Sábado, 15 de Agosto de 2020 - 05:10

O cancan das Irmãs Tripa

por Chico Ribeiro Neto

O cancan das Irmãs Tripa
Foto: Acervo pessoal

A chegada da televisão a Salvador em 1960 (a TV Itapoan foi a primeira) acabou com a turma da rua. A gente ia para a casa de Chico Canela, magrinho que só, onde as tias dele compraram a primeira TV da rua. Ficava menino até debaixo da mesa da sala, tudo amontoado, fora os da janela.

 

Eu morava na rua Gabriel Soares, 33 (Ladeira dos Aflitos), onde dona Cleonice, minha mãe, tinha uma pensão. Nossa turma de rua reunia os meninos da Gabriel Soares, rua Tuiuti e Largo dos Aflitos, onde sempre rolava um baba defronte da igreja.

 

Era na esquina da Tuiuti com a Gabriel Soares que a gente se reunia toda noite a partir das 18:30/19 horas. Eu tinha 12 anos, estudava no Ginásio São Bento e à tarde, quando acabava de fazer o dever de casa, ia correndo mergulhar na praia do Unhão.

 

Mas ainda não falei das Irmãs Tripa. As duas, magrinhas, moravam na Ladeira dos Aflitos e quando os pais saíam para a igreja, quase toda noite, elas e a empregada ("é a empregada quem bota as meninas a perder") iam para a porta da casa  levantar a saia, sorrindo e cantando, para nos provocar. Da esquina a gente corria até o objeto do desejo, mas elas corriam para casa e batiam a porta, sempre sorrindo.

 

Alguns meninos se escondiam mais perto e, quando elas estavam fazendo o Moulin Rouge, pois sempre estavam de saia ou vestido, eles atacavam. Aí, quem pegava uma antes dela entrar em casa tacava os beijos e abraços e elas, entre gritinhos nervosos, se refugiavam de novo. Na volta para a esquina, a pergunta: "Você conseguiu pegar onde?"

 

A rua toda namorou com as Irmãs Tripa. Fui com uma delas ver o filme "La Violetera", no Cine Capri, Largo 2 de Julho, com Sarita Montiel. Ficamos duas sessões, para ter mais beijos.

 

Os pais das Irmãs Tripa souberam dos últimos acontecimentos e resolveram convocar nossa turma para esclarecer tudo. O velho foi na esquina e fez uma convocação imperiosa: "Quero que se apresente agora quem namorou com elas. Se não se apresentar, eu tenho condição de descobrir um por um. Vamos lá? Quem namorou com S.? Quem namorou com M.?" Foi um levantar de braços sem fim. Depois, o pai fez um longo sermão para nós.

 

Acabou o Moulin Rouge. Elas saíam com os pais para a igreja, toda noite, com os vestidos lá embaixo.

 

Mas o cancan mais completo foi da maluca que apareceu lá na rua um dia, num fim de tarde: “Rapaz, tem uma maluca ali que tá mostrando tudo”. A convocação foi feita, de casa em casa, e foi aquela turma de meninos acompanhar a mulher, que passou pelo Campo Grande, entrou no Corredor da Vitória, sempre olhando para nós e levantando a saia, e a turma gritava e pedia de novo. E ela sorria andava mais um pouco e pimba: outra festa para os olhos. Acompanhamos a muher até a Ladeira da Barra, de onde voltamos felizes. Eu tinha inspiração pra uma semana.

  

Dedico essa crônica a meus irmãos Luiz (Zarara), Zé Carlos (Gaguinho) e Cleomar (Leonam) e a Zoinho, Pé de Valsa, Biuca, Tristeza, Careta, Rui Palito, Antisardina, Cascavel, Mondrongo Atum, Géo Beleza, Almir Bundinha, Cobra D'água, Da Hora, Baleia e aos irmãos Banha, Manteiga e Linhaça, entre muitos que formavam minha inesquecível turma de rua.

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