Sábado, 21 de Março de 2020 - 05:01

Viva Lazzo, Viva João

por Franciel Cruz

Viva Lazzo, Viva João
Foto: Milton Ribeiro-Sul 21

lazzo é mais do que a alegria da cidade (muito mais)

 

 

 

Quando eu me guiava apenas pela ira/indignação juvenil, e lá se vão muitas décadas, costumava reclamar da indecência de não existir milhares de apresentações de Lazzo Matumbi, neste infernal calendário baiano. Mesmo que existissem milhares, ainda seriam poucas. E não me pergunte os porquês. Tem é que estar no pé da obra pra sentir, vibrar, dançar, viver. Aliás, quando eu me guiava apenas pela ira/indignação juvenil, e lá se vão muitas décadas, costumava repetir o ensinamento de Norman Mailer, de que homem que é homem não dança. Este sagrado preceito, óbvio, só era renegado quando estava na vitrola ou no palco a voz suingada e envelhecida em barris de maresia de Lazzo Matumbi. Nestas ocasiões, já vi defuntos muito mais decompostos do que eu balançar o esqueleto, com - prometendo todo o trabalho científico do Instituto Médico Legal Nina Rodrigues. Por falar em defuntos, quando eu me guiava apenas pela ira/ indignação juvenil, e lá se vão muitas décadas, cultivava uma impaciência infinda em relação a alguns poetas baianos, especialmente os do naipe de Ildásio Tavares. Porém, quando Lazzo, besuntado na ancestral espinha mole do dendê, entra na história salva até as almas penadas. Já me peguei não só concordando como elogiando o referido vate.

E isso aconteceu nem foi quando eu me guiava apenas pela ira/indignação juvenil, foi coisa mais recente. No início da década de 90, Lazzo participou de uma turnê na Oropa, França e Bahia abrindo shows para Jimmy Cliff. Tal fato provocou a seguinte reação do poeta Ildásio Tavares: “isto é um acinte, Jimmy Cliff é quem tem que abrir show para Lazzo”. Impossível deixar de aplaudir Ildásio, apesar de poeta e apesar de baiano. Lazzo é foda, sempre me faz pagar estes micos. Micos, não, king kongs monstruosos. Ontem não foi diferente. Lá na Ribeira, onde João abdicou de jogar capoeira pra namorar, quando dei por mim já estava com os olhos rasos d’água após ouvir sua nova oração (sim, aquele protesto/louvor sobre a ancestral situação dos negros de Pindorama não era apenas uma canção, mas sim algo muito mais transcendental). Ao chorar, cheguei à óbvia conclusão de que Lazzo não é apenas a alegria da cidade. É muito, mas muito mais do que isso. Não me pergunte o que é, pois eu terei que sacar do coldre uma das maiores culhudas desta província lambuzada de dendê, barulhos e exclusões: a de que o ano na Bahia (e também em uma banda de Sergipe) só se inicia depois do Carnaval. Nero ar. O calendário aqui e alhures nunca obedeceu a esta mistificação arquitetada, ensaiada e disseminada pelas bahiatursas da vida para enganar turistas, otários & afins. Aqui, os relógios gregorianos e julianos têm lógica diversa. Eles sempre acertaram seus ponteiros por outros sons. Aliás, revisor, retire o plural, pois a mudança se dá de forma singular: pela voz. Sim, minha comadre, não adianta fazer este beicinho. A verdade que salva e liberta é uma só: o ano na Bahia só começa efetivamente quando ouvimos o canto de Lazzo Matumbi. Ah, sim. Antes de continuar a homilia, faz-se mister sublinhar que estes prolegômenos iniciais são absolutamente inúteis, pois, com Ele no palco, o tempo nunca suspende seu voo. Também nunca envelhece (beijinhos no ombro, Alphonse de Lamartine). É sempre assim. É sempre diferente. A aurora da nova era de 2017, por exemplo, começou não com o tradicional suingue do suol, funk, mas sob o signo e as bênçãos dos ancestrais e imprescindíveis Batatinha e Ederaldo Gentil. Sofrer também é merecimento. Cana de açúcar, blues, lamentos, algodão, Robert Johnson e África, muitas áfricas. E as áfricas eram tantas e tamanhas que até mesmo o solene espaço do Teatro Castro Alves se transformou em uma festa de largo, depois que o sofrimento foi expiado, os demônios extirpados e Oxóssi passou a reger a chibança. Viva a Juventude do Garcia, os Filhos do Tororó e adjacências. Perdoem-me a pieguice. Pode ser a lua, o conhaque, mas sou obrigado a aquiescer: realmente, a Bahia tem um jeito. E tem jeito. Basta que não olvidemos jamais de que Lazzo Matumbi é a voz desta cidade. Aliás, minto. Ele, hoje, é mais do que a voz. É também uma das mais lúcidas consciências. Nestes tempos temerários, poucos têm a luminosidade de falar e cantar com tantas veemências e verdades. Chega de dança de rato. Axé, Negão.

 

 

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brasil, joão virá que eu vi!

 

 

 

No dia 2 de dezembro de 2007, o eterno ministro Gilberto Gil respondeu assim, quando questionado sobre o futuro do samba. “É o mesmo do país. O samba vai aonde o Brasil for. Se conseguirmos construir um país decente, teremos um samba idem”. Apesar de a assertiva insinuar algum sentido, coisa rara em se tratando do genial artista, a verdade, esta menina traquina, é uma só: há aí um equívoco colossal, noves fora o tropicalista entender muito de samba, e principalmente de Dia do Samba. Inclusive, participou da primeira edição do evento, em 1972, logo que voltou do exílio. Pouco importa. O fato é que a frase é bonitinha, mas ordinária. Sim, perdoe-me, meu querido ministro, nem deveria lhe dizer isso, até porque não gosto de contrariar meus ídolos, contudo, humildemente, sou obrigado a fazer o registro: ao vincular o destino de Pindorama ao de nosso ritmo ancestral, vossência cometeu a mais otimista e equivocada profissão de fé no Brasil. O samba e o destino da nação, meu craque, estão dissociados. Aliás, não só o samba. Nossa música popular em geral, apesar de todas as notas dissonantes, ainda continua muito melhor do que o país. Quisera que a vocação do Brasil seguisse estes nossos miltons sonoros. Sim, sei que a comadre ali encostada na vitrola já deve estar impaciente com esta prosa ruim travestida de crítica antropológico-musical, mas acabarei logo a agonia confessando que, mesmo sendo contra efemérides, rabisquei estes prolegômenos apenas para louvar o inoxidável João Gilberto, aniversariante deste aquático 10 de junho de 2017. Ah, sim. E também para colocar meus óculos de Dr. Pangloss e, mesmo que pareça e seja contraditório, torcer que a profecia de Gil se concretize e Pindorama, finalmente, mire-se no exemplo do cancioneiro nacional e, especialmente, deste jovem moço de Juazeiro que hoje completa eternos 86 anos. E já que falamos em eternidades, lembro que a primeira vez que vi João ao vivo já tem 30 anos. A explosão mágica aconteceu na gloriosa Feira do Interior, chibança que animava muito minha juventude querida que os anos não trazem mais. O show estava marcado para meia-noite, uma da manhã, mas deu duas, três, quatro e ele não chegava. E o locutor, tão idiota como só podem ser os locutores de evento daquele naipe, implorava. “Não vão embora. Daqui a pouco tem João Gilberto, um grande astro da MPB4”. Repetindo por extenso: emepebê Quatro! Cinco da matina e ele chegou junto com a aurora. Esta aurora que nunca chega e nos faz sempre gritar: chega de saudade de ter saudade do futuro. Que nosso destino seja João, conforme profetizou errônea e sabiamente Gilberto Gil, amém.

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