Sábado, 17 de Outubro de 2020 - 05:01

Lulu, a buldogue francesa

por Nelson Cequeira

Lulu, a buldogue francesa
Foto: Portal do Dog

Eu decidi, já faz tempo, que contaria minha estória e de minha filha Nina; decidi que não gostaria que minhas memórias fossem narradas por humanos; tipo Lulu pensa, Nina acha. Eu acho ou não acho. A decisão é minha.


Meu nome completo é Lulu Carlota Josephus. Sou de origem húngara, da família bulldog francês, há mais de vinte gerações. Viemos para o Brasil no século passado, com os refugiadas sírias da primeira guerra mundial. Éramos um grupo de 26 sendo que a maioria, 20, eram do sexo feminino. Aportamos de navio em Florianópolis, de acordo com a história contada por minha bisa Josephina, com ph mesmo. Como viemos exilados, trazidos, sem direito a latir ou emitir opinião, ficamos um pouco aterrorizados. Felizmente aqueles humanos europeus que nos trouxeram criaram a ideia de que nós deveríamos estar todos juntos pelo menos uma vez no mês. Isso facilitou nossa vida, encontros afetivos e acasalamento com gente igual a gente, mantendo nossas orelhas em pé e aquele franzir de testa e nossa identidade de seres sem rabo abanando. E assim procriamos e fomos ampliando nossa presença nessa terra subtropical. Florianópolis aos poucos ficou conhecida como cidade dos bouledogue français, como éramos conhecidos na Europa.


Nossa bisa, Josephina, veio de avião de Flori para Salvador, trazida junto com Homero, um simpático jovem oriundo do norte da França, que desde criancinha corria atrás dos calangos do Canal da Mancha, pelos corredores do Mont Saint Michel. Aquele Homero era uma figura, sobretudo a forma como ela falava de sua caça aos calangos:

—O calango, fosse verde, cinza ou azulado quando via nosso grupo de buldogues correndo ladeira abaixo, atropelando as lojas de souvenires ao longo da calçada principal do forte, se fingiam de mortos, tentando misturar suas cores com as cores da paisagem. E muitas vezes dava certo. Mas uma ou outra vez, alguém do grupo agarrava o bicho. Muitos rabos foram comidos.

Eu gosto muito de Salvador, porque quase sempre faz sol, o que é uma festa para a caça de lagartixas. Acho mais divertido quando elas estão no alto e a gente pula feito condenadas para agarrar a bicha.

Nós moramos no bairro do Rio Vermelho, um local com muita área verde, muitos buldogues para conversar e muitas mercearias com quitutes legais.

Existem alguns humanos interessantes. Possuem um vocabulário complexo, mas eu não ligo muito. Entendo umas 180 palavras chaves da língua deles que são suficientes para dias de conversa. Alguns mais concentrados e interessados em nossa língua dialetal aprendem a compreender-nos, sobretudo quando queremos ou não alguma coisa.


Minha filha, Nina, é um pouco desligada e não se esforça para aprender a língua desses humanos da Bahia; se contenta com uma 80 ou 90 palavras e também usa o mínimo de nossa língua com eles. A maior parte do vocabulário dela está limitada às ações de caça a lagartixas e a espantar uns gatos idiotas.


Como a noite está chegando e não há nada no escuro, vou encerrar esse primeiro capítulo, e escreverei o próximo só e somente só se houver interesse por, no mínimo, três leitores. Aguardo.

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