Sábado, 02 de Maio de 2020 - 05:23

Sairemos por aí, o beija-flor faz poesias, eu voo

por Antonio Brasileiro

Sairemos por aí, o beija-flor faz poesias, eu voo
Foto: Acervo pessoal

Anotações do imemoriado

 

A consciência, fiapo de quê,

no mar da alma?

 

(E o ter que contar os meus segredos,

que eu mesmo guardei

e esqueci.)

 

 

 

 

O SIM & OUTROS ACHAQUES

 

A vida inteira anulada

por falta de outros desígnios,

 

eis que voltamos ao parque

onde os homens se congregam:

 

ninguém jamais sabe ao certo

onde o sim das grandes aves,

 

singramos por mares mansos

que julgáramos esquecidos —

 

mas eis que a vida se perde

por falta de outros desígnios.

 

Ou não se perde: é só isto.

 

 

 

 

NUANÇA

 

Meus caminhos, meus mapas,

meus caminhos.

 

Tudo está em ordem

em minha vida.

 

Como se faltasse

alguma coisa.

 

 

 

 

Cálice

 

A vida não tem roteiros,

só velas que nos acenam

do mar.

 

Escuta, amiga,

o desfiar das horas:

elas te dirão é tua

é tua a vida.

 

Toma-a (como se toma

um cálice de rosas)

         na mão.

 

 

 

 

Soneto do amor profano

 

Não me consinta o amor tanta alegria,

pois, por não merecê-la, me constrange

o peito (já uma dor, não longe, me

sussurra que este amor sem agonias

não há de consentir em tanta graça),

eis que, perdidamente, já pressinto

— e quanto, e quanto — que em amor, perdidos

todos os lances, não há como obtê-lo

de outro modo que não por sacrifícios /

e eis que este, pois, gratuita dádiva,

me chega às mãos de um modo tão profano,

que quase certo estou de que, se o tenho,

já não o tenho por justo e dadivoso

mas por amor que é fruto só de engano.

 

E não me engana um amor quando enganoso.

 

 

 

 

CEM ANOS

 

Vejo mãos que me folheiam

buscando-me a fisionomia —

         mas já passei, agora

         sou apenas poesia.

 

Vejo rostos que me amam

tentando saber quem fui —

         sou um retrato, miragem

         que o tempo dilui.

 

Vejo braços que me acenam

chamando-me insistentemente —

         para que, se a folha que passa

         passa tão de repente?

 

 

 

 

Concerto p/flauta de canudo de mamão

 

Vou cativar um beija-flor.

E sairemos por aí:

ele faz poesias, eu voo.

 

 

 

A noite das nove luas

 

  1. Deixai-me com meus lírios e minhas luas.

Andar é sempre a mesma

   luz

   à frente.

 

Vou explodir com os planetas

vou seguir a rota das galáxias

   ai amor

   estou prestes a me dissolver

   no ar.

 

Mas deixai-me com meus lírios

e interlúdios

nestes mares nunca mares calmos mares.

 

  1. Deixai-me com meus lírios

e sonetos.

Vou explodir de luz um dia desses,

amiga, um dias desses.

Deixai-me com meus lírios

e sonetos.

 

Hás de me encontrar

insone e louco

no meio dos trigais da inconsciência,

   ai, declamando

   os versos que Van Gogh

   não escreveu.

 

 

 

 

Arte poética

 

Meus versos são da pura essência

dos poemas inessenciais.

 

Nada dizem de verídico

não querem nada explicar.

 

Não narram o clamor dos peitos

não encaram a dor do mundo.

 

Se por vezes falam alto

é por puro gozo, júbilo.

 

humor que brota de dentro

como se movem os astros.

 

Eles, meus versos, são pura

floração de irresponsáveis

 

flores nascidas nos mangues,

por nascer — mas multicores,

 

lindas, não importa que os homens

as conheçam ou não conheçam.

 

 

 

 

Tudo que seomos

 

Tudo que somos,

pouco sabemos.

 

Um poço imenso,

cheio de sonhos.

 

Quando choramos,

não nos perdemos.

 

Viver é um sonho,

Não esqueçamos.

 

Viver é a sombra,

o assombro, o apenas.

 

/ Tão frágeis somos!

Frágeis e imensos.

 

 

 

 

Relato

Enfileirados ao longo da avenida,
porcos para o abatedouro.
A avenida é a principal.
Carros engarrafam.
Ao volante, de soslaio,
freia-se um pouco, observa-se.
O grunhir dos suínos e os freios dos carros
compõem uma musiquinha muito chata.

Anúncio de supermercado? perguntam-nos.
Não, só mil porcos grunhindo.
        Vão morrer.
A polícia (ou os bombeiros?) é avisada,
mas não chega. Um jornalista
sorri e fotografa. Turistas
julgam ser festa (da padroeira?),
crianças assustadas, homens sérios.
E soam subitamente quatro horas.
Hípica é a tarde.

É quando de um furgão descem soldados
a metralhar os bichos
e os homens e as crianças e os turistas
e os jornalistas e os motoristas e as vidraças.
Desta janela o mundo é confortável;
não ponho a cara de fora,
        só relato.

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