Sábado, 09 de Maio de 2020 - 05:01

Os passarinhos da minha janela

por Carlos Navarro Filho

Os passarinhos da minha janela
Foto: Acervo pessoal

Vem um sabiá.

 

Vem um assanhaço.

 

Vem um terceiro, este um visitante que ainda não conhecemos. O que não é comum porque somos amigos de todos os que pousam junto às nossas janelas.

 

De repente, os micos passam correndo pela fiação, pelo jeito é mais um ataque de passarinho do qual tentaram violar o ninho.

 

Após quase quarenta anos finalmente nos aproximamos, eu e Popoia, dos passarinhos e das árvores de nossas janelas. Ganhamos a intimidade do flamboyant vermelho e de uma outra árvore, de copa imensa na relação com o caule com altura de dez a quinze metros, sempre verde e maior abrigo dos pássaros da janela da sala. Aliás são duas, há outra árvore igual na janela do quarto onde fiz meu escritório. Pouco afeito ao google, e com o agrônomo do prédio viajando, não consigo identificá-las. Mas temos também duas amendoeiras grandes, acima de vinte metros de altura, pequenas palmeiras e uma área de cerca viva com uma planta de caule muito fino, de três a cinco metros, no qual da metade para cima saem as folhas formando ligeiras copas. Tínhamos outras árvores na frente do prédio, uma acácia, mais um flamboyant, dois coqueiros e um oiti, que um vizinho de maus bofes aproveitou a ausência dos demais moradores em um fim de ano e cortou tudo. Para “compensar” e nos “proteger” plantou a cerca viva, o infeliz.

 

O isolamento deu-nos esta chance de buscar a amizade dos passarinhos, dos micos já havíamos nos aproximado e fomos amigos por um período, depois nos afastamos. A aproximação deu-se para alegrar as crianças e lhes enriquecer a imaginação. Passei a colocar bananas no alto do poste. É, nossa janela da sala também tem um poste, sustentando fios da rede elétrica e toneladas de cabos de telefone, tv e não sei mais o que. Todos os dias pela manhã, entre sete e nove horas, eles faziam verdadeiros conclaves no flamboyant. Não havia espaço para todos no topo do poste e se revezavam à mesa. O macho alfa, de amplos cavanhaque e bigode de forma circular à moda de juba, e os demais adultos tinham primazia. Quando não mais estavam atarrachados na mãe os mais novos só comiam depois, o que sobrava. Alguns que ousavam se aproximar recebiam reprimendas violentas. Por vezes pensamos em atendê-los quando os mais velhos se afastavam, mas a farra dos moleques durava pouco, sempre aparecia algum mais taludo para expulsá-los.

 

Tentamos então uma manobra que nos parecia fadada ao sucesso, porque os mais velhos são mais arredios, e coloquei as bananas no parapeito da janela. Fiz besteira dupla. Os mais velhos realmente não se arriscaram, mas muitos adultos corajosos e imprudentes pularam para cá e os mais jovens continuaram em desvantagem. E ainda ocorreu coisa pior. A molecada e alguns adultos começaram a entrar na sala para felicidade das crianças e nossa apreensão. No terceiros dia parecia que haviam convocado as várias famílias nas vizinhanças a invadir nossa sala. Só não víamos os anciãos, nem mães com bebês de colo. Assustados os expulsamos, não houve mais banana, no poste. As janelas permaneceram fechadas. Por algum tempo faziam procissão no flamboyant olhando para dentro de casa e se assanhavam quando alguém chegava à sala. Continuamos irredutíveis. O tempo passou e hoje eles continuam a desfilar no flamboyant e a olhar para dentro. Mas desistiram da comida fácil.

 

Já os passarinhos sempre os admiramos, à distância, víamos só a beleza das plumagens e, sempre fugidios, eles não permitiam aproximação. Agora quedamos imóveis na janela o tempo bastante a dar-lhes autoconfiança e passarmos a conversar. Primeiro os inúmeros sanhaços, cinza azulado brilhante, a saltitar graciosamente de galho em galho. Depois, as sabiás, também em bom número, que descem até ao jardim gramado, às vezes a grama queimada pela falta de chuva e agora se recuperando, a catucar com o bico e espanar com os pés em busca de algum inseto desprevenido. Os beija-flores já nos beneficiam com a amizade faz tempo, desde quando os favorecíamos na mesma janela com canecas em forma de brinco de princesa, sua flor favorita, com furos estratégicos no centro da flor. Elegantes, parados no ar ou desfilando em bailado de lentos e pequenos círculos, nesse lindo bailado jamais passaram do limite da janela, como desejávamos.   

 

Há um casal ao qual ainda não  conseguimos nos apresentar. É um pássaro maior que o sabiá, plumagem ferro-escuro, boa encorpadura, que aparece sempre no fim do dia e, às vezes, também desce, calmamente, ao jardim, por instantes namora encostando as cabeças e roçando os pescoços e depois vai embora. Os outros, tais como as numerosas rolinhas caldo de feijão, juritis, bentevis, papa-capins e coleirinhas tornaram-se gente da casa. Outro dia apareceu até um “sofrê”, maravilhoso em sua combinação de preto com laranja avermelhado. Eles todos têm olhos de águia. Do topo da árvore, enxergam no vidro e no parapeito insetos minúsculos e formiguinhas difíceis de ver a olho nu, para nós, a uma distância maior que trinta centímetros. E de lá mergulham e bicam a presa. Às vezes pousam e se banqueteiam quando o número de insetos é grande. Mas também, às vezes, erram no plano de voo, ou se esquecem dos freios. São comuns os baques nos vidros e, após o barulho surdo, só sabemos que são eles pelas peninhas que ainda estão voando ali.

 

Há, contudo, dois tipos imbatíveis.

 

Na janela da sala sempre aparece no flamboyant um portentoso pica-pau. Imponente, cabeça permentemente erguida ressaltando o penacho, vem sem hora marcada, bica o que pode o tronco da árvore, rapidamente, e vai embora. Jamais nos permitiu gravar ou fotografar.

 

O outro tipo são os barulhentos periquitos cuiuba. Esses dominam uma árvore aos fundos do prédio e só podem ser visto das janelas de um banheiro e da área de serviço. Antes do sol se por eles começam a chegar e ocupam os galhos pelados do topo. Uma vez contei dezoito, mesmo em se tratando de cuiubinhas é uma família numerosa. Conversam muito entre si, alguns namoram aos beijos, e falam extremamente alto. Escureceu silenciam. De manhã cedo alçam voo na maior algazarra, acordando metade do condomínio. Incrível como nunca os percebemos, mesmo com toda barulhada do canto, a princípio concentrada, depois se espalhando e reduzindo até tornar-se inaudível.

 

Além de nos proteger, o isolamento nos aproximou e não ficamos sozinhos.

 

Ainda lembro da beleza da declaração de Pedrinho, o neto do meio, há um ano, aos cinco de idade, apontando-me  os sanhaços: “a gente ama vocês passarinhos”.

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