Sábado, 15 de Fevereiro de 2020 - 05:06

Oferenda d´amores

por José de Jesus Barreto

Oferenda d´amores
Foto: Solisluna Editora

Perdoe

cada palavra escrita

nem sempre bem dita

às vezes maldita

 

**

 

Como falar de tanta saudade

sem sentir dor?

Com que olhos revisitarei

lugares, recantos

que o nosso doido e doído amor

tornava tão belos, encantados...

tão irreais, naqueles fim de tarde

de outrora?

 

Como ciscar, sem medo

esse lixo de lembranças

onde minh’alma pulsou incontrolável,

onde meu coração se lambuzou

até não mais aguentar

de tanta tontura, doce-amarga loucura ...

Tão gostosa e insuportável paixão !

 

**

 

Ontem, ao vê-la

Queria comê-la

Ou só lambê-la.

 

Maldito desejo.

Preciso domá-lo

Mas, como fazê-lo?

 

**

 

Quero você

No eco do silêncio, no oco do escuro

Quero você

No dia claro, no breu da noite, no pôr do sol, ao amanhecer

Quero você

Nas madrugadas insones, no sono profundo, ao emudecer

Quero você

 

Nas nascentes, regatos, rios, corredeiras

Nas grotas, lagoas, grutas, cachoeiras

Quero você

 

No deserto, mar aberto, longe ou perto

Quero você

Na cama, na lama, na grama, na rede, em desvario

No calor ou no frio, sem medo, no ócio, no cio

Quero você

 

Enigma de outras vidas

Ontem, agora, amanhã, em cada lua

No limiar dessa solidão, tão sua

Quero você, nua

Em mim

Um querer sem fim !

 

*

Perdoe-me, demorei a perceber

Que nenhuma importância havia

Nesse meu tolo querer.

 

 

**

 

Quero mesmo é ser teu amigo-amado

Nem demais e nem de menos

Nem tão longe, nem junto sequer

Na medida mais precisa que couber.

 

Quero amar-te sem medidas, de graça

Sem preconceitos, cartilhas, cobranças

Aquietar-me de mansinho em teu espaço

da maneira mais discreta que puder.

 

Sem tirar tua liberdade

Sem jamais te sufocar

Sem forçar tua vontade

Apenas te fazer voar.

 

Silente quando for hora de calar

Falante no momento certo de dizer

Nem ausente nem presente por demais

Simplesmente, calmamente, ser a tua paz.

 

*

.. É bonito ser assim

Amado, amante, amigo.

Mas, confesso...

É difícil aprender a assim ser.

Por isso, te suplico:

Tenha um pouco de paciência comigo.

Prometo encher todos os teus sentidos

de boas lembranças.

É só esperar um pouco o tempo

aparar nossas diferenças

encurtar nossas distâncias.

 

 

**

 

Daria minha vida para tê-la, aqui e agora

Daria minha vida para nunca tê-la conhecido

Mulher

Tua ausência me despedaça

Tua presença me devora

Onipresente enigma

Inesgotável fonte de todos os desejos

E tormentos meus.

 

 

**

 

Sonhe que estamos sós e que o mundo se acaba amanhã.

Espera só, vê o que acontece.

Não estranhe os gritos, não tema, nem ligue ...

São apenas gemidos vindos do mais profundo da terra

Dores, prazeres, ais infindos...

que brotam, ecoam enquanto a gente, à mercê,  espera

esse tal de apocalipse.

Já, pois, entreguemo-nos à dança, aos rituais do amor,

antes que toquem as trombetas

e tudo se finde.

 

 

**

 

Os olhos se fecham de saudades

E vejo flores

Rosas

Rosas vermelhas

como aquelas que roubaste naquele fim de tarde

nos jardins de uma casa de paredes brancas e portões verdes

Aracaju emanando verão

Varandas enfeitadas de flores

vermelhas, brancas, amarelas, lilases, azuis...

O perfume exalando das cores

Teu cheiro

o cheiro de tua pele

Margaridas, cravos, angélicas, bromélias, manacás, crisântemos

Flores em penca encaixadas na orelha

enfeitando o rosto moreno

Cabelos longos negros em caracóis

Pétalas de rosas mastigadas,

gosto de carne viva

Pétalas vermelhas adocicadas de sangue.

Acaricio pétalas rubras como os lábios teus

e sonho

Criança perdida e feliz

na noite de tua distância

no risco de tua ausência

Sonho flores ...

flores amarelas, lilases, rubras, brancas, carmesins

rosas vermelhas, azuis, matizadas, rubis...

amarelas, brancas, vermelhas, lilases, amare... lila... ases... amar... elas ...

 

 

**

 

Décadas passadas,

guardo nítidas na memória

fotos de teu corpo

que, de olhos fechados, revejo.

A boca, no êxtase do gozo

A pinta safada na virilha

A penugem rala no pescoço

O seio suado, em tremores

A flor entreaberta exalando almíscar.

Imagens vivas que reacendem o fogo.  

 

 

**

 

Quando fores,

Deixai teu perfume impregnado em mim.

Ao voltares,

Trazei-me frescor das veredas do sem fim.

Que a ida nunca seja para sempre

E a volta tenha olores de manhãs.

 

*

 

É muito difícil dizer adeus, quando se ama.

 

 

**

 

 

Vês esse pássaro avoado rondando teus sentimentos?

Não tentes prendê-lo.

Engaiolado, nunca o terás.

Deixe-o solto, livre, a bater asas.

E ele estará sempre perto, soprando encantamentos

Como um sinal de Luz

Manifestação de amor.

Esse pássaro avoado, voejando sua sombra...

Sou eu.

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