Sábado, 23 de Novembro de 2019 - 05:11

O círculo de fogo adormecido

por Carolina Freitas

O círculo de fogo adormecido
Foto:Érico Amaral

Não sou a donzela em perigo
que todo homem espera
Sou minha vilã, minha heroína,
cheiro a flor mais bela,
ergo a espada e mato o dragão.
Sou a fera
que come os sonhos,
a docilidade etérea
que os alimenta.

 

 


Nem só de amor vive o verso.
O aperto que tragiversa grito
pode espelhar sentimento proscrito
no coração de alguém.

 


A força das palavras
mais robustas quando escritas,
as que precisam ser gritadas,
as que num sussurro são ditas,
todas elas hoje restritas...
Elas que sempre se arrumam
em grandes composições bonitas,
todas elas, sem engano,
só querem dizer
te amo!

 


Para aliviar
o que há de incerto
te quero perto.
Tão, tão
que dentro,
que não haja olho aberto.
E quando longe estivermos
que o perto seja liberto
pelo que há no centro desperto.

 


Não guardo o que sinto.
Ter um sentir
e não dizer
é lírio em lápide:
beleza que o dono não aprecia.
Quando esgoto a poesia
e ainda explodo em sentimentos
tudo que tenho
é meu corpo
e dou para você.

 


Deito, leito, seu peito,
cortinas vermelhas,
flamejante errante defeito,
o ângulo que vejo é o da cama.
Aquela em que qualquer ponta
se derrama e geme.
A que aceita a sede da boa uva,
que recebe complacente
a vulva desnuda...
Tudo que consigo falar hoje
é da perspectiva da cama.
Aquela na qual
sou sua serva, sua ama.
A que vira tela
pra um mar de pintas beijadas.
A cama onde a gente se ama.
Todo ângulo que vejo é do âmago dela.

 

 

Me navega
mas se nega
ao mergulho.
Afundar o remo em mim
não diz que me conhece,
apenas que quer saciar seu desejo desbravador.

Oh, como fêmea
sei muito de ser salgada,
da que molha
e da ressecada
de escanteio ao sol.

Não é você,
mas sou eu
espelhada na composição da lágrima
que te escorre.

Lembra sempre que não tenho cheiro...
Te conto um segredo: também não tenho cor, nem gosto...
Mas sou indispensável
para diluir sentimentos.

 

 

Se eu disser à mão: não...
o corpo deixa de ter prazer?
Se eu disser à boca: cala...
os suspiros arfados morrem sufocados?
Nunca digo não...
Estou sempre em comunhão com meu desejo.
Todas às vezes, na minha imaginação,
te pego, te amo, te beijo...

 


Calcinhas molhadas,
puxadas de lado,
emboladas ao pé,
tiradas com pressa.
Dedos atrevidos,
enxeridos,
mergulhados até o fim.
Corpo que arqueja,
boca que te chama.
 

 

 


Lágrima
pedido ao universo.
Súplica:
do que há, reverso.
Seca.
Antes, rosto, mão
molha o chão
irriga o verso.
Cinzento
quando já era
pra abrir em primavera.
Cessa o medo
que esta força te rasgue...
Se abre
botão ensimesmado.
Mostra seu esplendor.

 


Hiberno, interno intento.
Rumino, destino confesso.
Ciclo assim, ciclo reverso.
Nasço, vivo, morro, recomeço.

 

 

 

 

Não usamos a mesma regra
nem a mesma métrica
nem métrica usamos.

Não usamos a mesma régua
nem mesmo a mesma reta
nem reta usamos.

Mas vejo
sei e digo
Vamos desmedidos na curva do infinito.

Não andamos a mesma légua
nem é vera a trégua
que nem sequer tragamos

Não bebemos da mesma água
nem mesmo afaga a mágoa
o vinho que brindamos

Mas sei
digo e vejo
E sigo contigo curto-circuito desejo

Usamos a mesma língua
em toda amplidão ambígua
na poesia que criamos

...

Mas digo
vejo e sei
...

Somos o círculo de fogo adormecido,
queimando por dentro, no centro,
pronto para explodir.

Somos o núcleo em expansão,
bomba atômica na caixinha
guardada dentro de cada um.

Somos o big bang.
Tudo que já existiu e já resistiu,
isto somos nós.

 

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