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Sábado, 26 de Setembro de 2020 - 05:05

Uma rádio perigosa

por Biaggio Talento

Uma rádio perigosa
Foto: Reprodução

É assim que começa o “Informe N° 258/81/20/DSI/MEC” datado de 23 de setembro de 1981, sobreo então arcebispo de Natal, d. Nivaldo Monte, produzido pela Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Educação e Cultura aos cuidados do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de inteligência do regime militar, que, no início da década de 1980, atravessava sua última etapa no poder após o golpe de 1964:

 

1 – A Fundação ‘PAZ NA TERRA’, de NATAL/RN, é a mantenedora de uma cadeia de emissoras localizadas em NATAL, MOSSORÓ e CAICÓ/RN, que vêm fazendo pregação política entre as massas trabalhadoras de região. Através das Emissoras Educacional Rural são divulgadas mensagens, reuniões, sendo algumas vezes concitada a luta armada, como ocorreu na Emissora de MOSSORÓ/RN. 2 – Em 15/OUT/80 tomou posse a diretoria da Fundação: Presidente – Arcebispo D. NIVALDO MONTE; Vice-Presidente – D. ANTONIO SOARES COSTA; Diretores - Pe. ANGELO DANTAS BARRETO, JOÃO WILSON MENDES MELO, OTTO DE BRITO GUERRA e JAIRO TONELLI. 3 – O corpo de redatores e o pessoal de apoio das emissoras é composta por pessoas comprometidas com movimentos contestatórios, alguns militantes do PC do B e líderes da oposição e membros da Federação dos Trabalhadores na Agricultura.

 

O relatório vincula o arcebispo a uma rádio que divulga mensagens concitando "a luta armada" e que mantém entre redatores e pessoal de apoio "pessoas comprometidas com movimentos contestatórios, alguns militantes do PC do B e líderes da oposição", motivos suficientemente justificados na visão dos integrantes da comunidade de inteligência do regime para ter o religioso em vigilância. Outro evento que fazia d. Nivaldo "perder pontos" diante da ditadura era ele defender a imprensa livre quando, por exemplo, apoiadores do governo no Rio Grande do Norte, vez por outra atacavam os “militantes” supostamente infiltrados nos jornais potiguares. D. Nivaldo rebatia as acusações, argumentando que a Imprensa “tem sido um meio eficaz de libertação” e sem ela não haveria uma “verdadeira democracia”. Essa postura, levou o arcebispo a se manifestar, quando o desembargador Wilson Dantas, presidente do Tribunal de Justiça do RN na década de 70, qualificou a imprensa potiguar de “mercenária e vermelha”. “Creio que os jornalistas sejam honestos e não manipulem a verdade. Não posso aceitar de modo generalizado as informações do presidente doTribunal. Suponho que ele não teve a intenção de generalizar, pois em todas as profissões há gente honesta e desonesta. Na própria Igreja encontramos santos e pecadores” (O Globo, 21.12.1976).

 

Posições do tipo levavam as autoridades do regime a monitorar d. Nivaldo desde meados dos anos 70, quando avaliaram a renovação da concessão da Rádio Rural, da Arquidiocese, controlada pela Fundação Paz na Terra, presidida pelo arcebispo, que ditaria a linha da programação da emissora.

 

Esse acompanhamento seguiu, pelo menos, até 4 de junho de 1985, data do “Informe n° 0288/85/230/CISA-RJ”, do Centro de Informações da Aeronáutica. Ou seja, quase cinco meses após o fim do governo militar de 64 - encerrado com a vitória da chapa presidencial Tancredo Neves/José Sarney na eleição indireta no Colégio Eleitoral, dia 15 de janeiro de 85 -, os órgãos de inteligência do regime que saía de cena ainda estavam ativos, seguindo o script de combater o que chamavam desubversão comunista, preconizada pela Doutrina de Segurança Nacional dos países ocidentais aliados dos Estados Unidos, em tempos da Guerra Fria. Seguindo essa guerra ideológica, o inimigo a combater no Brasil era interno, queria tomar o poder para implantar a "ditadura do proletariado" e se infiltrava ardilosamente em várias organizações da sociedade.

 

As preocupações do Serviço Nacional de Informações em relação a d. Nivaldo eram voltadas às suas homilias nas missas e a rede de emissoras de rádio da Arquidiocese de Natal pelas quais suas mensagens de cunho social eram propagadas a um maior número de pessoas. O religioso atribuía à linguagem radiofônica uma grande importância para a veiculação de reflexões e ideias que ajudassem na formação política dos católicos mais humildes, uma estratégia condenada pelo regime militar e passível de enquadramento na Lei de Segurança Nacional.

 

Coordenador, nos anos 70, da Linha 6 da CNBB, d. Nivaldo sabia que vinha sendo vigiado, mas desconhecia a existência de um dossiê a seu respeito no SNI. Em entrevista ao jornal Dois Pontos, de Natal (29.3.1985) contou que os militares tentaram censurar seus “pronunciamentos”. E, do púlpito, disse ter avistado “várias pessoas, certamente dos órgãos de repressão, dentro da igreja com um gravador”. Lembrou que esse monitoramento ocorria “sempre durante os atos litúrgicos em que eu fazia meus sermões e minhas homilias. Creio que devem ter gravado muita coisa que eu disse”.

 

Ele se referiu ainda a uma tentativa de grampo quando esteve reunido com a cúpula militar de Natal. “A primeira coisa que notei foi que uma daquelas autoridades colocou a mão lá por baixo do birô. Eu que não sou bobo, notei logo que ele estava ligando um gravador. Foi então que aproveitei para dizer algumas coisas que evitava dizer do lado de fora. Posso ainda dizer que fui vigiado durante muito tempo. Tenho diversas fotos de carros com chapas frias, os quais me seguiam para toda a parte, durante uns 15 dias”, relatou.

 

Nem o fato de ter sido capelão do Exército livrou d. Nivaldo do monitoramento. Ele foi o primeiro Capelão militar do Exército brasileiro, do continente, durante a Segunda Guerra Mundial, sendo oficial de ligação entre as duas guarnições: brasileira e americana, no posto de Capitão, servindo na Guarnição de Natal, como Capelão (1943/1944).

 

O temor do governo em relação à repetição da repercussão do caso da Rádio Nove de Julho se justifica. Apesar da censura aos órgãos de comunicação, os jornais da época noticiaram o caso como mais uma tentativa da ditadura de amordaçar o clero progressista. O fechamento da rádio ocorreu em 1973, ordenada pelo presidente Emílio Médici e foi reaberta em 1999, por determinação do presidente Fernando Henrique Cardoso.

 

Em entrevista ao professor João batista de Abreu, da Universidade Federal Fluminense, inserida no trabalho Rádio Nove de Julho e o apóstolo hertziano, o cardeal arcebispo de São Paulo à época, dom Paulo Evaristo Arns relembrou o episódio: Eu me lembro como se fosse hoje. Recebi do Dentel, órgão responsável, um telefone dizendo: “olha nós acabamos de rever toda a documentação que o Sr. mandou a respeito da rádio Nove de Julho, e eu devo dizer: ‘foi a mais perfeita. Não há nenhum perigo de cassação da rádio porque não há nenhum defeito, nenhuma coisa que possa incriminar a rádio Nove de Julho’”.

 

Recebi este telefonema do diretor do Dentel na cúria Metropolitana. E eu naturalmente comentei com os colegas como uma notícia boa, porque a gente temia que a revolução, e depois o Ato Institucional número cinco, fosse mais longe do que a razão podia imaginar. Esse telefonema aconteceu 15 dias antes de ela ser cassada. De repente veio a notícia da cassação em novembro de 1973. Foi exatamente no dia 1º de novembro que eu fiz o último sermão na catedral e um protesto solene com todos os padres e todos os religiosos presentes. A catedral superlotada e eu dizendo: “agora é a última vez que eu vou poder falar na Rádio Nove de Julho. Isso foi uma imposição de um governo que não tem o direito de fazer isso, e eu faço meu protesto. Eu quero que a rádio, como última palavra, leve o protesto de toda a população de São Paulo”. E aí houve então um aplauso enorme na catedral de apoio a essa reclamação. De fato, quatro dias depois, ela foi fechada, lacrada e desapareceu. Então, eu fui ao Adroaldo Mesquita lá no Rio, um grande advogado e deputado também, perguntar qual o processo que eu poderia fazer. E ele me disse: “todo processo será perdido. É inútil fazer o processo”. Consultei outros advogados, que disseram a mesma coisa. Mas o senador Franco Montoro achou que devia protestar junto comigo e nós fizemos um processo contra o governo. Perdemos. Depois, publicamos a sentença do juiz contra nós no jornal O São Paulo. Em 15 de março 1985, no dia mesmo que tomou posse o presidente José Sarney, no lugar do presidente que morreu (Tancredo Neves), eu estava pertinho dele, como cardeal, e no momento que terminaram os cumprimentos, eu fui lá e disse pra ele: “Senhor presidente, eu vou lhe fazer o primeiro pedido como presidente da República, restitua a Rádio Nove de Julho ao povo de São Paulo, porque senão o Sr. nunca vai ter a simpatia daquele povo”. Essas palavras já tinham sido ditas a mim espontaneamente pelo general Golbery do Couto e Silva: “nós nunca teremos a simpatia do povo de São Paulo se não restituirmos a rádio”.

 

Ele não conseguiu restituí-la porque o Ernesto Geisel não permitiu. Na época do governo Sarney, o ministro das Comunicações era o ACM, [Antonio Carlos Magalhães] que me ofereceu duas rádios pequeninas (uma delas em Cotia), que não cobririam nem a metade da cidade de São Paulo. Eu não aceitei por dois motivos: primeiro seriam caríssimas para serem administradas e depois não cobriam nem a cidade de São Paulo. Eu próprio telefonei para o ACM e disse que não podia aceitar uma rádio pequenina em troca de uma que alcançava naquele tempo o Brasil de Norte a Sul. O Sarney não deixou de atender ao pedido, mas não concedeu aquilo que era justo, isto é, aquilo que tinha sido roubado.

 

Esperei até a vinda do Fernando Henrique Cardoso, com quem eu trabalhei uns 10 anos ou mais aqui em São Paulo no Cebrap. Eu ajudei a salvar da morte por tortura alguns membros do Cebrap. E ele me devolveu espontaneamente a rádio. Em si a potência da rádio atualmente é até um pouco maior, mas quem entende de rádio sabe que São Paulo hoje está todo crivado de transmissores, de maneira que é muito difícil ter hoje uma rádio com o alcance que tinha a Nove de Julho nos anos 70.

 

D. Nivaldo se refere à suspensão da Rádio Nove de Julho em entrevista ao jornal A Verdade, publicada em fevereiro de 1998, para explicar porque a Rádio Rural de Natal não foi fechada pela ditadura. Eu sabia fazer as coisas e dava o murro na faca de ponta. Dando murro na faca de ponta, a faca entra no meu inimigo. Se eu dou murro na ponta da faca eu me firo. Vejamos. D.Arns brigou lá em São Paulo. Fecharam a rádio. Até hoje [fevereiro de 1998] não conseguiram abrir. A nossa rádio não fechou. Por causa da nossa prudência não foi fechada. A prudência é uma virtude que deve estar presente em tudo. Eu não preciso ter valentia. O meu gabinete foi devassado, eu era fichado lá dentro. Mas eles não tinham meios de me atacar. Eu pergunto: quem teve a coragem de visitar Agnelo Alves [ex-prefeito de Natal] quando ele estava preso? Eu. Única pessoa. Porque eles me respeitavam. Sabiam que se precisasse eu gritava, não gritava fora de hora.

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