Sábado, 18 de Julho de 2020 - 05:05

Um encontro com a Tanzânia (I)

por Nelson Cerqueira

Um encontro com a Tanzânia (I)
Foto: Acervo pessoal

Chegou dez minutos antes do painel começar, sentou-se no meio da vigésima quinta fila - já havia muita gente - junto a um jovem branco, cabelos alourados, aparentando trinta anos, de nariz mais pontudo que a média, com um mapa de Paris à mão, dando-lhe uma possível leitura de ser estrangeiro. Era um signo semiótico, fácil de se especular. O rapaz olhou para ela e deu uma risadinha de espichar de lábios, sem maior movimento facial. Jane disse bom dia em francês, ele respondeu acrescentando que lia bem, mas falava pouco francês e que era falante nativo de inglês, perguntando se ela falava inglês. Jane respondeu que sim, adiantou que não era francesa e sim brasileira. O louro olhou-a, mais atentamente, agora esboçando um riso muito mais amigável e disse:


--Ah! Que legal. Terra do grande campeão Pelé e do que considero maior músico contemporâneo, João Gilberto. Jane ficou surpresa com a cordialidade do louro. Era a primeira vez, depois de tanto tempo e depois do Brotas, que alguém era tão gentil e conhecia algo relevante sobre o Brasil. Cheia de curiosidade comentou:

 

--Obrigada por essas referências sobre o Brasil. João Gilberto, tanto considero um dos maiores músicos brasileiro, nasceu no mesmo estado brasileiro de onde venho. Como você conheceu a música dele?

 

--Bem, eu venho de longe, da Tanzânia, do outro lado da África, e ele e um músico muito querido, em Nairóbi. Pelé, nem se fala, é um ídolo.

 

--Tanzânia? Surpreendeu-se a Jane, diante do tipo físico do louro, mas se conteve. Mas olhou com ar de surpresa que não foi despercebido. Estavam em um mundo exploratório de textos e signos. O louro virou-se para ela e disse:

 

--Esse seu olhar de surpresa é natural, quase sempre acontece quando digo de onde venho. E a seguir, as perguntas que você não fez, mas o implícito de seu olhar sugere: como? Você é africano? Louro? Meus pais foram do País de Gales para a Tanzânia, no final do século dezenove e desenvolveram um projeto agrícola. As terras lá são excelentes para o plantio de algodão. Estudei lá, fiz mestrado em Londres e agora estou escrevendo o doutorado em linguagem e responsabilidade social. Sou muito interessado na obra de Noam Chomsky, mas também nas ideias de desconstrução do texto e gramatologia de Derrida; por isso estou nesse painel que promete, disse o louro, saindo da questão étnica.

 

A Jane gostou de tudo que ouviu. Era uma surpresa agradável, alguém que falava alguma coisa atraente, com conteúdo.

 

-- Mas, desculpe a curiosidade. Qual é a população de brancos na Tanzânia? Pensei que todos os brancos haviam sido expulsos após a independência, comentou Jane, sem nem saber por que e sem querer parecer agressiva. O louro passou a mão na cabeça, como se estivesse refletindo.

 

--Bom, a maioria dos alemães foram embora, mas uma parte dos ingleses ficou. Dos 55 milhões, há cerca de 20 mil brancos, mas há também chineses e hindus. Minha família ainda lida com agricultura. Nem tudo foi confiscado. Mas entenda, eu não sou colonizador, nem tenho nada a ver com o que aconteceu no passado. Nasci lá, é minha terra e adoro tanto Nairóbi quando Zanzibar, e o que dizer da beleza de Kilimanjaro!

 

--Nem ao menos vivi a época de Tanganica, coisa de meus pais, continuava. Uma coisa eu lhe garanto, temos os melhores safaris da África.

 

 A Jane achou que o louro estava sendo defensivo e resolveu falar de outra coisa. Não queria ser desagradável com alguém que parecia tão legal. As questões de colonização, etnia e raça sempre geravam mais conflitos que amizade. Preferiria a amizade. Assim, voltou ao painel, de chofre.

 

-- O tema do painel do Derrida sobre estrutura e signo será muito útil para o capítulo de minha tese, por isso vou estar bem ligada nas discussões. Aliás, gosto de Chomsky também, mas meu trabalho é sobre literatura e contextualização. O que você está pesquisando, perguntou com voz macia, mostrando interesse.

--Ah, eu estou escrevendo a tese sobre linguagem como forma de comunicação para conquistas sociais; por isso, Chomsky. Agora, a questão do signo e da estrutura me interessa muito. Mas essas coisas são estudadas também no Brasil? É curioso como autores franceses e alemães são populares em Tanzânia. E há pessoas que querem que o pensamento seja nacionalizado! Como explicar os fenômenos complexos da contemporaneidade através apenas da literatura oral e da tradição ancestral? Como discutir a tendência contemporânea de depender da problemática do discurso e fugir da inevitabilidade uma vez que dependemos da língua que herdamos e na qual escrevemos. Como fazer isso em mais de cem ou cento e cinquenta línguas oralizadas? Estaríamos obrigados a viver só a dimensão do passado? E nossa responsabilidade social?

 

O louro dizia tudo isso com muita convicção. A Jane até queria falar, mas preferiu ouvir. Se limitou a acrescentar:

 

--Deve ser por isso que o texto antropológico de Claude Lévy Strauss é entendido como um texto de bricolage e que todos nós somos bricoleurs e que para entender a sociedade precisamos usar todas as ferramentas ao nosso redor. Realmente não daria para escrever minha tese e discutir questões do leitor implícito se estivesse fechada em alguma língua de algum grupo indígena no Brasil. Nesse momento, os debatedores palestrantes estávamos sendo anunciados para compor a mesa, o que interrompia esse diálogo Brasil/Tanzânia.

 

Jane estava concentrada com um caderno e caneta à mão para anotações, bibliografia e qualquer outro input que servisse a sua meta. O título era La structure, le signe et le jeu dans discourse de sciences humaines. À mesa Jacques Lacan, Roland Barthes, Paul de Man e dois outros cujo nome a Jane não registrou, mas estaria atenta quando fossem repetidos. Esperava-se que no final o próprio Derrida estivesse presente, também o antropólogo Luc de Heusch, de Bruxelas e de quem a Jane jamais ouvira falar.

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