Sábado, 10 de Outubro de 2020 - 05:06

O bonde do Garcia

por Lázaro Carvalho

O bonde do Garcia
Foto: Acervo pessoal

De casa para o trabalho, do trabalho para casa, assim era a vida diária de Valdemar. Ele fazia a pé o trajeto de casa, na Fazenda Garcia, até a Praça Conde dos Arcos, na Cidade Baixa, na companhia de importação e exportação onde trabalhava e exercia a função de tesoureiro. O salário era minguado, mas dava para o mês todo. Ele economizava no que podia, não pegava bonde nem ônibus para economizar o dinheiro da passagem, o dinheiro não gasto com passagem já servia para comprar o pão. Não bebia cerveja e não fumava cigarro. A única extravagância que Valdemar se permitia era, antes de apequena Mariana nascer, uma vez a cada mês, levara professora Regina Célia a uma sessão de cinema e depois à Cubana para um sorvete ao ar livre, com direito à visão privilegiada e gratuita da Baía de Todos os Santos. Quando solteiro costumava, ir aos domingos, ao campo da Graça para ver o futebol, gastava dinheiro com ingresso e com guloseimas tais como rolete de cana, queijada, taboca, amendoim torrado, quebra-queixo, tudo que lhe despertava desejo. Quando o estádio da Fonte Nova foi inaugurado ele já estava casado com a professora Regina Célia, e não fazia mais sentido gastar dinheiro à toa. Acompanhava o futebol pelo rádio e discutia, no dia seguinte, com os colegas de trabalho, o resultado da partida. Ele não deixava faltar nada dentro de casa, muito menos à pequena Mariana, de 5 anos, sua filha. Valdemar tinha conta no armazém de Manolo, podia pegar a munição de boca e anotar na caderneta para pagamento no final do mês. O dinheirinho que Valdemar economizava era posto num pequeno baú de madeira e guardado na gaveta da penteadeira do quarto, para Regina Célia usar quando precisasse ir à Baixa dos Sapateiros comprar um corte de tecido para fazer um vestido novo, um sapato da moda, ou umas roupinhas para a pequena Mariana. Ele mesmo ia buscar no armazém de Manolo o que precisava, fazia de tudo para a mulher não arredar o pé de casa para ficar cuidando da pequena Mariana. Valdemar tinhaum ciúme doentio e irracional da mulher. E não era para menos. Regina Célia era uma mulher bonita, vistosa, branca de olhos esverdeados. Ele tinha orgulho da esposa, nem um amigo seu, nem colega de trabalho, tinha uma mulher bonita como Regina Célia, e, ainda por cima, formada em professora. O sonho dela era exercer o magistério público, mas, por enquanto, contentava-se em dar aulas de reforço escolar a algumas crianças do bairro. Quando o Estado anunciou que abriria concurso para professores, Valdemar tremeu nas bases. O medo de que ela fosse aprovada e ter que sair todos os dias para trabalhar o deixou inseguro  perturbado a ponto de não pregar olho naquela noite, preocupado com a mulher. Decidiu ir ao terreiro de Mãe Glorinha conversar com ela. E foi. Conversou, expôs sua insegurança, confessou o seu medo e pediu a ela para fazer um ebó para Regina Célia não ser aprovada no concurso público a ser aberto pelo Estado. Mãe Glorinha deixou bem claro que ele estava pedindo uma coisa difícil, se fosse trabalho para ela passar no concurso seria bem mais fácil, mas um trabalho ao contrário ela não gostaria de fazer. Mas só iria atender o pedido dele porque conhecia sua mãe, e sua família e compreendia o medo que ele tinha de perder a mulher. Deixou bem claro que não faria um ebó daquele outra vez.



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