Sábado, 11 de Julho de 2020 - 05:06

Faroeste letrado

por Joana D'Arck

Faroeste letrado
Foto: Acervo pessoal

A coragem é uma das coisas que mais admira nos outros e em si mesma. E tem história de coragem dos nossos entes queridos que vale lembrar, como a que agora anda encafifada. Vira e mexe ela vem à mente, querendo buscar os detalhes na sua memória e na memória da sua mãe, Filomena, porque não viu nada, não foi do seu tempo, mas ouviu tantas vezes que parece que estava lá observando tudo. É sobre o tio, o irmão da sua mãe, que além de maestro e tabelião da Justiça, era jornalista e escritor. Ele lançou três livros, mas não contou em nenhum a sua própria história de luta, terror e coragem, digna dos filmes de bang bang.

 

Ao retornar de viagem à sua cidade, já imaginava o que o esperava, quando foi abordado pelo coronel no meio da rua principal. O mandachuva que causava terror na cidade com seus capangas invadindo terras da redondeza ficara rico e poderoso com a patente militar comprada ao modo da época. O homem espumava ódio nos cantos da boca serrada e fina. Esbravejou contra o tio-jornalista, empunhando exemplar da última edição do jornal da cidade: “Você vai engolir tudo que escreveu contra mim. Vai comer seu próprio jornal!”

 

Ele não escrevera aquela reportagem denunciando os desmandos do coronel, embora antes houvesse feito várias notas sobre o assunto. Este último fora escrito pelo seu sócio, descrevendo tim-tim por tim-tim os casos de abusos e violências dos capangas do coronel em terras que ele se apossara, deixando pobres famílias à míngua. Não escreveu essa reportagem, mas escreveria. E tomou para si a responsabilidade do caso, até porque o coronel estava ali, à sua frente, ameaçando fazê-lo passar pela maior humilhação, que o derrotaria para sempre como jornalista e homem.

 

Engoliu seco ouvindo o vozeirão do coronel e encarando seus olhos chispando faíscas de fúria. Não era uma ameaça qualquer, ele se mostrava disposto a fazê-lo comer literalmente o seu jornal. E achou que não tinha saída, não poderia se acovardar, porque a questão era de vida ou morte. E lembrou que ao chegar de viagem passou em casa e pegou sua arma, um revólver que adquiriu, pensando em se proteger de criminosos que saqueavam e assaltavam as pessoas nas estradas, ou os que ameaçavam dentro da cidade.

 

O coronel coçava o coldre e esbravejava. E depois dos impropérios e ameaças, virou-se para ir embora. Foi quando o tio-jornalista anunciou: “Vire-se, coronel, porque não vou atirar pelas costas. Não vou engolir meu jornal, mas o senhor vai engolir bala!”

 

Viu o corpo tombar no chão. Ficou imóvel ali por alguns segundos, vendo o sangue do coronel se espalhando e sentiu seu próprio sangue ainda fervilhando na cabeça. Respirou, suspirou e saiu a passos largos. Caminhou por duas ruas compridas até alcançar a delegacia.  Entregou-se. Disse ao delegado que matou o coronel, que não lhe sobrou alternativa, e que não se orgulhava de ter se tornado um criminoso e precisava pagar a sua pena.

 

No dia do julgamento, o tio-jornalista foi alvejado por um tiro no peito enquanto estava sentado no banco dos réus da sala da Justiça, no prédio da Prefeitura. A bala veio de fora, da arma de um dos irmãos do coronel, que subiu numa árvore próxima onde podia mirar o jornalista do outro lado da janela. A sorte ou o destino o livrou de partir desta para outra, quando a bala atingiu não o seu coração, mas o relógio de ouro que ele usava no bolso da camisa.

 

Cumpriu seis meses da pena sentenciada, favorecido pela falta de antecedentes criminais e por ter se entregado. Teve a seu favor o bom conceito sobre a sua conduta na cidade, onde se tornou bastante conhecido pelas atividades que exercera, com a música e as letras, e como tabelião. E também porque a sua defesa alegou que ele corria risco de vida, pela anunciada jura de vingança da família do coronel.

 

Deixou a cidade na madrugada do dia que saiu da prisão. O próprio advogado de defesa o conduziu com a família para um refúgio no interior de Minas Gerais, onde instalou um pequeno armazém de variedades. E ali permaneceu por um tempo, até ser alertado de nova ameaça por um forasteiro, que se tornara seu amigo de tanto que frequentava o armazém e puxava conversa com ele.

 

Num certo dia o amigo-forasteiro o incentivou a partir de novo com a família, para um lugar distante onde não fosse encontrado por outro capanga que, assim como ele, viria vingar a morte do coronel. Contou que não lhe faltaram oportunidades para matá-lo, mas, à medida que ouvia suas histórias e observava seu comportamento e sua gentileza com os clientes, foi se afeiçoando e criando amizade. E já não tinha condições de entregar a encomenda feita pela família do coronel.

 

Quando ouvia sua mãe contar essa história do tio-jornalista-maestro-escritor-tabelião, ficava até meio incrédula, de tão fantástica tal qual os faroestes que tanto viu no cinema. Nesse bang-bang, teve sim o bandido malvado, o coronel. Mas o que achava curioso era como um homem de bem, de boa índole, pôde matar para defender a sua honra e a do colega do jornal; e como outro criminoso, um capanga contratado, foi capaz de se sensibilizar e se afeiçoar à sua encomenda. O tio partiu para viver o resto da sua vida na capital mineira, onde voltou a trabalhar com as letras e a música.    

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