Usamos cookies para personalizar e melhorar sua experiência em nosso site e aprimorar a oferta de anúncios para você. Visite nossa Política de Cookies para saber mais. Ao clicar em "aceitar" você concorda com o uso que fazemos dos cookies

Sábado, 22 de Agosto de 2020 - 05:03

Corona onírico

por Carolina Freitas

Corona onírico
Foto: Daniela Carvalho

Contraproducente. Era assim que eu me sentia. Apesar de todos os esforços e da nova rotina: trabalho atrasado, cabelos brancos indomados e filhos, em casa, aos berros. Não conseguia dar vazão àquilo de mim que bradava. Sequer sabia o que era. Um it de camisa de forças, esperneando, pedindo para desassossegar.

 

Trancada com meus filhos e minha mãe, sem rota de fuga. Sem ter pra aonde ir ou, pior!, tendo, mas não podendo ou não devendo (o que termina por ser não tendo), não tinha mais aquela parte do dia em que, dirigindo para o trabalho, ia ao encontro dos meus devaneios. Guiar significava ir para um lugar, indo para todos os outros no meio do caminho. Era vital me perder diariamente para que eu pudesse me achar mais forte ao fim da rota.

 

Ficar em casa é um sonho, mas apenas para os que não podem fazê-lo. Quando é obrigação, reforça o elo na corrente da loucura. Sair é arrastar esta corrente e permitir a entrada do Covid. Como quem não tem outra opção razoável, tranquei-me. Tudo piorava exponencialmente. Além da cabeça fora de ordem, ao ligar a TV, abrir qualquer jornal, deparava-me com cenas políticas inadjetiváveis. Raivosos, sem discernimentos; apenas cães mordendo a própria cauda.

 

Tomava antidepressivos há alguns meses. Já encapsulada de alguma forma. Sentia-me uma borboleta em regressão. A beleza aprisionada à força num casulo. O fim inevitável na lagarta. Era o luto por alguém que não morreu. Não mais meu. Não mais nós, só nós, a empáfia que desarmoniza a corda com um tombo.

 

Esperava vê-lo ao acaso, o mesmo que nos juntou. Se houvesse justiça neste mundo, cruzar com ele seria como uma possibilidade infinitamente remota, mas certa de acontecer. Nem que fosse para gritar verdades e maldades. Desejava mesmo sussurrar saudades e beijá-lo. Devaneio por este encontro, mas o espectro da incerteza guarda um aspecto que eu não conheço. Microscópico e devastador como um vírus.

 

Fugir, fugir, fugir, era tanto o que me vinha quanto o único que fisicamente não podia. Pego um livro. Um livro me alivia. Abro um Mia como quem tira a rolha de um bom vinho. Bebo ostensivamente. Leio alto alguns trechos, embriagada com seus ressignificados, que tornam as coisas infinitamente mais belas. E, no acalentar da rede da varanda, chegam sonhos estranhos, que preciso contar.

 

***

 

Pã entrou na cidade com sua flauta mágica. Um bicho, eu acho, ou um artista, ou um capacho, certamente um bode quando se pode olhar só de baixo. Assoviou, assoviou, assoviou. Parou, bateu no instrumento, levantou as sobrancelhas, ajeitou seus cílios cabeludos e olhou por todos os buraquinhos: nada entupido. Todos os canais abertos e lubrificados com saliva ancestral.

 

Pigarreou. Hanram, hanram. Cantou notas no tom, um tom acima, outro abaixo...la la la la la la la....soou igual a sempre. Puxou o alforje, usado como cinto, pois também era bode, sacou uma garrafa de vinho, pensando em gargarejar. Botou na boca. Hummmm, bommmm! Sacrilégio cuspir fora e, ora, ora, entornou a garrafa. Tossiu mais um bocadinho. Tudo certo com as cordas vocais, constatou.

 

Será que perdi meu encanto?, pensou. Sou um Deus! Sou atemporal! Pandêmico. Não há passagem, pastagem, paisagem, não há ser vivo impune, imune a mim. Não há nenhum desafio, confio no som de minha flauta...Mas Pã sem rebanho, sem seu pastoreio, nada mais é que um Deus alheio a seu compromisso, um Deus omisso, ou pior, um fracasso. E, no afã de se tornar popular e tendo, no mundo moderno, se tornado esquecido, tomou como missão um desafio que a si mesmo se impunha e ao qual não se nega: encantar todos na Selva de Pedra. Sem fresta para exceção.

 

Tinha lido sobre as fábulas do mundo moderno. Queria aprender as lições e se atualizar com aquilo que anestesia o homem novo, entorpece, alimenta as fantasias. Lembrou-se da História dos Porcos e do Lobo. Persistir na mesma jogada pode ser trágico, refletiu. Parou de tocar a flauta, porque isto também era assoprar, e riu. Estava bêbado e cansado, mas não burro. É preciso repensar as estratégias, assentiu a si mesmo. Encostou para dormir num canto qualquer da rua, escornado, ébrio. Um Deus desfrutando a sarjeta era mais verossímil do que aqueles confinados à mitologia.

 

Acordou sobressaltado, moscas na boca e um eco na cabeça: onde estão os homens, onde estão os homens, onde estão os homens? O sol a pleno céu ou o céu pleno com o sol ofuscando-lhe as vistas, lembrando-o de que os deuses festivos são criaturas noturnas. Ele precisava aguardar a noite. Estranhou o dia silencioso, a falta das buzinas, o cheiro de ar limpo e, de dúvidas em dúvidas, adormeceu novamente.

 

Ring-ring, o sino de uma bicicleta ao longe o acordou. Meu Deus, ou melhor, meu Eu, gargalhou, anoiteceu, preciso trabalhar. Não havia planejamento. Apesar de ter falhado na noite anterior e, de uma forma ou de outra, estar preparado para os novos tempos, Pã é um Deus e, mais do que ele possa controlar, a prepotência é inata aos investidos de poder. Sem nem ao menos precisar gritar um foda-se, seguiu na noite, tocando sua flauta.

 

Era cedo. Havia algo diferente da noite anterior. Mais luzes dentro das casas? Misteriosamente mais poderoso, Pã tocou com todo fervor e num passe de mágica, feitiço, ou macumba, sei lá, as pessoas começaram a aparecer nas janelas. Os chifres do fauno, como uma antena, captavam a vibração. Não perdi meu je ne sais quoi, olhem, olhem, disse, como que suscitando inveja aos outros deuses, todos estão embevecidos com o velho Pã.

 

***

 

Sou acordada por minha mãe. Perdeu a hora? Esfrego os olhos e não sei o que dizer. Começo o dia desconfortável. Controlar as horas ainda é um ritual que me dá sensação de normalidade. Digo que sou brasileira com alma de britânica. Inconvenientemente pontuais são as pessoas que chegam na hora marcada em Terra Brasilis.

 

As crianças custam a levantar. Os milhões de beijinhos dos cinco primeiros minutos são progressivamente substituídos por cobertas impacientemente puxadas. Os gritos de ordem são sequenciais: Levanta! Tira o pijama! Escova os dentes! Penteia o cabelo! Se prepara para a vídeo-aula! Todas as frases ditas ao menos cinco vezes para cada um deles. Não sei como eles ainda me amam e ainda bem que eles me amam são sentenças que se alternam na minha cabeça, principalmente agora, que passamos as vinte e quatro horas juntos, todos os dias.

 

E vou de filha a mãe, a merendeira, a fiscal de disciplina, a cozinheira na primeira hora do dia e ainda corro porque preciso ser funcionária. Trabalho no escritório de dentro de casa e chego atrasada. Talvez porque lá alguns velhos problemas nunca mudem. Nem o vírus que reveste algumas pessoas de um falso altruísmo. Quando o assunto é dinheiro, esta virtude não se sustenta e, na aparente impessoalidade de e-mails e videoconferências em que se vê as feições, mas não se sente a energia, seguimos o baile de máscaras de outrora. Máscaras e máscaras.

 

Na quarentena, as demandas chegam juntas e todas são prioritárias. Todos os papéis precisam ser desempenhados simultaneamente, com sorriso no rosto, álcool gel na mão e ideias geniais. Respira, minha filha, respira, mas confere se a máscara está bem vedada, tá? Não se consegue ser livre porque tudo está embaçado, e tudo que você vê está irrespirável, quer por suas pobres percepções, quer pelas milhares de fake news das quais tenta inutilmente desviar.

 

Sinto falta de tempo para mim. Pedinte das alturas, reclamo a Deus em segredo: e eu? E eu, meu Senhor? Ele já está acostumado com estas lamúrias, só que as respostas habituais são inválidas em tempos de pandemia. Deixa os meninos com o pai e vai pra casa da amiga, reprograma a agenda e faz um mega happy hour na sexta, vai dançar domingo à tarde, liga o Tinder e marca encontros casuais. Nada disto é possível. Meu eu, que adora uma exposição de vez em quando, precisa ficar no isolamento.

 

Bem-aventurado aquele que não sente falta da expressão carnal do amor. O vírus da AIDS não parou o mundo, sequer as transas. Frenesi de entradas e saídas. Mas dividir o ar, ah!, compartilhar o etéreo, ah!, agora é risco de morte. A distância precisa ser mantida. A ânsia, contida. O desejo, arrefecido por pilhas.

 

***

 

Subitamente estou em outro lugar. Uma casa estilo anos quarenta, ou no que eu imagino ser daquela época. Sozinha, sem mãe, sem filhos. Casa de esquina, verde água. Ao lado, sob um avarandado, um jardim de rosas. Cobogós desnudam parte da sala. É para entrar o vento e a curiosidade, decerto. Estou numa cidade do interior, e este jardim é o da minha infância. A parede tem uma tinta esmaecida, descascada em alguns pontos. Singularmente bela em sua decadência. Charme dos anos quarenta, reforço.

 

O portão se abre. Ele chega envolto numa névoa típica das manhãs frias. Era a única pessoa que podia estar ali. Não fosse ele, estar sozinha bastaria. Ele senta ao meu lado, na porta da cozinha, esperando uma nesga de sol. Por vezes, nossos braços se tocam. É esperado. É estranho. É desejado. É estranho. Fixamos nossos olhares para o céu, como quem espera as cortinas abrirem para o espetáculo acontecer. Não observamos nuvens nem seus desenhos. Não há nada de pueril ali. Até o olhar abobado para o infinito é prenúncio de desejo.

 

No instante seguinte, estamos caminhando entre as roseiras. Plantas altas, as quais não recordo ter visto, exceto quando era pequena. Não falamos nunca, olhamo-nos às vezes. O único sempre é a mensagem indecifrável dos seus olhos. Rosas e espinhos e um jardim de clichês costumam me aborrecer rapidamente, mas estou acuada pela curiosidade, muito mais forte que a impaciência.

 

Não me reconheço neste papel. Sou impulsiva. Recebendo o mínimo sinal, eu ataco. Diante de um espelho d’água, mergulho. Ali sou eu e não sou. A angústia me espreita, os esbarrões são cada mais frequentes. Começo a viajar no cheiro de café que ele tem, e no outro segundo ele me beija. É bom. É estranho. É bom.

 

Abro os olhos, e ele está de luvas.

 

***

 

São só duas da manhã. De longe, gritos estridentes me despertam. Não consigo identificar o que é. Penso ser os vizinhos do prédio, curtindo uma destas lives de música sertaneja que felizmente desconheço. Para, continua, para novamente. Apuro os ouvidos: uma mulher. Dura uns quinze minutos, o suficiente para me deixar insone.

 

Minha casa é muito barulhenta. Sacudimos a Babel aos gritos. Ouvimos TV alta, interpelamos pronunciamentos presidenciais com exclamações indignadas. Estamos abalados, tristes, desconsolados. A política nos atinge em igual escala ao vírus, às vezes mais. Ser silente nunca foi uma opção. Nossas falas não dão espaço ao vil. Pensamentos e reinvindicações surgem aos borbotões, por todas as bocas, ao mesmo tempo. As crianças, quando me veem zangada, perguntam: foram os políticos ou fomos nós, mamãe?

 

O escritório está improvisado no meu quarto. Ponto da casa mais distante da sala, onde se joga videogame, e da cozinha, centro de alimentação das fofocas. Esqueci de contar: minhas duas irmãs estão aqui. Minha casa virou acampamento. Novos gritos lá fora chamam nossa atenção. Aproveitamos a luz do dia para saber o que está acontecendo, de onde está vindo. A voz é a mesma de ontem. A gritaria? No prédio ao lado. Não sei qual o apartamento. Alguém em casa esbravejando ordens, comentou minha irmã. Rimos, cúmplices, como se disséssemos: tá tudo bem, pode gritar mesmo!

 

A barulheira se repete mais algumas vezes, durante dias alternados. Começa a me incomodar. Não me parece mais explosão de ira. Algo pior está acontecendo. Observo as outras janelas do prédio e, por vezes, vejo um curioso a espreitar igual a mim. Por que, se morando no mesmo edifício, ainda não foram acudir esta mulher que parece precisar de ajuda?

 

Numa tarde destas em que a concentração no trabalho tarda a chegar, na porta do prédio do lado, vejo uma criança protegendo uma mulher com um bebê no colo dos avanços de um homem. As falas são claras. Não encosta na minha mãe! Deixa ela!, grita uma menina de uns dez, doze anos, empurrando o homem para o lado contrário. A audiência se queda inerte como nos outros dias. Grito de impulso: Olha a Maria da Penha! Se ela não parar de gritar, vou chamar a polícia! Os atores se recolhem a um ponto que não enxergo, e faz-se o silêncio.

 

Não houve mais nada desde então. Ou houve, em sussurros. Fiz bem? Não sei. Além de sofrer por aqueles que estão confinados com fome, também dói tomar consciência dos que estão presos ao lado de alguém que lhes apavora.

 

***

 

Rente a mim, alguém que já amei muito, mas, curiosamente, não amo mais. Uma amnésia completa dos momentos anteriores, mas uma certeza: voltamos. A angústia aperta como grilhões no pé de um prisioneiro do século dezoito. Preciso voltar para casa, encontrar meu eixo, desfazer este engano.

 

Garagem subterrânea. Preciso subir a pé uma rampa íngreme. Não sei de onde vem tantos carros. Voltem para casa!, grito. Reapareço numa selva. Salto cipós, procurando uma clareira. O que urge me emprenha e faz parir uma força que não sabia. Faço, é preciso. Vou motivada pela necessidade. Onde a mata se abre, oportuniza-se a ajuda. Vou bater no peito e gritar como Tarzan, mas estou de máscara, uma mordaça. Apuro a percepção, sou Jane. Sou muda.

 

***

 

Minhas amigas se queixam por estarem insones. Quanto a isto, perdi duas ou três noites nestes sessenta de quarentena. Durmo profundamente. Causo inveja às pedras. Confesso, porém, não estou no meu ritmo normal. Sou diurna. Meu costume é dormir às dez e acordar às cinco, absurdamente bem humorada, disposta, podendo tudo. Esquisitíssimo para a maioria das pessoas, cedo é o meu melhor.

 

O amanhecer é a minha hora gloriosa. Levanto-me, faço ioga, medito, rezo, leio e escrevo. Pelo menos era a rotina antes da pandemia. Agora, tenho ido dormir às doze e acordado às seis e pouco. Uma rotina da quebra da rotina. Tenho sonhos intensos, lúcidos e cansativos como verdades. Dia destes, vi a chamada de uma matéria no El País sobre sonhos na pandemia, preciso procurá-la e ler tudo, mas sempre deixo pra depois.

 

O normal está relativizado. Medito às vezes. Escrevo pouco. Não termino livros começados. Rezar? Nunca. Compadeço-me e amorteço a dor de meus irmãos, mas estou confusa para conversar com o Pai. O que creio? Que somos todos a mesma coisa. Compartilhamos a centelha do comum, a comunhão do extraordinário. A partícula divina está ofuscada na pilha da confusão. A louça a ser lavada, os fios de cabelo pelo chão a serem varridos, os produtos do mercado a serem higienizados, os filhos a serem entretidos e o divino, o celestial, o Tudo, lá no canto, esquecido.

 

Engordo em larga escala. Entendo a expressão “boi confinado” na camada de gordura que cresce ao redor de meu corpo. Uma espiadela no espelho, de relance, mesmo para escovar os dentes, é martirizante. Adjetivo-me da pior forma. Antecipo a dor dos dedos que serão apontados. A gordura é outra reclusão.

 

Não me reconheço. Sou eu mesma porque, além da imagem, a palavra me revela. Releio poemas, converso sobre uns poucos novos manuscritos, como se buscasse, aqui e ali, me resgatar. Uma boa amiga me consola: estamos todos mais ou menos assim, errando e acertando. Lembro-me de dizer, aos vinte anos: estar perdida é entrar numa floresta densa sem bússola. Vinte anos depois, perco a mim mesma numa casa estupidamente familiar.

 

***

 

Um balde de laranjas a serem descascadas, trocentas. O balançar confunde e enjoa. O equilíbrio desaparece e faz do andar retilíneo um trôpego errante. Paredes que não são o limite do corredor são apoio. Debate-se nas paredes a esmo e só se anda nesta marcha esquisita. No fim do percurso inequívoco, uma parede onde uma placa vermelha pisca: “Volte!”. Do outro lado, não tão longe, não tão perto, outro sinal luminoso. Deve ser “Volte!” também. Ao longo do destino, não vislumbrado antes, caminhos perpendiculares, um de cada lado. No fim deles, escotilhas sem mar. Uma encruzilhada no meio. Depósito dos desejos, altar dos pagãos, campo magnético que pulsa a um único pedido: Fé!

 

***

 

Perto de minha casa, abriu um hospital de campanha. Queria fotos para mostrar. Uma faculdade durante anos, na sua inutilidade funcional, agora desativada, só conhece a morte. Dezenas de ambulâncias na rua. Conto apenas quando chego na janela. Devem ser centenas. A saturação da doença ao meu lado. Sigo no meu anticorpo do isolamento, mas me obrigaram a ser testemunha ocular.

 

A última vez que fui num hospital? Quando pari. Era longe da minha casa, local distante na cidade. Quase não tive visitas. A vista mar acalentava a falta de companhia de gente grande. Embalava o bebê, e o mar, a mim. Virou sinônimo de vida, de recomeço. Solitude. Paz azul. Hoje é cheiro de éter. Minha estranha mania de poeta quer dizer etéreo, sublime, que se dissipa. Revela o incerto, porém.

 

Quem são aquelas pessoas obrigadas a ficarem sós? A quem lhe é negado o fôlego? Estar num respirador parece presságio de morte. O inato não é mais fato. Máquinas fazem o trabalho natural do humano. O vital: máquinas. Homens lhe operam, suscetíveis a precisar dela, como quem precisa de ar.

 

***

 

Conversa telepática. Encontro no escuro, não o do céu de estrelas. É como estar de olhos fechados e não formar imagens. Uma desculpa velada de um lado. Falta de coragem. Do outro, milhares de escusas explícitas e berradas. Ambos estão certos, mas compreender cansa. Tomo um partido: o meu.

 

Ele nem sabe por que ainda está ali. Arrebatado pelo inexorável. Todas as palavras doces, escritas, declamadas e derramadas aos seus pés, findas. Como se o dicionário permitisse combinação limitada de boas palavras. A mágoa reina. Os porquês são de nãos e terminam em nãos. Sofra igual, é o desejo. Que não haja salvação em colo, consolo, abrigo ou demência. A ordem: arrependimento. Amargo: o gosto.

 

Traveste-se de manso para não carregar qualquer fardo. Escusa-se de qualquer responsabilidade às custas de pretensa calmaria e um falar baixo a que se impõe. Moderado. Econômico em sentimentos, como se timidez fosse valência que pudesse contornar ausência de caráter. Um inferno pintado em tons pastéis.

 

***

 

Boa parte das pessoas está em casa ou deveria estar. Vencidas pela necessidade ou pelo medo. Acuadas, mentem para si mesmas: é época de reflexão! Sairão melhores, fortalecidas. Gastam seus minutos em redes sociais. Uma pane elétrica catapultaria livros para dentro das casas? Talvez isto as ajudasse no seu intento. A ociosidade, paradoxalmente limitada pelo senso de oportunidade, impede a si mesma de ser aproveitada com riqueza. É isto que me impulsiona a escrever. Para mim e para eles. Lampejo de pouca modéstia: o que tenho pode interessá-los.

 

Minha escrita é movida a força bruta. Um pé na forca, uma moça louca, uma risada tosca, tenho gosto pelo incomum. A sutileza das coisas mornas me escapa; deixo-as para outros. Escrevo para os que não têm medo ou aspiram superá-lo e se lançam ao desconhecido, ao desejo pulsante, ao degredo errante. Estou meio oca, porém. Mouca para novos ecos. O silêncio que vem da rua enceguece. Calçadas vazia são como a minha cabeça: ninguém lhes passa. Automatizada em casa.

 

Acabada esta loucura, a da doença e a minha, máscaras ainda taparão bocas, mas não olhos. O único plano: vasculhar os dele à procura de vestígios de verdade. Qualquer uma. Enxergar que nunca estive ali, ao contrário de todas as promessas. Romper com a fantasia sem desvelar a máscara.

 

***

 

O gato me trança as pernas. Um bailado sem compasso. Tento sair, não posso. Não passo pro próximo passo.

 

Na máscara, ponho um laço, qualquer menção que faço, giro a maçaneta, erro crasso, me aparece o gato.

 

Quantas vidas tem? Em que se fia? Por que sair? Se detém! Lê as notícias. Espia! Se sair sem embaraço, achando que alivia, outro bicho vem no encalço, para, desconfia!

 

Olho bem no regaço, sentado, uma elegia, bicho de quatro patas, me olha e mia. Todos têm sete vidas, não só ao gato condiz. Ignora as várias vezes que morreu de amor ou de susto verdadeiro?

 

Guarda um pouco o que te resta. Lá fora, o derradeiro te espreita. Rouba o fôlego, ceifa a colheita. Fica aqui, aceita. Confia nesta intuição que te guia, falou o expert que mia.

 

***

 

Engraçado os que reclamam da falta da liberdade. Há tempos estávamos aprisionados. Sempre penso nisto, o futuro chegou. Fato: somos comandados por robôs. Não os que imaginávamos nos anos 80, máquinas à moda de “O Exterminador do Futuro”. São algoritmos que “leem nossos pensamentos” e nos tornam burros e escravos.

 

Nossas relações já eram quase exclusivamente virtuais. Relações fraternais, amorosas, filiais, de ódio, todas, todas, todas mantidas pelo celular como quem cuida de um tamagotchi. Dizer-se saudoso de encontros, aqueles que mesmo antes da pandemia não existiam, é fingir que não viveu os últimos dez anos.

 

O que se salva está para dentro. Forçosamente aprisionamos seres que querem correr, jogar bola, andar de skate, brincar com os amigos. Passamos a ficar com eles integralmente. Uma nova licença maternidade? Mesmo nas atribulações, resgato antigos prazeres nossos: fazer as comidas que gostam; olhar, sem pressa, aquele desenho engraçado; colorir sonhos e histórias. Eles fazem graça comigo. No humor de pré-adolescentes, dizem que têm carentena. Repetem com ênfase, É carentena, mamãe, isto sim!

 

***

 

A pandemia movimenta alguns dos meus gostares. A novidade do porvir. Desafios e soluções inusitadas. O dissemelhante. O pensamento curvilíneo. Minha expertise? Arrumar o novo. Torná-lo palatável aos que se consomem apenas passado.

 

Assim são meus dias de trabalho: procurando pelo futuro. O novo contrato. As novas formas de transacionar. Como o vírus afeta a burocracia. O dinheiro será mais raro que vagas na UTI. Leio, leio, leio, penso, esquematizo, sintetizo. Pode não sair como nos meus planos, mas não me surpreenderá de todo.

 

Penso nos automatizados, nos desempregados, nos desafortunados por resultados irreais. Sou uma sortuda, reconheço. Há uma falibilidade no futuro que me conforta. Nem eu sei ao certo, mas todos se igualam a mim. A imprevisibilidade do futuro põe todos no mesmo plano. Angústia ou consolo, não sei, mas acho melhor assim.

 

***

 

A cidade está em lock donw. Tudo fechado. Algumas amigas estão marcando para se encontrar em filas de supermercados. Não consigo condená-las. Sinto tristeza, até. Não penso na irresponsabilidade, na propagação da doença, só na solidão. Quando uma casa só tem um corpo, morada e persona se fundem. A casa se torna vazia e o corpo, sem abrigo.

 

Sinto falta do amparo do pertencimento. Caminhar pela cidade, deslocar-me pelas ruas de meu bairro, saber onde cada uma dá, preencher-me daquela intimidade de ser dona do lugar. O vírus é matreiro e me espreita nestas ruas que são minhas. Mas o vírus não tem autonomia. Ele não pode estar num lugar sem que haja um portador. É como uma arma num assalto. A arma precisa de alguém que a empunhe para ser letal, senão é só um objeto na mesa. Roleta russa descarregada.

 

***

 

Depois de dias desbussolados, tenho conseguido encontrar um eixo. Como se eu tivesse uma gravidade própria e estivesse na lua nestes primeiros dias. Voltando à terra: eixo! O meu, entretanto. Entretanto, sem entretanto. A peculiaridade em que me prendo ao planeta não pode ser um porém. Gravito com graça neste anormal, às custas de olhares oblíquos. Minha relação com a pandemia, com o ordinário e com o extraordinário é própria.

 

A liberdade de ser quem sou é ratificada pelos livros, por apanhados de recortes, pela filosofia. Tantos se prendem no ir e vir. Dizem que limitar a expressão do movimento mata-lhes mais do que a doença. Eu? Concentro-me no ser. Este, ninguém limita. Ser, me cura.

 

Heráclito me consola. As transformações da natureza precisam do conflito. Transcender a tensão que reside na inércia é que traz o conhecimento. Não posso ser prisioneira dos porquês. Refutar fatos para acomodar um plano é bobagem colossal, involução, até. Mas não consigo absorver toda esta teoria quando se trata de amor, deste amor.

 

***

 

Um ex-namorado voltou a me procurar. Não ele, outro. A relação que tinha não resistiu à quarentena. Para tempos anormais, nada melhor do que o não convencional, penso. É uma busca previsível. A pandemia impede encontros de reconciliação, e eu agradeço a Deus por esta desculpa. A verdade é que não quero, mas ele não entenderia esta rejeição agora. Tê-lo por perto também me conforta, um prêmio de consolação. Alguém ainda deseja me amar, minto para mim mesma. Corrijo-me: alguém me deseja, e só. Pragmatismo insistente.

 

***

 

Os dias têm amanhecido confusos. Outono é: ou tô no sol ou tô no vento ou tô na chuva. Alguns pontos da cidade amanheceram alagados. Isolamento social é um luxo quando as intempéries não tiranizam. Contemplo sem sentimentos: faço parte destes privilegiados. Valorizo mais o clausuro. Adenso. Esmaeço todas as conversas internas e conflitantes com tons de silêncio. Quanto mais mudo por dentro, menos o de fora faz eco. Faço uma prece para que meus múltiplos um dia sigam em paz.

 

Estou esperando o fim? Ansiando pela morte? Eu ou os outros? Abreviar a duração das coisas, ainda que seja a da pandemia? O valor da maturação é algo que ainda não aprendemos. Os ciclos levam todas as coisas aos seus lugares de apaziguamento. O inevitável se desloca no seu ritmo. Será que é porque o mundo ainda é excessivamente masculino? Nós, mulheres, temos a oportunidade de frutificar, saber que a colheita tem um tempo próprio e indômito. O afã gera frutos pecos. Apressar a vida não deveria dizer aos anseios.

 

***

 

Ontem, trabalhando, mais um destes feeds que assino pipocou no computador. Link para o blog dele. Diabos! Nunca mais havia me ocorrido. Como quem se apercebe de um sinal divino, leio. Diz que tem saudades de viagens, da locomoção. Não apraz a chegada, não apraz o destino, apraz o voo. Beduíno que não se alegra com o oásis vive com areia constantemente entrando-lhe pelos olhos. Desassinei o feed. Fechei a página. Fechei o livro. Sou porto, sossego. De onde se parte já querendo regressar. Suporto mares crescentes e vazantes, idas com vindas programadas, nunca errantes. Quem não me tem por destino certo, não desembarca em mim. Segue as águas calmas e prenunciáveis.

 

Volto à rede na varanda. O mais do lado de fora que me permito explorar. Embalando-me à procura de novos sonhos. Passada a pandemia, perderei esse instinto? Frutífero e significante e louco e distraído. Apenas mais um capítulo da minha vida.

Histórico de Conteúdo