Sábado, 23 de Maio de 2020 - 05:10

Os pés da bailarina

por Fred Matos

Os pés da bailarina
Foto: Acervo pessoal

autorretrato

 

tenho sido desde sempre

a minha melhor companhia

não há solidão que me doa

nem dor que eu não suporte

volvo-me todos os dias

e amo porque sou movido

pelas emoções mais fortes

 

às vezes, porém, dividido,

oscilo no frágil equilíbrio

entre loucura e poesia

e não concebo virtude

num caráter que se ofusca

com a ilusão de bastar-se

nas metáforas da sua arte

 

 

 

 

***

 

 

dados

 

é suposto que voe

o que é alado.

é suposto ser poema

o que é rimado.

 

e cada um ao seu modo

constrói sua fantasia

erige a sua verdade

por dicotomias:

 

se não é noite... é dia

se não é alegre... é triste

se não é campo... cidade.

 

aqui da minha janela

aberto a qualquer melodia

decido-me pelos dados

que mesmo tendo seis lados

não tem nenhum que é errado

ou que se preste a teorias.

 

 

 

 

***

 

 

dogmas

 

era tal o peso dos dogmas

naquela antiga civilização

que o céu ficou ao alcance das mãos

as crianças desatarraxaram as estrelas

como se fossem lâmpadas de brinquedo

 

e fez-se a escuridão

da qual ainda não escapamos

não obstante a ilusão iluminista

o gênio de espinoza

e a sua concepção da substância divina

 

mas a natureza preserva os seus mistérios

e eu preferiria não tratar de temas sérios.

 

 

 

 

***

 

 

puzzle

 

eu poderia lhe dar um poema puzzle

que você pudesse montar desmontar

manipular fazer funcionar sua cabeça

 

mas eu não sei se você sabe brincar

 

se não souber será mais adequado

que eu lhe dê um poema enquadrado

às expectativas das pessoas sérias

 

mas talvez você não goste de miséria

 

sendo, portanto, impossível agradar-lhe

é melhor que eu faça um poema vago

no qual se pode entender de um lado

 

e do outro que aquele era o lado errado

 

 

 

 

***

 

 

saudade

 

a saudade

inscrita no musgo da pedra marinha

onde um dia deixei meus olhos

vem em sonhos

e me desperta no meio da noite

insistindo por uma lágrima

 

nego-a

 

como de resto tenho negado

qualquer sinal de emoção

qualquer ato que possa me comover

além do suportável limite da razão

 

bebo água

fumo um cigarro

torno à cama.

 

 

 

 

***

 

 

melancolia

 

um dia a madrugada me caiu nas pálpebras

desde então sou esta ave noturna e melancólica

de asas atrofiadas e incomensuráveis fantasias

 

assim tem sido e nada mais que isto almejo

porque vivo ainda o momento do seu beijo

 

 

 

 

***

 

 

quando tudo parece ruim

 

 

um dia você beatles

eu miles davis

você romance

eu desejos

 

então você gal

eu só seus beijos

e alguns acordes

de john lee hooker

 

você um mantra, pink floyd

ou a cítara de shankar

eu bob buarque dylan de holanda

 

você forró, maracatu e ciranda

eu tom caetano caymmi jobim

e joão, quando tudo parece ruim

 

 

 

 

***

 

 

helena

 

poderiam ser motivo destes versos

os tenros mamilos de uma deusa pagã

se eu soubesse algo acerca de divindades

e se os mamilos me fossem oferecidos

sem os desígnios ocultos que os deuses

e as mulheres têm quando nos mimam

 

mas a volúpia exige sangue e lágrimas e eu

já não me disponho a doar sequer suor

palavras, sorrisos, coisa alguma que seja

em troca de algo cujo preço nunca é justo

 

prefiro ir ao cinema assistir Sienna Guillory

que é tal qual eu imaginava a bela Helena

desde a primeira vez que li e a vi na Ilíada

 

mas nem por ela uma guerra vale a pena

 

 

 

 

***

 

 

silenciosamente

 

falemos sobre as pequenas coisas que nos cercam

falemos vagarosamente para que durem

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