Sábado, 11 de Abril de 2020 - 05:01

Notícias ribeirinhas em tempos de guerra e paz

por Janio Ferreira Soares

Notícias ribeirinhas em tempos de guerra e paz
Foto: Acervo pessoal

Fernando Gato Capado é meu vizinho à esquerda de quem olha o rio e, de há muito, anda meio “neuvoso”. Comecinho da manhã o encontro rastelando umas folhas que o vento da noite jogou no seu terreiro e o provoco: “Preocupado com o vírus, meu Gato?”. No que ele, pigarreando baixinho, encosta o ancinho na cerca, tira uma seda guardada num tubo de Cebion sem tampa e, antes de jogar um punhado de Trevo sobre ela, responde: “você é quem devia se preocupar com essas suas canelas de sabiá baleado, pois soube que esse vírus gosta mesmo é de pegar véio fresco”, devolve de prima, como gostava de fazer Dr. Sócrates quando metia um calcanhar de responsa pra deixar seu parceiro na cara do gol. Em seguida, grita: “Ô mulher, traz um cafezinho aí pra nós!”.

 

Xícaras fumegando, açúcar diluindo e goles sorvendo lentos, observo-o fechando mais um dos vinte e tantos finórios que ele queima por dia e novamente o provoco, agora com um fake meio à vera: “você viu Dr. Drauzio no Fantástico falando que quem fuma pacaio anda brochando? Se eu fosse você dava um tempinho, principalmente agora que a patroa vai ficar umas duas semanas em casa e, sem muito o que fazer, você vai ter que comparecer, viu?”.

 

Esticando o pescoço pra ver se ela está na linha das palavras, ele chega mais perto e cochicha: “rapaz, agora você acertou em cheio. Pois num é que essa bonitona aqui anda meio bamba! E o pior é que morro de medo de tomar um azulzinho por causa da pressão, que às vezes sobe tanto que chega a zunir os ouvidos. E pra completar o samba, nesses dias a véia tá num fogo danado!”.

 

Pondero que ele devia se cuidar, fazer um regime pra tentar diminuir a enorme barriga que originou seu apelido, mas ele dá de ombros e continua: “você que lê muito, depois veja se descobre qual o problema disso aqui”, e me mostra o pacote de Trevo. “Mas eu não acabei de dizer que Dr. Drauzio disse que o fumo...”, “que porra de caralho de Dr. Drauzio, cacete! Tô falando é disso aqui, ó!”, e aponta a tarja amarela que traz o aviso sobre risco de câncer. E, quando tento lhe dizer que aquilo é justamente um alerta dos perigos que o fumo provoca, ele me corta de novo, dizendo: “o que eu desconfio, desconfio não, tenho certeza, é de que depois que eles botaram esse treco aqui alguma coisa mudou no produto, sei lá, só sei que a tragada e o gosto tão diferentes. Dê uma pesquisada lá nas suas coisas e depois me diga”.

 

Mais tarde, enquanto Mandetta atualiza as más notícias com a leveza que a vida negou ao mito, tasco no Google “Fumo Trevo”, e imediatamente surgem na tela vários pacotes com e sem a famosa tarja que Gato suspeita ser a causadora de suas angústias. Logo abaixo um “Reclame Aqui”, da Souza Cruz, traz uma carta onde um consumidor diz que fuma Trevo há mais de 20 anos e que, justamente depois que colocaram o tal aviso, sua textura, aroma e sabor nunca mais foram os mesmos. Pra piorar, ele diz que a partir dai começou a sentir irritação na garganta, nos olhos e ânsia de vômito e, pra tirar qualquer dúvida, por um tempo o substituiu por cigarros normais e os sintomas sumiram.

 

Dia seguinte corro pra lhe contar a novidade e ele – em meio à euforia da confirmação de sua suspeita e à alegria de ter encontrado a desculpa perfeita pra sua tosse -, exclama: “eu sabia que tinha alguma coisa estranha nessa disgrama!”. Em seguida, vai logo pegando uma seda e, antes que eu fale algo, diz: “agora que já sei a origem do meu pigarro, vou pitar até morrer”. “E essa bonitona bamba, como fica?”, atiço. “Oxi, você não viu na TV? Depois que o presidente foi pro meio da rua e disse que isso tudo é frescura a mulher foi trabalhar e me deixou em paz”. Ainda penso em lhe dizer que o capitão é um banana, mas deixo-o curtindo seus tragos e suas convicções.

 

Mais tarde é a vez de encontrar Severino, meu vizinho à direita, calmamente passando as mãos nos ouvidos. “Algum problema nas oiças, Severo?”. “Que nada. É que sem precisar ir pra cidade, faz mais de semana que não raspo esses cabelinhos aqui, ó, os que cressem bem nas pontas das orelhas. E você nem imagina como é gostoso ficar passando os dedos neles. Deixe crescer os seus pra você ver que delícia”.

 

Sigo meu caminho avaliando seriamente a proposta de cultivar uma penugem auricular à La Severo quando, sob um estonteante e calado entardecer, a mesma paz que um dia invadiu os corações de Gil e Donato, resolveu penetrar também no meu, o que me fez voltar pra casa pensando em mim, em ti, em nós e naquela bomba jogada sobre o Japão, que depois da grande explosão fez nascer o Japão da paz. Oremos.

Histórico de Conteúdo