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Sábado, 03 de Outubro de 2020 - 05:01

O Velho do Rio piscou pra mim

por Janio Ferreira Soares

O Velho do Rio piscou pra mim
Foto: Acervo pessoal

Cá estou eu, madrugada ainda, olhando galinhas d’água numa luneta que as coloca praticamente sobre meu nariz. Ajeito o foco e miro a água, na vã esperança de que nela boiem versos que necessito pra escrever uma balada de amor.

 

A hora é a de sempre, a vista é exatamente igual e a canoa passando lenta - o zoom confirma -é a mesma que ontem costeou a Ilha do Paiol recolhendo redes amarradas em garrafas PET. Vida besta como a do poeta? Quem dera, my friend, quem dera.

 

Ao redor daqui o mundo ferve e assovia feito um Pererê aflito, enquanto o fantasma que anuncia o tempo passa gritando com sua boca oca, como toda boca de fantasma tende a ser: “Já é outubro, já é sexta-feira, já é quase Natal”, e some em meio às flores de um pau-d’arco arroxeando ao Norte de quem o vê pela janela da varanda.

 

Três guinés surgem do nada e insistem que tão fracos, tão fracos, tão fracos, mas, quando acuados pelos cachorros que acordaram putos com a gritaria, voam e se escondem nos galhos de um jambeiro. Valéria rega os girassóis que na foto eram vermelhos - mas nasceram da cor de seu cabelo - e me chama pra ver um filhote de suindara dormindo num oitizeiro depois de meses rasgando mortalhas sob as telhas do nosso quarto. Sorte? Azar? Na dúvida prefiro acreditar que seu pescoço girando e seu chiado noturno são apenas escudos que me protegem das maldades do mundo.

 

Agora tiro os olhos da luneta e dou um clique no computador. Em segundos ele me diz do corte de cabelo de Caetano, dos casos de Covid do Flamengo e do calor que fez Gal suar em sua live na semana que passou. Mudo de página e fico sabendo do cálculo retirado da bexiga do capitão e dos barracos que rolaram no Leblon e nos Jardins. No primeiro, perto do boteco onde João Ubaldo batia ponto, uma louraça Belzebu deu uma tapa na cara da outra louraça Lúcifer e saiu empinando o bumbum num conversível rumo a um Rio que, pelo jeito, ainda tem resquícios da Babilônia de Neville d’Almeida. No segundo, paulistas arrotando o funghi do risoto do Gero só não saíram na mãozada porque os cavalinhos dos pulôveres sobre seus pescoços relincharam mais alto.

 

Falando nisso, a fome aperta e frito um ovo no resto de uma manteiga salpicada de farelos de cream cracker. Atrás de mim, pedaços de gelo se desprendem da gaveta do freezer e, solidário, penso em ligar pro Greenpeace pra reportar o fato. O mundo anda louco, a vida anda louca e meus cabelos brancos estão parecidos com os de tia Iaiá quando batia um vento forte. A propósito, noite dessas sonhei que eu era o novo Velho do Rio no remake de Pantanal, enquanto Damares era Juma. No final, ela terminava fazendo um aborto forçado, pois havia engravidado de um jacaré que em noites de Lua virava Paulo Guedes e seduzia as donzelas com promessas de um auxílio emergencial eterno.

 

Volto à luneta e, no lugar das galinhas d’água, vejo Claudio Marzo completamente nu, tomando banho ao lado de dezenas de tuiuiús e de um jacaré coberto de caspas. Depois do susto, ele pisca pra mim e toca um berrante. Acho que o papel é meu.

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