Sábado, 19 de Setembro de 2020 - 05:05

A guerra dos cristais

por Carlos Navarro Filho

A guerra dos cristais
Foto: Acervo pessoal

Sem aviso prévio os meus cristais começaram a brigar no labirinto e desde então vêm me dando uma canseira. Imagine você deitado, dormindo, vira para o outro lado e o mundo começa a girar, em velocidade de fórmula 1, tanto faz o olho aberto arregalado de susto ou fechado, à guisa de vacina para não sair voando que nem barata, sem destino. A viagem é a mesma.

 

Dia seguinte acordo cedo ainda tonto e vou correndo ao otorrino. Exames durante toda a manhã e vem resultado: a audição está cem por cento, ótima, o único senão é que os cristais estão fora de lugar, mas isso é bobagem, eu mesmo de vez quando tenho isso, diz ele. A tentativa de amenizar o stress até vale. Até a hora de chegar a fonoaudióloga para fazer a manipulação vestibular, parte mais importante do tratamento porque esse negócio de cristais rebeldes não se trata com remédio.

 

- Deixa eles comigo, diz a moça sorridente que me sacou do consultório dele e me transfere para o consultório dela.

 

Pensei com meus cristais, logo logo me livro de vocês. E nem bem tinha terminado a ameaça já estava sentado sobre uma mesinha, tipo maca, de costas para a distinta. Relaxe e confie em mim, ato contínuo me puxou pelo pescoço para baixo em meio a um turbilhão de mesas, estetoscópios, impressoras e outros aparelhos rodopiando em rasantes e eu despencando no abismo. Você está seguro, dizia ela, vai passar, é assim mesmo. Meus olhos, segundo ela, rodavam mais que um pião maluco, daqueles que as crianças apertam um haste em cima e ficam rodopiando no chão que nem os olhos do picapau, quando levava uma traulitada na cabeça desferida pelo urubu rei nas tirinhas da Disney. Lembrei do meu irmão pescador quando criança, que costumava afrontar os desafetos ameaçando “dou-lhe um pau no meio da testa que você vai ficar com o nariz mexendo e o zóio rodando”. Nesses momentos é fatal lembrar também de Zovaney, um amigo dele, que tinha espasmos gozosos ao contar derrotas nas brigas de rua. “Ele veio correndo e me deu um murro na cara que caí na hora. Foi bater e o mel descer do nariz. Fazia tempo que eu não tomava um murro daqueles”.

 

Mas, voltando à minha desdita, depois da hecatombe ela perguntou. E aí, melhorou? Eu assenti com a cabeça e fui orientado a esperar 15 minutos sentado, olhando fixamente para a parede em frente, sem mover o pescoço para não incomodar os cristais. Aí você começa a pensar nas desventuras do isolamento que vivemos nesses dias pandêmicos e conclui que miséria pouca é bobagem. Vencido o prazo, foi a vez do que sobrou de mim perguntar.

 

- E agora?

 

- Vou encaminhar o senhor a um fisioterapeuta para concluir o tratamento, depois de 15 dias o senhor volta e vamos fazer uma avaliação.

 

Pensei com meus botões “isso não vai dar certo”. E me preparava para sair, caminhando lenta e cuidadosamente de forma a não acordar os cristais, quando voltou o otorrino com a sentença final: “E nesse meio tempo antes do retorno nada de gordura, fritura, açúcar e álcool”. Puta que pariu, reagiu o que me sobrou de juízo. E agora? Sem o meu uisquinho, a última e definitiva arma, como é que vou enfrentar a quarentena? Careta? Não se manda um guerreiro ao campo de batalha sem pelo menos um badogue. Assim não dá. Sou um cristão temente a Deus, se bem que por essas e outras ando meio puto com ele e prestes a formalizar o meu protesto usando Francisco, no Vaticano, que é o método mais rápido e direto, mas por via das dúvidas o restinho de juízo que me sobrou sugeriu que não precisava ir tão longe e fosse reclamar mesmo no pé do caboclo no Campo Grande, que é ali pertinho e acessível, além de ser uma tarefa de menor consequência na hora do repique do santo. Não esquecer que ele uma vez encheu de sopapos o amigo João Ubaldo Ribeiro, em uma canoa pesqueira em Itaparica, que o marcou para o resto da vida.

 

No momento levanto deste computador, no qual alinhavo uma nova história para o Goroba, a pedido de amigos, primeiramente de Raul Bastos, quando leu os originais do livro anterior, e me preparo para ir ao fisioterapeuta, pensando na fonoaudióloga e invocando o nome de Deus porque prevejo uma nova derrota para os meus cristais. Conheço a clínica e lá só tem armário trabalhando.

Histórico de Conteúdo