos caçuás pendurados sobre seu dorso. Aliás, fosse ele morador do Mississipi e suas queixas já teriam se transformado no Blues do Asno Sofredor.

 

Na TV postada em minha retaguarda ouço Caetano cantando que alguma coisa ainda acontece no seu coração ao cruzar a Ipiranga com a Avenida São João, mesmo depois de 42 anos fazendo esse percurso nas cordas de náilon de seu violão. Falo de sua live de Natal que só vejo agora, pois um pouco antes de os Novos Baianos passearem na sua garoa este galo velho já estava acomodado no pau do galinheiro, que se outrora foi palco de ciscadas e cocoricós de rasgar o bico, hoje é cenário de alvas penugens a flutuar no breu.

 

Na curva que dá no rio urubus e carcarás disputam algum bicho morto, possivelmente peixes boiando entre as baronesas, essa espécie de Covid aquática que chegou por aqui importada sabe-se lá de onde, e hoje rouba das águas ribeirinhas o oxigênio de que elas necessitam pra viver.

 

Falando na praga que assusta o mundo, aproveito esta coluna literária bravamente comandada por um velho guerreiro de nome originário dos Reinos de Navarra, para contar novamente algo que escrevi recentemente em outras paragens e que, se você não leu, poderá fazê-lo agora. Trata-se da campanha Bosques da Memória, uma bela ação da Rede de ONGs da Mata Atlântica em tributo as vítimas da Covid-19, que pretende plantar mais de 200 mil árvores com o nome de sua espécie e da pessoa morta pelo maldito vírus que, na boa, deveria ter maltratado um pouquinho mais o pulmão do capitão.

 

Um dos primeiros plantados foi o nosso Aldir Blanc, que semana passada virou um pé de goiabeira branca em alusão a uma que havia no quintal de sua infância, onde o mesmo costumava subir, não pra encontrar Jesus, que isso se daria mais tarde, quando ele, apesar de se autodefinir como “rigorosamente ateu, cético, cínico e escroto, nessa ordem”, conseguiu com suas letras elevar dezenas de canções ao patamar de verdadeiras homilias de se ouvir rezando.

 

“Eu subia nela e ficava lá em cima sonhando, lendo Monteiro Lobato e atirando com atiradeira em manga, porque não tinha coragem de matar passarinho”, disse ele numa entrevista, anos depois de escrever numa profética crônica no Jornal do Brasil que um dia voltaria a ela, “que me recolherá definitivamente em seus galhos”.

 

Pois bem, aproveitando o mote e esse clima que me coloca entre a manjedoura e a Sidra Cereser, boto pra tocar Resposta ao Tempo, genial poema de Aldir Blanc musicado por Cristovão Bastos, e pego carona no vento que me leva de volta à velha Glória, lugar que hoje jaz e onde as árvores também tinham o sobrenome das pessoas próximas delas.

 

Assim, o melhor tamarindo (com aquele melzinho cobrindo o primeiro caroço), era o do “tamarineiro de Mané Luiz”, cujo pé ficava em sua porta, enquanto o umbu-cajá que me fazia perder a noção do perigo era o do “umbuzeiro de Abílio de dona Alzira”, que uma vez acertou um tiro de sal desferido de sua espingarda pisa-tempero bem na regada de meu primo Paulo, coitado, que dormiu várias noites de bruços.

 

Quanto às goiabas, não se discutia; as campeãs eram as de tia Iaiá, plantadas num sítio entre a casa paroquial e a beira do rio, sobretudo as bicadas pelos sanhaços nas primeiras horas das manhãs.

 

Mas a campeã em doçura era a manga Ceci, batizada assim por vô Dedé em homenagem a minha mãe, que, voz geral, se não tivesse nascido gente brotaria néctar. Aliás, aqui no meu quintal tem duas parentas dela, não por acaso as preferidas dos micos e passarinhos, que ao vê-las agem como crianças quando se deparam pela primeira vez com as luzes piscando na árvore de Natal.

 

Pra findar, o que desejar nesse comecinho de ano que já principia com uma invisível - mas justificada - interrogação na primeira barra do Sol? Vale um “feliz imunização a todos!”? Então que ela venha logo pra proteger milhares de brasileiros que, como a esperança equilibrista da obra-prima de Aldir e Bosco, caminham na corda bamba de sombrinha e a cada passo nessa linha podem virar árvore desse pomar.

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