Sábado, 24 de Outubro de 2020 - 05:08

A pena solta do pássaro

por José de Jesus Barreto

A pena solta do pássaro
Foto: acervo pessoal

 

 

 

Apegos e afagos

 

 

Apegamo-nos a insignificâncias

O seixo, o galho seco, a foto já roída

A pena solta do pássaro

Qualquer coisa desvalida

 

Sobrevivo de afagos

Do cão que me espera

Do gato que me espia

Dos cuidados de quem me quer

Das lembranças acoitadas

Das saudades curtidas...

 

Apego, afagos ...

Dos parceiros de estrada

Dos que se foram ou estão de ida

Dos amigos, das amadas

Daquele riso, o gesto, a guarida

 

Sim, de apegos e afagos é que se cerze a vida

 

 

 

 

**

 

   

Sonhos e palavreios

 

 

  A estrada estreita de barro sinuosa pela mata catingueira deu numa ladeira que parecia sem fim, por conta da precavida vagareza da subida, até chegar numa ampla clareira de chão batido sem saída no alto da serra, ladeada por algumas árvores milenares gigantescas de raízes à mostra, copas altíssimas e troncos de lembrar catedrais. Um ambiente de santuário.

 De frente, dois casarões coloniais com amplas portas frontais e várias janelas, quase em ruínas, mas ainda ocupados; mais adiante, isolada, uma igrejinha-capela de portas cerradas, e de um lado, enfileiradas, umas dúzias de casebres de taipa ...  Retrato de uma aldeia cabocla ou um quilombo, ou as duas realidades juntas, em harmonia com a natureza de ar puro, brisa forte vinda de longe, luminosidade de espremer o olhar, e aquele quase silêncio de devoção.

  Pra lá e pra cá circulando leves, sem pressa, pessoas de pele escura – homens, mulheres, mais idosos que crianças –, todos de roupa, torços e boinas de cor branca, sandálias ou pés descalços, gestos contidos, olhares além... alguns cães mansos à sombra. 

  Um instante e lugar como que de outro mundo, numa dimensão de vida perdida no tempo, lento e senhor absoluto daquele espaço. Reino do desconhecido, ar de mistério e encantamento impregnado em tudo e todos.

  Nem demos conta do quanto restamos em êxtase, sem que parecêssemos incômodos ou incomodados. Espichando os olhos, mais adiante, num declive, meio que isolado e bem protegido por vegetação nativa, bandeira branca hasteada num mastro defronte da porta larga, aberta, o barracão de um terreiro. Gente contrita a entrar e sair, cuidando de festejos dedicados aos caboclos e encantados do lugar, disseram. Templo, cheiro de mato, boas emanações, lugar de orações e graças.

  Já de volta, mais próximo e defronte daquelas árvores majestosas, na porta de uma casinha apareceu um preto velho esguio, sereno, com ares de acolhimento. Pouco falou: - Tudo ... é isso que o senhor está vendo, só... é tudo o que temos e somos. 

 Resta apenas absorver aquela energia transcendental que de tudo exala. Por trás do dono da casa surge do escuro interior da morada o vulto de uma mulher, também idosa, magra, pele preta retinta, cabelos lisos mal cobertos por um lenço descolorido, olhar agudo, ar intrigado: - O que esses estranhos hão de querer por aqui?

  O preto velho, manso e firme, então nos diz sem pronunciar palavra: - Já viram tudo, é hora de partir!

*

  Acordo com um casal de gatinhos a brincar na cama, fazendo estripulias, saltando sobre meu corpo ainda meio adormecido. Esforço-me para abrir os olhos, as imagens bem vivas do sonho na mente. Ouço o repinique dos pingos da chuva nas folhas largas das bananeiras próximas da janela do quarto. Então, desperto de vez.

  É domingo. Primavera. Mais um passo a ser dado na caminhada desse viver.

  Tempo de sonhos e palavreios.           

  

 

 

 

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  Insignificâncias e borboleteios

  

 

 Já noitava quando uma borboleta de asas bordadas em amarelo, marrom, branco e preto veio me visitar. Entrou discreta pela janela, volteou saudando-me com seu vôo trôpego e pousou primeiro na perna de minha calça branca, depois, mais à vontade, no meu braço, exibida em sua frágil singeleza. Um tempo e acomodou-se como um enfeite na parede, imóvel. Até que esqueci de sua presença.

  Na manhã seguinte a encontrei quieta, caída e morta na cabeceira da cama, toda a beleza preservada. Pedi agô (licença) e guardei-a, com carinho, entre páginas do livro (Dom Quixote, Cervantes) que releio aos goles, deliciando-me. Logo que fechei o tomo, pesado, sentido por tê-la amassado, quedo-me a pensamentar, menino:

 - Quanto dura um fim de tarde na vida de uma borboleta?

 - E a noite de uma libélula tonta?

 - Beija-flor sente cheiro?

 - Abelha sabe o gosto do mel?

 Porque formiga conhece bem a folha que corta e carrega, coração de vagalume pisca e caracóis gosmam sentimentos.

 Desimportâncias, tolices que contém segredos e escondem mistérios que não têm tamanho.

 Pois que pouco significamos perante a grandeza de insignificâncias de que é feito o mundo.

Enorme quase-nada desse humano viver.  

Borboleteios.

 

 

 

 

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Jesus sem crenças 

 

 

Não tenho sobrenome (assino ‘de Jesus’) nem pedigree

Títulos, diplomas, certificados... nada! Tampouco garantias.

Sou um Zé, filho de José e Josefa, baiano por acaso, ou destino

Um nordestino, garapa de recôncavo, aboio sertanejo, um solfejo.

Pensar não me cansa, escrever compensa esse existir sem futuro.

Até morrer, Mãe Zuite dizia: “Esse menino não se cria!” Outro dia.

Duvido se me criei, acho que falhei.

 

 Um dia, ouvi :- Troque de nome. E retruquei: - Por quê?

- Ah, ‘Zé’ não vende... e ‘de Jesus’ é coisa de crente e pobre.

Matutei pra mim que pobre nasci, não creio em crente e...

meu Zé num vendo, num alugo nem empresto.

Não presto.

 

 

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