Sábado, 18 de Abril de 2020 - 05:01

#nibrotas e o vírus

por Nilson Galvão

#nibrotas e o vírus
Foto: Montagem de Ruy Carvalho

#NIBROTAS

 

 

vem ni mim 

ni brotas

diz a piriguete

vem ni mim 

ni brotas 

diz o boxéu

vem ni mim 

ni brotas 

diz-que-diz 

a brisa e se

desdiz 

ni brotas ninja

ni brotas noia

ni brotas é

niuma nem

vem.

 

 

 

 

 

 

Sertão vem ver o mar

 

alguém que se esquece

caminha por brotas em

plena manhã de se lembrar

de tudo.

 

o mendigo da voz

esganiçada a exigir moedas,

a querer ser gente diante

da gente nos carros

lacrados.

 

o homem da pança, o

cachorro em branco

e preto, dois caras numa

moto e uma dama ao

celular.

 

anjo e demônio no

ônibus pro carnaval, suas

asas e tridentes de plástico

a reluzir a inocência de

todos por aqui.

 

pós-quilombos, neo-senzalas, 

novas casas grandes as

crianças crescendo nos

cortiços da dom joão VI, 

as casas arribadas do

sertão até o acupe, o sertão

com vista pra baía, navios e

guindastes, ilhas ao largo.

 

aquele rapaz que não

conhece o mar que todos

conhecem. a moça que

todos conhecem sem

saber o nome.

 

o trópico de câncer a

demarcar o planeta onde

vivemos: com suas

multidões perfiladas à

espera.

 

a república insuspeita

de onde o mundo será

governado um dia

desses.

 

os fiéis do culto: sua

divina embriaguez.

 

os escombros da casa

do poeta, de onde no

entanto ele nunca saiu

nem sairá.

 

ladeiras de brotas entre

o céu e o inferno: pra 

cada céu pra cada 

inferno um trânsito

de gente como nós,

indo e vindo sem saber

ao certo pra onde nem 

por quê.

 

 

 

 

 

 

Bolero blues

 

ouve a horda de tudo

aqui dentro, lá fora. o

barulho que faz aqui

dentro, lá fora. o bolero

que faz aqui dentro, lá

fora. 

 

besame mucho 

como se fuera, besame 

como se llora, besame sob

as estrelas um bilhão

de estrelas, todas as

estrelas que nos derem

trela. 

 

bésame num bolero,

y después del bolero besame

num blues.

 

 

 

 

 

 

Elegia 

 

o crepúsculo é um outro nome pra deus,

sussurrou um vento que não sei se era o mesmo

vento que falava com o poeta naquele

ermo europeu: era um vento do novo

mundo, mas os ventos, eles morrem ou

não? eles têm alma ou não têm alma?

já essa ele não quis responder, aquele vento

de agora há pouco, aquele vento teísta

ou panteísta, o que você preferir, quanto a

isso ele não disse nada, calou-se, como

se julgasse uma mera curiosidade, e como

se vento algum, como de resto oráculo algum,

se dispusesse a falar sobre tais coisas.

 

 

 

 

 

Zen e a arte de caminhar 

 

30 soluções para a saúde mental até

acho que talvez precise de cada uma

delas mas não compro a revista por

enquanto. hoje é dia de clássico as

torcidas estão ouriçadas mas nem

os crentes nem os mórmons nem

os pacientes do hospital do câncer

parecem ligar. a moça brinca com

o bebê e quer saber uma linda

menina e quer porque quer saber

de tudo que se passa que passa

na avenida algo tortuosa mas

inacreditavelmente livre de

congestionamento a essa hora.

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