Sábado, 08 de Agosto de 2020 - 05:10

A paramentação do médico na covid

por Helenita Monte de Holanda

A paramentação do médico na covid
Foto: Acervo pessoal

São interessantes os atos da paramentação e, mais ainda, da desparamentaçao.

 

É uma visão poética, sei, mas a cada uma das 3 máscaras, das 2 tocas, dos 2 capotes e 2 propés, além das luvas (hoje cor de rosa), vou me construindo como um transformer!


Há um certo empoderamento que me toma a cada ato. Necessário! (lembro até os sacerdotes que vão fazendo orações específicas enquanto colocam cada uma das vestes - da batina à casula)


Aí vem um estranhamento como se se desse uma transição transformadora, como se paramentar-me passasse a ser um rito de passagem. E assim, a cada roupa que visto, de algo me dispo, e de mim - da doce, tranquila, estudiosa e valente mulher - tudo conflui para uma "outra" coisa.


O primeiro instante é de estranhamento. Ainda preciso de adaptação. Mas chega um momento em que tudo para de apertar, de doer, de furar, de espremer e, no conjunto, torno-me a pessoa que assume o seu lugar na linha de frente e faz o que precisa ser feito.


Ao fim das 12h preciso desconstruir-me para reconstruir-me e a cada EPI que sai, sai um sentimento junto e um desconforto se revela. A adrenalina diminuída dá lugar a algum cansaço quase astenia. O corpo dói, principalmente atrás das orelhas. Um medo leve se espalha e dilui-se em verdadeiro cansaço. Subtraídas as máscaras, vejo-me ao espelho marcada, quase ferida. Por fora!


Por dentro... começa a chegar uma sensação eletrizante que contrasta com o cansaço e dá uma vontade de viver tão grande!


Não tenho o sentimento heróico que alguns colegas da área de saúde relatam. Feliz ou infelizmente!


Não é isso. Sei tão pouco, conquanto dê de mim tudo!


É que a experiência da morte ou quase morte (sempre a do outro) ressignifica tantas outras coisas que trazem alegria por estar viva! O banho em água morna, passar hidratante no corpo (principalmente atrás das orelhas "assadas" por elásticos), a sopa quente, o entrelaçar dos meus pés aos do meu companheiro quando ouvimos músicas ou assistimos nossos filmes, a sedosidade dos seus cabelos crescidos entre os meus dedos...


Ganha alegria extra plus (redundância SIM!) a gritaria dos netos pequenos, as conversas deliciosas com o mais velho, o cuidado a cada dia redobrado dos filhos... Falar com minha mãe ao telefone? Numa escala de zero a 10, 10! SABER dos meus irmãos pelo Whatsapp? Tranquilidade e partilha!


A vida ganha um brilho, um valor de jóia rara que deve ser usada e ostentada - jamais guardada em cofres, poupada de emoções, seja dos salões, seja dos assaltos.


A vida ganha vida e é uma coisa danada de boa o cansaço nosso de cada dia quando combatemos o combate que nos é posto e que o fazemos da forma melhor que sabemos, que podemos!


Perfeição? Nenhuma! Heroísmo? Nenhum! Mas a alegria de uma humildade que tem no viver cotidiano e nas lições aprendidas o seu encanto e o seu alimento. Eu sendo em construções e reconstruções diárias e, quase sempre, vitalizadoras.


Ao fim do dia, resto eu diante de mim, com o necessário vigor para acomodar, algumas vezes, o terror da noite.

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