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Sábado, 12 de Dezembro de 2020 - 10:48

A Gaiola do São Francisco

por Lázaro Carvalho

A Gaiola do São Francisco
Foto: acervo pessoal

Maria Felipa dos Santos deixou para trás a pequena Xique-Xique,na margem direita do rio São Francisco, a 98léguas de distância, para ganhar a vida na capital. Veio, muito bem recomendada, trabalhar de empregada doméstica na casa do tenente Constantino Veiga, contramestre da banda de música do Corpo de Bombeiros de Salvador. Também morador da Fazenda Garcia, o tenente Constantino era vizinho de rua do tesoureiro Valdemar.

Com seu jeito camaradeiro e sorridente, Felipa conquistou a simpatia dos filhos do casal e logo caiu nas graças da família. Ela cuidava da casa, da comida e da roupa. Era ela que ia, quase todo dia, buscar no armazém de Manolo o que faltava para o almoço. Um dia Felipa, ao voltar do armazém, fora surpreendida, a poucos metros de casa, por uma chuva fina repentina. Valdemar, que vinha em sentido contrário, gentilmente, apressou-se e lhe estendeu o guarda-chuva. A cabocla sertaneja, Maria Felipa, sorriu o seu melhor sorriso em agradecimento à presteza daquele homem, até então, desconhecido. Ele interrompeu o seu caminho e voltou só para proteger Felipa da chuva. Durante o curto trajeto até a residência do tenente, conversaram rapidamente, tempo suficiente para se perguntarem e se responderem. Valdemar lhe disse que morava naquela rua. Ela falou que trabalhava na casa do tenente Constantino. Encontros ocasionais na rua onde moravam pareciam inevitáveis, coisa do destino.

Valdemar a cumprimentava atenciosamente, com algum salamaleque, é verdade, e sempre arrancava o sorriso fácil e espontâneo da cabocla simpática por natureza. A carreira de empregada doméstica de Maria Felipa durou pouco, só até o dia que o tenente Constantino a ouviu cantar. Felipa estava lavando roupa no quintal e cantava distraidamente os boleros que ela cresceu ouvindo no serviço de autofalante de Xique-Xique. O tenente, sem ser visto, ficou, em silêncio, ouvindo surpreso e embevecido, o canto da moça, comentou com a esposa que era uma injustiça uma pessoa com o talento musical de Felipa se sujeitar a serviços domésticos, ela tinha tudo para se tornar uma Diva do rádio, uma estrela da vida noturna da cidade. E se dependesse dele o destino de Felipa mudaria da água para o vinho. Valdemar não via beleza em Felipa, ela era o oposto de Regina Célia, apenas uma cabocla de estatura mediana, longos cabelos negros eternamente presos em rabo de cavalo e só. Mas de uma simpatia envolvente que mexia com ele. A imagem da cabocla sertaneja cada vez mais se fixava na cabeça de Valdemar. Felipa se lembrava dele em transe de saudade que se repetia várias vezes durante a noite e no decorrer do dia. Ele estava enrabichado. Ela, arrebatada de amor! Quando saiu o resultado do concurso, o nome da professora Regina Célia não constava da lista dos aprovados. Valdemar não ficou alegre nem triste, estava muito envolvido com Felipa, para se interessar por resultado de concurso público para professora do Estado. O tenente Constantino Veiga conversou com Felipa e lhe disse que havia ficado impressionado ao ouvi-la cantando no quintal, enquanto lavava roupa. E disse que se ela quisesse tentar a carreira de cantora, que podia contar com ele. Felipa não sabia o que dizer ao tenente, não sabia se chorava ou se sorria. Ficou surpresa e agradecida à ajuda proposta e com o comentário do tenente e lhe disse que ser uma cantora profissional era um sonho oculto acalentado por ela desde a infância em Xique-Xique. O tenente sugeriu a Felipa adotar um nome artístico, um nome mais leve e mais de acordo com os ritmos caribenhos que ela tanto gostava de cantar, e sugeriu a ela adotar o nome de Ana Rúbia. Felipa adorou o nome sugerido pelo tenente e ficava pronunciando seu novo nome e se rindo, besta de contente. Uma semana depois o tenente Constantino disse a Felipa, futura Ana Rúbia, que havia conversado com um amigo seu que era diretor artístico da Rádio Sociedade da Bahia e que ela estava convidada para fazer sua estreia como cantora. A estreia de Ana Rúbia no rádio foi um grande sucesso! Ela cantava toda semana e recebia um cachê por apresentação, sob a promessa de logo, logo, assinar um contrato com a rádio.

O sucesso de Ana Rúbia foi tanto que a cabocla chegou a ser disputada pelas duas mais badaladas casas noturnas da cidade: Rumba Dancing e Tabaris. O envolvimento amoroso com Valdemar parecia dar mais entusiasmo a Felipa para cantar e viver. Felipa alugou uma casinha, quarto, sala, banheiro e cozinha, em outra rua, mas no mesmo bucólico e lendário bairro do Gracia. Valdemar, obteve, em algumas ocasiões, liberação do trabalho, no período vespertino, e passava a tarde toda com Felipa, num encontro de almas sedentas, que só terminava ao anoitecer, em quarto de hotel no Largo da Calçada. Uma vez ele chegou em casa depois da meia-noite, sob a alegação de que estava, com os colegas, comemorando o aniversário do diretor da companhia. A professora Regina Célia fingia acreditar nas historinhas, pra boi dormir, de Valdemar. Um sábado à noite Valdemar, se aformoseava todo para sair. Regina Célia entrou no quarto e foi dizendo, quase aos berros, que se ele colocasse o pé pra fora da porta que não precisava voltar pra casa. Ela não era idiota e tinha certeza que tinha mulher na história. Se ele quisesse jogar no lixo a mulher, a família que ele ficasse à vontade, mas que ele tivesse certeza do que queria porque ela iria embora, pra bem longe, e ele nunca mais veria a pequena Mariana.Com essa ameaça, Regina Célia fez cair todo o peso de uma cabine do Elevador Lacerda sobre a cabeça de Valdemar, que tonto e muito assustado sentou-se na cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto entre as mãos, confuso e temeroso, só conseguiu balbuciar que aquela situação seria resolvida imediatamente.

Valdemar passou o domingo todo tentando amenizar a indiferença de Regina Célia. Para ele era absurda a hipótese de perder a mulher, absolutamente inimaginável viver sem a pequena Mariana, de 5 anos, sua filhinha adorada. Na segunda feira a conversa com Felipa foi dolorosa e definitiva. Ele falou que a esposa tinha certeza que havia mulher na história e que se ele não resolvesse logo a situação que ela iria embora pra bem longe e nunca mais ele veria a pequena Mariana. E que aquele encontro seria o último, era só para explicar o que houve no sábado. Falou que estava sofrendo com o desfecho triste da história, mas que não podia, por nada neste mundo, abrir mão da família.

Em nenhum momento Valdemar levantou os olhos para encarar Felipa. Ela, como toda mulher sertaneja, foi forte, não disse nada, não fez perguntas, nada pediu. A expressão da sua angústia se revelou através das lágrimas plangentes que lhe escorreram pelo rosto marrom acobreado. Tomou um carro de praça e voltou pra casa. Ainda atordoada com o desfecho patético do seu conto de fadas, pensava enquanto, via pela janela do carro em movimento, passar correndo, fachadas de prédios públicos, vitrines de lojas de roupas e calçados, casas de muro baixo, bastante gente lerda na rua. Achou a cidade sem graça, sem encantos, sem qualquer atrativo. Não conseguia deixar de pensar na ironia: ela que conhecia as histórias de amores malogrados, presentes nas letras dos boleros que cantava, experimentava naquele momento a intensidade da dor perfurante de um amor tragicamente desfeito. Ela só queria chegar em casa, se jogar na cama, chorar, chorar e desejar o mundo todo caindo sobre ela. Valdemar, ali mesmo na Baixa do Bonfim,  pegou um bonde para retornar ao trabalho, na Praça Conde dos Arcos, na companhia de importação e exportação, onde exercia a função honrosa e mal remunerada de tesoureiro. Estava triste e se culpava por ter sido imprudente ao subestimar o sexto sentido de toda mulher, mormente, da sua mulher. Felipa apareceu na casa do tenente Constantino para se despedir dele, de dona Esther e dos filhos do casal. Foi um momento difícil. Mas conseguiu, entre lágrimas, agradecer a acolhida, o carinho e o apoio recebidos. O tenente, sem êxito, tentou obter uma explicação para a decisão extemporânea de Felipa voltar para sua terra, quando tudo parecia tão bem. Ela não entrou no pormenor da sua decisão.

Na manhã seguinte, antes de o dia raiar, Maria Felipa dos Santos, deixou para trás a velha São Salvador da Bahia, com seus casarões centenários, com suas ladeiras de pedra, com suas fortaleza coloniais, com suas igrejas de ouro, com seu mercado modelo, com seus saveiros coloridos, com seus terreiros de candomblé, com a índole festeira do seu povo, e retornou decepcionada e abatida para sua pequena e remansada Xique-Xique, a descansar recostada à beira d’água do São Francisco, léguas e léguas distante do furdúncio da cidade grande.

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