Sábado, 13 de Junho de 2020 - 05:08

Cadeira de balanço

por Lázaro Carvalho

Cadeira de balanço
Foto: acervo pessoal.

Bartolomeu Antero e Ernestina Cruz se tornaram marido e mulher em celebração de sacramento da Santa Igreja Católica há pouco mais de 50 anos. Moram no mesmo bairro, na mesma rua e na mesma casa até os dias de hoje. A casa não é grande nem pequena, é espaçosa e arejada o suficiente para a convivência de ambos. Não tiveram filhos, mas nem um dos dois parece sofrer por causa disso. Na única sala da residência o mobiliário parco e funcional consiste em uma máquina de costura Singer 6 gavetas, para Ernestina cosicar, uma sólida mesa de refeições, um sofá pé-palito dos anos 50 que Ernestina nunca cogitou de trocar por outro mais moderno por se tratar de um presente de casamento, dado por seu pai, um pequeno aparador provençal em jacarandá da Bahia, sobre o qual descansa o rádio Transglobe, 9 faixas, da Philco, para as audições noturnas, em Ondas Curtas, um deleite axiomático de Bartolomeu, e a imprescindível cadeira de balanço.

Na casa não há aparelho de televisão porque Bartolomeu não gosta e Ernestina não faz a menor questão. Ela é católica de bom terço e muitas rezas, não se deita nem se levanta sem antes fazer suas orações de agradecimento e pedido de proteção para si e para o marido. Bartolomeu é cristão convicto o bastante para não levar a sério qualquer das religiões vigentes. Passam o tempo todo juntos, silenciosamente juntos, a não ser quando Ernestina está entregue aos seus quefazeres de quarto e cozinha.

De olhos semiabertos ele acompanha o movimento dela pela casa e pensa o quanto tem gosto por essa baixinha, fortezinha, de ancas ainda durinhas apesar da idade. Ernestina é trabalhadeira, asseada, organizada, uma dona de casa de mão cheia, que parece ter nascido para cuidar da casa e do marido que tem. Ela adivinha o momento certo de lhe servir, sem ele esperar, um cafezinho coado, um copo de refresco, um doce de pitanga. Ele nunca imaginou sua vida sem ela, um dia sequer sem a companhia dela. Bartolomeu, cimentado na cadeira de balanço, dela só se levanta para dar uma mijada, na volta do sanitário aproveita para chegar até a janela, olhar a rua, e retornar, em seguida, ao conforto da sua cadeira.

As doze badaladas do relógio de parede anunciam a hora sagrada da refeição. Bartolomeu se serve um cálice de vermute cortezano, para abrir o apetite, e senta-se à mesa para o almoço diário em família. Ernestina nunca se senta antes do marido, espera que ele o faça primeiro, para, então, fazê-lo em seguida. Bartolomeu não faz um mísero elogio ao sabor da comida que ela prepara com esmero. Ele nunca gabou a delícia dos pratos elaborados por ela. Ernestina só tem certeza que seu tempero agrada sobremodo o paladar do marido é pela quantidade gradativa que ele come. Nero, o vira-latas de estimação, ao pé da mesa, apara com espantosa agilidade os migalhos que lhe são atirados.

Atravessam juntos, silenciosamente juntos, a longitude da tarde como sempre: Ernestina a bordar pontos cruz em fronhas de travesseiros, panos de prato, toalha de mesa e lençóis de cama. Bartolomeu pregado na cadeira de balanço, em transtorno delirante, castiga com rigor os malfeitores da Sociedade. É implacável com essa gente abjeta e nojenta que envenena e apodrece nosso meio social: marginais políticos em exercício, corruptos do Executivo, desalmados do Judiciário se arrependem de ter nascido quando caem nas garras de Bartolomeu, que recebeu do Universo a honrosa missão de punir sem piedade e banir, para sempre, os asquerosos torturadores de presos políticos, abusadores sexuais de crianças, traficantes de mulheres, e exploradores de mão de obra escrava.

Ernestina às vezes vê o marido agitado, se contorcendo na cadeira, com o dedo em riste, punho cerrado, já teve vontade de perguntar em que ele tanto pensa para se agitar daquela forma, mas muda de ideia por achar que não tem direito de se intrometer nos pensamentos do marido. Um dia ela quebrou o silêncio e perguntou se ele não achava que conversam muito pouco. Quase não diziam palavra um ao outro...

Bartolomeu, com voz grave e arrastada respondeu, atencioso e paciente: minha velha pra que vamos perder tempo com conversa fiada se nós nos entendemos, se você me conhece e sabe tudo sobre mim, sabe do que eu gosto e do que eu não gosto. Os casais se desentendem porque conversam muito e quanto mais se perde tempo em conversa, maiores são as chances de desentendimento, por isso tanto divórcio, tanta separação.

Bartolomeu arrematou a conversa sugerindo à esposa: minha velha, quando você sentir vontade de conversar, converse com Deus, conversar com o Altíssimo é a mais valiosa das orações. Se você não quiser incomodar o Criador, converse com os Santos de sua devoção e você não vai mais sentir falta de conversa com mortais comuns.

Ernestina, intimamente arrependida, julgou inapropriado e descabido seu comentário e concordou com o marido, ele sempre tem razão, talvez ela não estivesse mesmo rezando o quanto deveria. Baixou a vista e voltou a se concentrar nos pontos cruz do seu bordado.

À noite, quando Bartolomeu se põe de pé para passar a tranca de ferro na porta e ferrolho às janelas, é hora de irem para a cama. E lá se vão eles. Ela só sabe que vai ser usada pelo marido quando ele joga a perna sobre ela, aí como toda fêmea do reino animal, se ajeita e se abre para saciar o instinto sexual do macho dominante, quase nunca o próprio. Bartolomeu se afunda todo na areia movediça das coxas quentes e macias de sua mulher. Por cima dela e dentro dela ele permanece e se mexe até alcançar o animalesco objetivo de gozar, após o quê desmonta dela, se estica de barriga pra cima e dorme pesado. Ernestina nunca se queixou, foi sempre assim, Bartolomeu nunca fez amor com ela, ele faz sexo, se tiver amor no meio, vai junto, mas ele faz mesmo é sexo. No início ela até que achava bom, mas com o tempo passou a gostar, e a gostar muito, cada vez mais desse jeito direto, abrasivo e individualista de seu marido fazer sexo. Ela gosta de sentir o corpo dele, o peso dele, o cheiro dele. Ela gosta dele. Gosta da companhia dele, e sobretudo, de adormecer ao lado dele. E com esses pensamentos dentro da cabeça, Ernestina pegou no sono.

Bartolomeu perdeu as contas de quantos malfeitores já mandou pro inferno. Ele tem a consciência tranquila porque cumpre à risca a missão que lhe fora confiada. Admite que já está cansado de matar esses tipos de vermes. Mas enquanto o Universo confiar nele, como tem confiado, a sua missão de paladino não vai parar tão cedo. Bartolomeu caiu em transe involuntário e uma voz serena lhe disse que já era hora de parar com as punições aplicadas, com tantas mortes perpetradas. Você já cumpriu sua obrigação, não carece mais sujar suas mãos com o sangue do seu semelhante, além do mais, há muita gente no mundo para fazer esse tipo de trabalho sujo...

Bartolomeu acatou a mensagem e decidiu não mais sujar as mãos. Pensou em substituto, ou substitutos, para dar continuidade ao trabalho de eliminar o quanto possível os homens de mal, indignos de viver. Depois de pensar exaustivamente, durante dias, encontrou, finalmente, a fórmula: criar uma equipe de trabalho com integrantes escolhidos, a dedo, por ele. Todos aposentados, extremamente reservados, de comportamento maçônico e unidos por um traço comum: desprezo e asco a delinquentes frios e perversos. Equipe formada por um delegado de polícia, dois investigadores e um policial militar. Dementes de arma em punho, assaltantes bestiais, latrocidas, estupradores, passariam agora aos cuidados de quem saberia cuidar deles com o carinho que cada um merece. Bartolomeu buscava uma sigla para denominar o grupo recém criado. Depois de muito matutar e pedir inspiração ao Universo, alcançou a denominação que procurava e respirou aliviado.

AVE – Ação Voluntária Exterminadora! Logo após a convocação, nomeação e posse, informais, a equipe não perdeu tempo e deu início ao delicioso trabalho voluntário. Bartolomeu, sem a responsabilidade de carregar nos ombros o peso de aplicar as punições, limitava-se a assistir aos castigos violentos, ou execução sumária, conforme o caso. Bartolomeu, depois delegar ao grupo a missão de limpar a sociedade, tornou-se um homem por assim dizer, impassível, deixou de se contorcer na cadeira. Essa mudança de comportamento chamou a atenção de Ernestina, que o observava por cima dos óculos de grau.

Ernestina , enquanto bordava, pensava no que faria para o jantar. Seus pensamentos foram interrompidos pelos uivos de Nero, o vira-latas de estimação, que pondo-lhe as patas dianteiras sobre os joelhos, latia forte e a puxava em direção à cadeira de balanço. Ernestina chamou o marido, sem resposta, balançou os ombros dele e nada. Bartolomeu continuou inabalável, estava morto, definitivamente morto. Os gritos lancinantes de Ernestina causaram alvoroço entre os vizinhos que correram para acudi-la.

Entre abraços de conforto e solidariedade, Ernestina, chorosa, repetia incessantemente que a vida acabava de manifestar sua inutilidade ao lhe tirar o marido. Um marido que foi, a um só tempo, o seu amante, o seu namorado, o seu amor. O mais digno a fazer, agora, era morrer com ele, ser sepultada junto com ele e ir para a eternidade ao lado dele. Ernestina só pensava que serventia teria sua vida sem ele. Para quem fazer comida, com quem dormir, com quem almoçar, com quem ficar dias e noites em silêncio. As fortes emoções pela perda irrecobrável de um bem tão precioso, fizeram o velho coração de Ernestina, que durante 72 anos e meses trabalhou corretamente, sair do prumo, ratear, descompassar e estancar de vez. Ernestina caiu dura por cima do marido. Outros vizinhos que ademais chegaram, os encontraram mortos. Silenciosamente mortos. Eternamente mortos, como mortos estiveram o tempo todo, durante a vida.

 

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