Sábado, 07 de Março de 2020 - 05:22

Avenida Brasil

por Carlos Navarro Filho

Avenida Brasil
Foto: acervo pessoal

Chegamos, como de costume, depois do meio dia. Ninguém madruga em um domingo só para chegar cedo ao botequim, mesmo que seja o seu preferido.

 

Umas e outras ao meu lado entrou resmungando pela falta de facilidade de achar estacionamento na Pituba, mas logo melhorou de humor quando o segurança da casa a viu e sinalizou que tinha mesa reservada.

Casa cheia, todos falando ao mesmo tempo, é difícil conversar em um ambiente assim porque precisa falar de muito perto, quase ao pé do ouvido, nesses tempos de corona. A opção seria também aumentar a voz. Ou apenas observar, olhar as pessoas nas mesas, os semblantes, a gesticulação, tentar entender o que falam e com quem falam.

A primeira providência ao chegar, contudo, é ir pegar o abará da baiana, também já devidamente reservado pela atenção e simpatia dela e escolhido entre os menos deformados pelo cozimento da massa na folha de bananeira. “É o melhor abará da Bahia” gabo-o em voz alta para ver o sorriso de satisfação dela. Mais tarde, ao sair, deixarei uma cervejinha paga porque depois das duas da tarde Dadá entra em campo que ninguém é de ferro e deixa o tabuleiro por conta das ajudantes, uma filha e uma neta. Às vezes, também um neto aparece nos fins de semana para servir os pedidos nas mesas. Sorve uns goles, deixa garrafa e copo em um canto no chão sob o tabuleiro e desfila solene entre as mesas cumprimentando a clientela amiga. Hoje ela está de iansã, senhora dos raios, mas não é porque está brava é porque era o traje mais à mão, diz a filha. Toda de vermelho, a grande saia rodada sustentada nas anáguas. Ela é filha de oxum, mas não guarda obrigação. Poderia estar de azul, amarelo, verde, nada a impede de cortejar todos os orixás.

Ao voltar à mesa, Abdias, Sergipe ou Reginaldo já trouxe o meu uisquinho, de clube, um bom investimento, e a jarra de água de coco para ela. Sento e começamos a saborear o abará dos deuses com vatapá e camarão, enquanto damos mais uma olhada ao redor. Constato que, aos poucos, o nosso botequim, que frequentamos desde o fim dos anos 1970, vai ficando um bar de velhinhos tarados. A maioria deles aparenta mais de sessenta, setenta, e maioria vira a cabeça à passagem das moças voltando da praia, sem qualquer preocupação com o politicamente correto, nem com a eventualíssima possibilidade de uma denúncia por assédio. Tem gente que fica de pescoço torto para admirar a beleza da anatomia feminina à passagem delas. Vale a pena correr o risco de torcicolo. Dia desses duas belas banhistas resolveram entrar para amenizar o calor e uma mesa septuagenária quase se desmonta toda. E ninguém pediu desculpas pelo mau modo. Faz lembrar o pé sujo de seu Antonio, na Paulo VI, no qual a moçada só de provocação ficava indo e voltado na calçada para desvario dos velhinhos em correria de um lado para outro, da porta ao balcão. Uma pena que o bar do seu Antonio fechou as portas porque a clientela foi morrendo e, como no serviço público que não há mais concurso, não foi substituída.

Absortos na observação do ambiente, impossível não perceber o tema do converseiro. Curiosamente era político. À exceção da mesa dos velhinhos do nosso lado direito ocupada em observar bundas, e de uma à frente em que se discutia o Ba x VI de logo mais, nas demais mais próximas a pauta era mais precisamente as diatribes de certo político em Brasília,  vezeiro em atacar índios, pobres e os jornalistas que cobrem a saída dele de casa para ir trabalhar. Aos repórteres ele diz que parecem gays, pederastas, viados mesmo. Às repórteres ele diz que elas oferecem “o furo” para conseguir a matéria. Pouco importa o mau gosto das “piadas”, a homofobia e a misoginia. Ele segue seguro porque ninguém terá coragem de o processar. Até porque se isso ocorrer ele vai alegar liberdade de expressão e nenhum tribunal superior dirá o contrário.

Pois bem, para nossa admiração em um número razoável de mesas as pessoas discutiam isso, reclamando da passividade da sociedade, porque ninguém faz nada. Em uma dessas mesas, tradicionalmente ocupada por militares da reserva a preocupação era a de salvar o Brasil. Demonstrada na irritação em alto e bom som contra o fato de as Forças Armadas estarem sendo “desmoralizadas” pelo tal capitão.

Se você não faz isso, tente uma vez. Vá ao seu bar popular e comece a observar o que as pessoas em volta estão falando. Você vai gostar, rir e se enriquecer com a variedade de assuntos, nem que seja com a briga do casal ao lado em que o homem compra filme pirata do vendedor ambulante que circula entre as mesas e a mulher o ameaça dizendo que não o vai tirar da cadeia se a polícia chegar.

- Sossega, diz ele, isso é o verdadeiro empreendedorismo brasileiro, além dele outros cinquenta milhões vivem assim. Haveria cadeia para todo mundo?

Sergipe, bota a saideira.

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