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Sábado, 14 de Novembro de 2020 - 05:01

Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa

por Florisvaldo Mattos

Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa
Foto: Divulgação

Novembro transcorre, prestando-se perfeitamente à evocação da memória de um dos maiores líricos baianos, o poeta Sosígenes Costa, desde que no dia 11 desse mês nascia ele, na cidade de Belmonte, em 1901, para vir a se despedir da poesia, da literatura e do mundo em dia 5 de novembro de 1968, no Rio de Janeiro. Hoje, quase não se pronuncia, literariamente, o seu nome, e o que tem restado de reconhecimento de seu valor deve-se a registros virtuais na internet, especialmente o que tem publicado o poeta Carlos Machado, em seu portal intitulado poesia.net, e o que conserva à disposição do público o Jornal de Poesia, dirigido pelo cearense Soares Feitosa.

 

Conheci Sosígenes Costa, em Ilhéus, onde ele viveu de 1926 a 1954, levado por amigos ilheenses, que o consideravam o maior poeta da Bahia, no seu gabinete de secretário da Associação Comercial, aonde eu, ainda um estudante secundarista, ia visita-lo, pelo menos uma vez por semana, ele já um cinquentão, calmo, sério, composto, de paletó e gravata, e lá, com ele a me mostrar poemas ainda inéditos, que dormiam, há décadas, numa gaveta, e, ao ouvi-lo, muito aprendi sobre poesia e literatura modernista, de que mal eu ouvira falar.

 

Foi desses encontros que comecei a me inteirar da qualidade elocutiva e do nível sensorial de muitos de seus versos, especialmente dos que já eram rotulados de “Sonetos pavônicos”, mas foi depois do lançamento de sua “Obra poética”, em 1959, na Livraria Civilização Brasileira, da Rua Chile, com as análises de José Paulo Paes, em seu livro “Pavão, parlenda, paraíso” (1977) e “Poesia completa” (1978), que vim a conhecer com mais profundidade a dimensão estética da obra poética de Sosígenes Costa, permitindo que se abrisse amplamente o meu imaginário, o que me levou a estuda-lo mais, até escrever, por ocasião das comemorações de seu centenário de nascimento, o ensaio Travessia de oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, que seria lançado posteriormente, em 2004.

 

Acabei por concluir que a poesia desse belmontino-ilheense se presta infinitas e diáfanas cogitações. (1) Entre tantas, lendo-a, cabe-lhe bem a que equipare a arte da poesia ao exercício de uma ociosidade edênica; celebre, pela proximidade com a natureza, a plenitude das faculdades sensoriais, unida a um pensamento desobrigado das operações lógicas, solto, incitando o corpo a alongar-se sobre a relva, o espírito a espairecer, prazeroso, pelas amplas avenidas do sonho e da imaginação, sob frondes outonais de um campo cultivado, ou, de outro modo, convidando o poeta a passear, desgarrado de tudo, em terras ainda virgens do passo humano, antes apenas visitadas por deuses, faunos e ninfas. É como figuro Sosígenes Costa, ao percorrer os cenários da sua poesia gerados por uma laboriosa criatividade.

 

Imagino-o em Belmonte ou Ilhéus, pátrias gêmeas de uma fina e rara sensibilidade, de onde lhe sobressai íntimo pendor para o devaneio: jovem e campestre Hipólito, a atravessar, célere e ofegante, claros bosques da Argólida; ou, talvez, no alto de colinas, em aprazível clareira, sob virentes copas, frouxamente recostado, já maduro Sileno, após Virgílio bucolicamente arrastá-lo do fundo de uma gruta, a deleitar parvos ouvidos jovens com sons de flauta e cantos. Palmilhando estradas, praias, galgando encostas, o rei asceta, "de céus, de plantas, de águas alumbrado", se apropria de tudo que lhe concede a fecunda terra grapiúna, o que ela ostenta de lírica e plástica abundância, revolve reminiscências, bebe o frescor do dia nos mananciais da infância, recompõe vivências, imagina e transpõe cenários - visuais, aromáticos, sonoros, gustativos, tácteis -, e constrói laboriosos e vívidos objetos verbais.

 

A criação poética percorre todos os quadrantes do cosmo sensorial, onde tudo abstratamente se aglomera, se ajusta e se transforma em coisa que se vê, cheira, ouve, prova e toca, casando o espírito com a totalidade do universo. Lembra os marinheiros de Camões, na ideada Ilha dos Amores (Os Lusíadas, Canto IX), a correrem pela floresta, onde "se deixavam/ andar as belas deusas, como incautas; algumas, tocando doces cítaras, outras, harpas e sonoras flautas, e outras mais, co´os arcos de ouro, a se fingirem caçadoras de animais, que não seguiam, e onde, como aduz o bardo, sugerindo e conferindo tonalidade edênica e erotismo à cena:

 

D´uma os cabelos de ouro o vento leva,

Correndo, e da outra as fraldas delicadas;

Acende-se o desejo, que se ceva

Nas alvas carnes, súbito mostradas.

Uma de indústria cai, e já releva,

Com mostras mais macias que indinadas

Que sobre ela, empecendo, também caia

Quem a seguiu pela arenosa praia. (2)

 

Em Sosígenes Costa, andarilho do sensual e do fantástico, encontramos o mesmo estro, em semelhantes e bucólicos pagos - os da orla marítima do sul-baiano de sua juventude. Neste ambiente de natureza ubérrima, de paraíso inaugural, o poeta move o arguto olhar, contempla vasto horizonte de céu, terras e águas. Passeia, atravessando matas e vergéis, prados e jardins, onde luzes, sons e perfumes invadem-lhe o corpo, brisas roçam-lhe a pele brônzea e macia. Aqui e ali, toca em suaves arbustos, aspira ramos e folhagens, colhe flores e frutos, a degustar, sob árvores, em latadas de vaporosos ritos, exóticos manjares, sorvendo o espetáculo que lhe concedem cristalinas manhãs ou tardes que declinam, placidamente entregue ao gozo da meditação.

 

Imagino-o, ainda, deitado de espáduas sobre tranqüilos terraços, gramados ou areias claras, a descansar, como ele próprio diz num poema, "em sideral reclinatório", a fitar profundo céu em noite de ares difusos, chuva de sombras e estrelas desabando verticalmente sobre o peito, semelhando a seus olhos de espanto fluidas metamorfoses de cosmo incendiado. Imagino, e sei o quanto de sonho, sentimento e emoção, de fantasia e enlevo, seus sentidos avidamente captam, no fluir de dias azuis e noites fosfóreas, em estado de industriosa contemplação. E mais: quanto, em solidão, lhe apraz tudo o que ouve, vê, cheira, saboreia e toca, e o que percebe, com cada uma das células de seu corpo - dádivas terrestres, aéreas ou aquáticas, ao fim dessa experiência generosa, translúcida e comunicativa com o meio natural que o rodeia; quanto o poeta se sente mais homem do mundo, na paz que ao espírito lhe transmite toda a sua instruída humanidade.

 

São estados estes em que a imaginação harmoniza com a criação, como forma de alcançar-se um grau superior de beleza. O poeta elege múltiplos ângulos - o da arte, o da memória, da sua própria prospecção mental e cultural - para revelar, com devota percepção e lucidez de linguagem, coisas e cenários, sentimentos e vivências, que lhe povoam a existência e persistem no seu espírito. Pergunto: não fosse por meio desse prodigioso artifício, acaso seria possível ao mísero mortal leitor acercar-se do que pensou e disse Horácio - "Se quiseres que eu chore, tu próprio tens de ter estado triste" (“Si vis me flere, oportet vos esse tristem ipsum”) - e, com isso, aperceber-me de muito do que sinto e não sei dizer, e só a arte pode expressar? (3)

 

Esses estados anímicos escapam ao racional, pois só se transmitem através de um jogo de aparências e formas acidentais, que nem mesmo toda a arquitetura do conhecimento lógico, para investigar e formular as leis do universo, seria capaz de atingir. Fenômeno que para nós se afigura irresistível: o poeta põe a alma a se mover como uma sombra do mundo, no intuito de provar que a beleza transita em um território de infinitas opções que somente à arte e à poesia diz respeito.    

 

Em outra vertente, mas na mesma pulsão imaginativa, lendo versos de Sosígenes Costa, conjeturo quantos artistas e poetas buscam num passado, próximo ou remoto, energias e alquimias que funcionem como poderoso elixir de revitalização espiritual, pois, não se pode negar o quanto, desde os primórdios da cultura moderna, a arte e a poesia se têm empenhado em recuperar signos de épocas passadas, seja para com eles iluminar os caminhos de seu estro, ou simplesmente iluminarem-se, seja para se apossar das luzes e das chamas, que aclaram e agitam a intimidade e a imaginação de cada criador - enfim, para apossar-se de uma ars poética e construir um estilo próprio. 

 

Deste modo, conjeturo, a partir do renascimento, passando pelo barroco, o arcadismo, o romantismo, o parnasianismo, o simbolismo, até o modernismo, em suas múltiplas correntes estéticas, o retorno de poetas e artistas a antigos cenários, formas, hábitos, costumes e realizações culturais sempre funcionou como ardente instigador da criatividade e um poderoso antídoto às contingências e imposições de um presente propício à desconfiança e à recusa, talvez convencidos de que são a arte e a poesia que verdadeiramente legislam para a humanidade e, por isso, não sujeitas a delimitações, a se tornarem coágulos no tempo.

 

Figuremos então o poeta Sosígenes Costa investido na plenitude de sua humanidade, dentro do mundo, atento, sentidos em acesa percepção, talvez em sonho ou meia vigília, sem dispensar o intelecto e tudo o que lhe doou a natureza, que, por algum título difuso de bem espiritual, lhe pertence. Munida de seus plenos poderes, a mente como que vegetalizada, mineralizada, maneja os atributos da vida animal, sente-se na posse de uma buliçosa carpintaria sensual, uma forja rútila, uma tecelagem de infinitos padrões e estampa.

 

Então, de repente, ele se torna, não apenas "um nobre entre os rapazes", como se anuncia, em paradigmático soneto, num momento de regalo que lhe proporciona à íris um crepúsculo de seu amado torrão grapiúna, mas um mago que exerce soberania celestial, porque instalado em seu destino de cidadão do mundo, a construir fantásticas e caprichosas arquiteturas, compostas de palavras, ritmos e imagens. E, não satisfeito, delineia cenários grávidos de beleza e mistério, para nós uma doação do espírito refinado ao corpo sensível.

 

Plena de evocações míticas e místicas, sagradas ou profanas, e carregada de valores estéticos, vejo a poesia de Sosígenes Costa como um imenso e árduo canteiro, onde laboriosamente constrói imagens que se tornam veículos de uma verdade íntima, centrada na crença em um humanismo libertador, pelo qual o poeta estabelece a sua comunhão com o mundo, que não se efetiva de outra maneira senão por meio de categorias sensuais, como forma de apreensão sublimada do real, exercidas apenas através das suas intuições sensíveis, aquelas para as quais não existem definições conceituais, ao recusarem, como lamenta Galvano della Volpe, "a co-presença orgânica ou de qualquer modo eficiente do intelecto, quer como discurso quer como idéias", embora sejam as palavras da poesia, constitutivas das imagens, elas próprias, veículos de conceitos.

 

Referindo-se à imagem poética e pondo sob suspeita o conhecimento intuitivo que a pressupõe, o filósofo e crítico italiano reputa essa propriedade intelectual como uma persistente "herança romântica" (espécie de romantismo tardio), portadora de "misticismo estético", mesmo quando entendida "como símbolo ou veículo de verdade", e a increpa de grave obstáculo que a estética e a crítica literária modernas têm encontrado no seu caminho. Denunciando o fundamento radical de seu juízo crítico, Della Volpe deplora essa forma de autonomismo contemplativo do prazer artístico e estende indiretamente sua censura ao pensador e crítico marxista Georg Lukács, embora se trate de um correligionário de doutrina filosófica, ao patrocinar a idéia de que "a arte faz intuir sensivelmente" aquilo que a ciência envolve em "elementos abstratos" e "definições conceituais".

 

Ergue então óbices a essa forma de misticismo estético, para cuja revogação considera urgente convocar as forças da razão, embora reconheça a sua análise como de certa forma "provisória, parcial, limitando-se simplesmente ao critério do alcance imediato", sua submissão enfim, "aos fins do gosto". Felizmente, pois é justamente com tal discernimento - o das intuições sensíveis, estou certo - que age o poeta Sosígenes Costa: das arcadas de sua privilegiada sensibilidade e congruente humanismo, divisa os horizontes do mundo e o intui de forma peculiar, com uma experiência mediada pela fantasia e, desse modo, graças puramente à sua sensibilidade, busca atingir a essência da poesia, como cabalmente demonstram os seus Sonetos pavônicos, seis do qual transcritos adiante. (4)

 

NOTAS

 

1 – Referências a capítulo de Travessia de oásis - A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, de Florisvaldo Mattos (pp. 27 a 32, 2004. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia. Projeto gráfico e editoração eletrônica de Guido Guerra. Ilustrações de Itamar Espinheira.

2 - Camões, Luís de - Os Lusíadas (Canto IX). Comentados por Silveira Bueno. Rio de Janeiro: Edições de Ouro, s. d.

3 - Uma quase tradução deste preceito de Horácio pode se ver em Manuel Bandeira, no poema "Desencanto", datado de 1912 e escrito em Teresópolis, constante no seu primeiro livro, A Cinza das Horas (1917), em cuja primeira quadra lê-se: "Eu faço versos como quem chora/ De desalento... de desencanto.../ Fecha o meu livro, se por agora/ Não tens motivo nenhum de pranto".

4 - Volpe, Galvano della - Crítica do Gosto, Volumes 1 e 2. Tradução de António Ribeiro. Lisboa:  Editorial Presença (Biblioteca de Ciências Humanas), s/d.

 

SEIS SONETOS PAVÔNICOS, DE SOSÍGENES COSTA

 

O PRIMEIRO SONETO PAVÔNICO 

Foge a tarde entre o bando de gazelas.
A noite agora vem do precipício.
Sóis poentes, douradas aquarelas!
Mirabolantes fogos de artifício! 

Maravilhado assisto das janelas.
Os coqueiros, pavões de um rei fictício,
abrem as caudas verdes e amarelas,
ante da tarde o rútilo suplício.

Cai uma chuva de oiro sobre os cravos.
O grifo sai do mar com a lua cheia
e as pombas choram pelos pombos bravos.

Um suspiro de amor do peito arranco.
A luz desmaia. E o céu todo se arreia
Em vez de estrela de narciso branco.

(1923)

 

TORNOU-ME O PÔR DO SOL UM NOBRE ENTRE OS RAPAZES

Queima sândalo e incenso o poente amarelo,
perfumando a vereda, encantando o caminho.
Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.
A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.

Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo
e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.
Encanto! E eis que já sou o dono de um castelo
de coral com portões de pedra cor de vinho.

Entre os tanques dos reis, o meu tanque é profundo.
Entre os ases da flora, os meus lírios lilases.
Meus pavões cor-de-rosa, os únicos do mundo.

E assim sou castelão e a vida fez-se oásis
pelo simples poder, ó pôr do sol fecundo,
pelo simples poder das sugestões que trazes.

(1924)

 

CREPÚSCULO

Resplandece o crepúsculo de jade,
de turquesa, de opala e cornalinas.
Pelos céus há pavões. Toda a cidade
é lilás com repuxos de anilinas.

As aves cor de gesso, à claridade
do acaso, ficam quase solferinas.
A cor dourada agora tudo invade,
tornando as passifloras ambarinas.

A natureza cintilante e amena
sardanapalescamente se decora,
brilhando mais que as asas da falena.

Todo o horizonte de lilás se enflora.
Traja galas de príncipe a açucena.
Não parece o poente mas a aurora.

 

(1926)

 

SONETO AO ANJO 

Por tua causa o meu jardim fechou-se
às mulheres que vinham buscar lírios,
quando o poente cor-de-rosa e doce
punha pavões nos capitéis assírios.

Teu beijo como um pássaro me trouxe
o mais azul de todos os delírios.
Por tua causa o meu jardim fechou-se
às mulheres que vinham buscar lírios.

Só tu agora colhes azaleia
e os cintilantes cachos da azureia,
mágica flor que em meu jardim nasceu.

Só tu verás os lírios cor da aurora.
Meu pavão dormirá contigo agora
e o meu jardim dourado agora é teu.

(1930)

PAVÃO VERMELHO 

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.

Clarim de lacre, este pavão vermelho
sobrepuja os pavões que estão lá fora.
É uma festa de púrpura. E o assemelho
a uma chama do lábaro da aurora.

É o próprio doge a se mirar no espelho.
E a cor vermelha chega a ser sonora
neste pavão pomposo e de chavelho.

Pavões lilases possuí outrora.
Depois que amei este pavão vermelho,
os meus outros pavões foram-se embora.

(1937-1959)
 

PAVÃO AZUL 

No jardim do castelo desse bruxo
d'asas d'ouro e olhos verdes de dragão,
tú és à beira de um lilás repuxo
um grande lírio de ouro e de açafrão.

Transformado em pavão por esse bruxo,
vivo te amando em tardes de verão,
dentre as rosas e os pássaros de luxo
do jardim desse bruxo castelão.

Tenho medo que um dia o jardineiro...
Mas nunca, estou bem certo, do canteiro
há de colher-te, ó minha flor taful.

Porque ele sabe que em manhã serena,
não suportando a ausência da açucena,
há de morrer esse pavão azul.

(s/ data)

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