Sábado, 06 de Junho de 2020 - 05:04

A cobiçada hemorroida do capitão

por Janio Ferreira Soares

A cobiçada hemorroida do capitão
Foto: acervo pessoal.

 

 

Boca podre arretada desse presidente, né, primo?”, me diz Paulo Reis, num inesperado telefonema direto da Fazenda Paus Pretos, sertão de Macururé, todo fagueiro com a chegada da internet na região que ele tanto gosta e que serviu de mote pra muitas das geniais histórias saídas da pena de Raimundo Reis, também seu primo, só que por parte de pai. A propósito, relendo suas crônicas, fiquei imaginando o que Mundinho faria se na sua época tivesse essa tecnologia.

Gabola como era, certamente improvisaria um ar de malandro enfastiado e se diria de saco cheio de tantos nudes enviados pelas aeromoças da Varig, todas loucas de saudades da excêntrica mistura do seu charme sertanejo com a fleuma dos Van Der Reis, uma nobre casta holandesa a qual dizia pertencer e que, presumo, vivia num imenso castelo cercado de papoulas emanando volúpia e ópio pelos canais da velha Amsterdam.

Mas voltando ao telefonema do querido primo, lhe pergunto o que achou da polêmica reunião onde a baixaria deu as cartas e bateu direto sem sequer pegar o morto, e ele diz que nem nos tempos em que era uma espécie de consultor informal na escalação das meninas que trabalhavam no cabaré de Chico Cego viu nada igual. No fim do papo, antes de se despedir com um debochado bye, bye bem naquele tom de Roberto Carlos esperando as mil garotas que queriam passear no seu calhambeque, sugere que eu escreva algo sobre o assunto e “depois mande pro meu e-mail, que agora sou um tabaréu cibernético!”.

Grato que sou aos que me ajudaram a enxergar o mundo além das serras que me abraçavam, atendo seu pedido e começo dizendo que a única coisa que me surpreendeu naquela suruba verbal foi quando o capitão exclamou: “eles querem é a minha hemorroida!”.

E aí, meu bom Paulinho, diante dessa inédita perseguição escatológica, me lembrei daquela velha piada que adaptei ao momento e que, espero, não sirva de motivo pra minha prisão caso o verde-oliva volte a ser a cor das próximas estações (esconjuro, pé de pato, mangalô, mil vezes!). Simbora.

Dizem que em Brasília morava um sujeito que nunca trabalhou na vida, mas só andava de carro importado, roupas de grife e, mesmo na quarentena, continuava dando altas festas em seus jardins.

Não demorou e o fato chamou a atenção de alguns pastores evangélicos, que o viam como um provável concorrente dilapidando as fontes que alimentavam seus dízimos. Preocupados, eles foram reclamar ao capitão Jair, o fodão do pedaço, que em público vivia citando salmos bíblicos, mas na cozinha se lambuzava com o leite condensado do pecado espalhado sobre o pão que Olavo de Carvalho amassou.

Dia seguinte, lá estava o bon vivant na sala do capitão, que começou mencionando João 8:32 - “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” -, no que ele quase respondeu: “tu é que conhecerás a crueza de meu dedo a rodopiar seu aro sagrado, ó meu capitão”. Mas, pra ganhar sua confiança, disse apenas: “amém, meu comandante!”.

“Dizem que o senhor é um milionário que vive dirigindo carrões, passeando de Jet Ski sem proteção contra essa gripezinha daí – por sinal, coisa que eu até admiro -, mas a razão de sua presença aqui é que eu gostaria de saber de onde vem sua renda. Por acaso o senhor é algum pastor, ou um miliciano amigo do Queiróz?”.

O boa vida então respondeu que era apenas um viciado em apostas e tudo que tinha na vida vinha delas. Ao ouvir isso, o capitão soltou uma gargalhada e gritou: “ô, Heleno, dê um pulinho aqui pra ouvir o que esse engraçadinho tá me dizendo”.

Pra demonstrar que falava a verdade, ele espertamente provocou: “aposto mil reais que eu consigo morder meu olho direito”. Crentes do seu insucesso eles toparam, e o desafiante tirou seu olho de vidro e o mordeu.  Incrédulos, antes de qualquer reação, ele continuou: “agora aposto mais mil, que consigo morder meu olho esquerdo”. Como viram que ele não era cego, apostaram. O malandro então tirou a dentadura e mordeu o outro olho.

Antes de sair, ele deu a cartada final: “Pra suas excelências terem outra chance, aposto 20 mil que vocês têm hemorroidas”. Os dois então cochicharam e, seguros da ausência de qualquer comichão diferente das costumeiras coceirinhas que de vez em quando visitavam seus respectivos bógas, toparam na hora.

E foi assim, diante da imensa parede de vidro do Palácio, que Jair e Heleno arriaram as calças e, de quatro, se deixaram bolinar pelo esperto desafiante, que tranquilamente arreganhou suas buzanfas e, depois de um tempo com o dedo pra lá e pra cá, teatralmente disse na linguagem que atualmente reina por lá: “puta que pariu, me fodi!”.

Já de saída, ao ouvir os dois chamando-o de otário, ele não resistiu e confessou: “os senhores estão vendo aquela câmera na janela daquele prédio em frente? Pois quando soube que vinha pra cá liguei pra Bonner e apostei 500 mil com ele que ia meter o dedo no fiofó do presidente. Mas agora, como também apalpei a estrelada prega rainha do ilustre general, acho que podemos fazer um acordo. Convenço Bonner a não divulgar as imagens no Jornal Nacional e, em troca, o capitão renuncia, tá okei?”. Os dois arregalam os olhos e ligam pra Aras. Desligam, balançam a cabeça e ligam pra Toffoli. Desligam e, ainda de samba-canção, batem continências mútuas, se abraçam e choram.

Dias depois de mandar este texto pra Paulinho, chega seu e-mail, em código, que nesses tempos todo cuidado é pouco: “gostei, primo, mas saiba que o tronco que segura à curva da cerca também é um bosta”. Concordo, primo, concordo, mas o importante é escancarar a porteira.

 

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