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Sábado, 05 de Dezembro de 2020 - 05:04

Covil

por Afonso Machado

Covil
Foto: Acervo pessoal

Março de 64. Eu não esqueço. Foi quando entrei para o clube dos passarinheiros.

 

E foram muitos os pássaros presos, muitos, naqueles anos todos, para desgosto da Tina, minha mulher (que Deus a tenha). Hoje, velho e doente, tenho só o meu curió.

 

Nos domingos pela manhã eu gostava de caminhar até a Praça do Sol levando comigo o meu curió. Lá eu encontrava o Agenor, amigo de clube, cada um com a sua gaiola. E falávamos da vida, dos pássaros, dos velhos tempos. Veio o vírus, o grupo de risco, a quarentena. O confinamento sozinho num apartamento pequeno como o meu, frio, escuro, quase me matou. Foi então que tomei a decisão.

 

Quando passou a pandemia, a primeira coisa que fiz no domingo foi ir para a Praça do Sol. Assim que coloquei os pés na praça, ah, que sensação plena de liberdade! Mas não vi o Agenor. Liguei para ele, o telefone tocou, tocou e tocou. Tudo bem, pensei comigo, ele não iria mesmo acreditar.

 

Abri a porta da gaiola e disse para o meu curió: você não imagina o quanto eu me arrependo daqueles anos todos, e de todos aqueles pássaros presos e os que morreram nas gaiolas. Agora eu sei o que sente. Meu curió desceu do poleiro, mas parou diante da porta antes de voar. E me olhou de um jeito estranho, como estranhei o Agenor não atender a minha ligação. Então, ele voltou para o poleiro.

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