Sábado, 08 de Fevereiro de 2020 - 11:10

Caminhos leves e discretos

por Florisvaldo Mattos

Caminhos leves e discretos
Gravura: Valtério

AO DEUS DO VINHO E DA INSPIRAÇÃO

                        (Com Baco na vindima)

 

                        A Paulo Martins, poeta, escritor e amigo

 

 

 

Condenado a viver por entre grades,

Do alto em que me despenco, serra acima,

Os dias passam, e eu, sentado em cima

De uma pira, desvio tempestades.

Encontro Baco, perto da vindima.

Leio para ele versos de Propércio.

O deus lamenta quedas de comércio

E busca na Ásia de Cibele a estima.

Baco venera versos bem traçados.

Ele me fita, banzo, e pede rima,

Que não seja de pano sem bordados.

Vou para casa. Volto. Ele se anima.

            Sabor e sonhos nunca interditados:

Trago na mão dois sóis engarrafados.

           

 

 

 

 

SONETO ROMANO

                                   A Valdomiro Santana, crítico e ensaísta

 

                                   Quin etiam, Polypheme, fera Galatea sub Aetna

                                   Ad tua rorantis carmina flexit equos.

                                                           Sexto Propércio (Elegia III, 2)*

 

Não sou Orfeu, não sei deter os rios,

Nem toco flauta no portão do Inferno,

Para tirar do Amor grilhões sombrios

E postá-lo na margem em que aderno.

 

Não sou Camões; Calíope não me ensina

Os caminhos do mar. Vou para o bosque.

Sei que irão perguntar-me adiante quousque

Tandem há de durar a minha sina.

 

Socorre-me, Pound. Leve o barco e o remo,

Guarde-os perto do campo de azaleia.

Se mais seguros, lá, mais bem guardados.

 

Oh, Propércio, avise aí a Polifemo

E me deixe no Etna com Galateia

Montada em seus cavalos orvalhados.

 

 

*”E mais ainda, Polifemo, Galateia, no sopé do fero Etna,

Aos teus cantos desviou os cavalos orvalhados”.

(Sexto Propércio, Elegias, trad. Maria da Glória Novak, 1992).

 

 

 

 

 

SOB ARCOS DO PARNASO

 

Tudo começa quando Sileno ama.

Quando a noite do desconsolo baixa,

A solidão semelha-se a uma caixa,

Em cujo fogo o coração se inflama.

 

Pego um livro de páginas amargas

E vou direto ao poema que me chama

Ao íntimo fulgor – ele é todo chama

De um coração que não divide cargas.

 

Subo e desço serras, enfrento vagas.

Vou por caminhos, sinto que me resta

Alívio redentor de contas pagas.

 

“Tristezas não pagam dívidas”, dizes.

Por isso é que passeio por floresta

De amor, de canto e pássaros felizes.

 

 

 

 

 

DIA DE COSTA AZUL

 

Oh, infinita areia ainda insone,

Na clareza do dia que me acorda,

Trazes-me uma canção que ouço da borda

De uma janela sobre a rua em cone,

 

Que guarda amor secreto, sem luxúria.

Ouço o quieto mar pronunciar meu nome

E numa árvore um pássaro com fome,

Temendo, como nós, da morte a injúria.

 

Em meus sinceros olhos a luz avança.

Pretérito que foi, o dia azula,

Pelo ar que sopra vozes de criança.

 

Miro o céu que se torna cor-de-rosa.

Da tarde leio a fulgurante bula,

Feliz, aguardo a noite clamorosa.

 

 

 

 

 

ODE AO TEMPO SUCESSIVO

                       

Eunt anni more fluentis aquae.

                         (“Os anos se vão como a água que flui”)

                                               Ovídio, Ars amatoria (3.62)

                        Omnia fert aetas, animum quoque.

                        (A idade leva tudo, até a memória)

                                               Virgílio, Bucólicas (9,51)

 

 

Muitos disseram, outros quiseram dizer, mas não disseram.

Talvez. Digo eu, então, olhando o mar de azul sonoro e vário,

Em frente, ou ao sol, revisitando árvores e caminhos de antes,

Imperecíveis. Tempo, senhor do mundo, varando luzes e trevas,

Nunca haverás de parar, nunca?

 

Mudo, disparas bola a rolar com o volume das noites e dos dias,

Que à frente navegam céleres, sem travas, nem conhecidas leis.

Tempo, senhor do mundo, de onde vens e aonde irá a tua máquina

De fomes insaciáveis, em teu infinito vai-e-vem de ausências?

Na varanda, sorvendo uma taça reluzente, miro o ignoto mar, o mar

De azul ora maciço; miro a rua de tráfego nervoso, envelhecendo

Meu duro chão que faísca.

 

Tempo, senhor do mundo, que sepulta meus sonhos, cala meus

Íntimos brados e longas vigílias, de onde vens e para onde vás?

Subindo e descendo solos íngremes, fazes de mim o que serei:

Somente esvoaçante pó.

 

Observo teus afiados dentes sobre mim, logo sobre todas as coisas.

Se até a memória levas-me, diz-me para onde levarás a minha alma.

Por que não me fazes feliz, antes de minha morte, por que?

Devoras a luz que nos espera na noite funda, lá onde ambos dormimos.

Por que disseram que foges?

 

Quantas verdades disseram outros: bem mais depressa que o vento, foges.

Doem-me os braços, minhas pernas cedem; já não mais seguro os remos.

O jequitibá de ontem pereceu; sapucaias e louros são hoje turva cinza.

Por serranias, céu claro, nuvens negras, fluentes águas, sem que ninguém

Te veja, nem eu, escapas.

 

Marchas, absoluto e irrefreável, por vazios de infinitas errâncias,

Sem nenhuma força capaz de mudar ou apagar o que deixas para trás.

Oh, Tempo, que posso fazer de ti, se passas, veloz e irrecuperável,

Forjando idades, se não sei o que me darás ao fim da brônzea tarde?

Se vais, corres, nadas, voas, sobre leito onde fluis, sem voltar jamais,

Não importa. Montado em tuas águas remotas, hoje, amanhã

E depois, irei contigo.

 

 

 

 

 

OPIÁRIO OUTONAL

 

Ao amigo Fernando Santana, presidente do Bahia British Club

                                              

Nemo est tam senex, qui se annum no putet posse vivere*

                                                                                  Cícero (106-43 a.C, De Senectute)

 

 

Manter-me silencioso, eis a questão.

Se as águas todas dobram, mar revolto

Segreda-me que estou perto do fim,

Ouço-o como obra mais para o assombroso.

 

Meu sonho é estar aqui um tempo mais,

Marchar nas suaves ruas de meu ontem

E, abraçado com sonhos juvenis,

Descer ligeiro para o rio embaixo.

 

Ai, coração, por que, de manhã cedo,

Já me aturdem punhais de solidão,

Que me arrastam para um jardim sem flores,

Frias areias de uma praia morta?

 

Busco o que está distante, mais à frente,

O que somente o coração permite,

Deixando para trás ventos perversos,

Águas de tempestade, chão de olvidos.

 

Experiente andarilho nas estradas

Do ignoto, sei por onde passarei,

Por estações de trem abandonadas,

Por campinhos de grama que se foram,

 

Muitas ladeiras de torrão vermelho

Mares e céus azuis, sem arco-íris,

Samba em vitrola, sons de cabaré,

Noites varando a Praça Castro Alves.

 

É velho para alguns; para mim, nunca:

A noite nos oferta a madrugada.

Com esta, saberei que passa, passa tudo,

Mas que a manhã se abraçará comigo.

 

Por esses caminhos leves e discretos,

Seguirei, para sempre iluminado.

Sábio, ao fim, meu silêncio me dirá

Que comigo estará tudo que eu amo.

 

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