Sábado, 02 de Novembro de 2019 - 05:01

Por que não matei Zé Bigorna

por Uaçaí Lopes

 Por que não matei Zé Bigorna
Foto:acervo pessoal

                                             Aos meus amigos Paulo Sérgio Smera Nunes,          

                                             in memorian, José Alves Martins Filho e Jorge                                                                     

                                             Martins da Silva.

           

 

 

Digo logo: quando cheguei ao local combinado para nossa briga ele já estava morto e da maneira mais idiota.

            Zé Bigorna era meu melhor amigo. Não, minto. Era Zequinha Jegue Ruço. Nós três formamos a terceira curriola da rua dos Oitis.

Naquele tempo, toda rua no interior tinha seus bandos. Hoje, nesta era global e digital, a vida vale muitíssimo menos. A polícia mata sem nunca dizer chega. Anda-se aterrorizado. Vacilou, dançou. Livrarias fecham-se, abrem-se, cada vez mais, clubes de tiro, fábricas de homens-bomba e de quem, porque isso é que é o máximo, vai a uma escola, fuzila quem encontra pela frente e se mata em seguida. Adolescentes e jovens aos montes, de tão vazios, morrem entupidos de drogas; e há os que, com profunda depressão (inclusive crianças), por causa de uma desgraça chamada bullying, automutilam-se ou suicidam-se. Para não falar na legião de feminicidas, de padres pedófilos e de políticos ladrões. Que tempo, este!

A primeira turma barra pesada na rua dos Oitis foi a de Jesus, meu tio, irmão de minha mãe; lá, ele e Tonho Taca mandavam. A segunda, a de meus dois irmãos mais velhos, Lau e Budu. A terceira e última foi a minha.

Aos doze eu já carregava meu badogue e uma capanga cheia de bolas de barro. Aos quinze, meu tio me ensinou a usar navalha; me dera a dele, alemã legítima, uma Solingen, que ia comigo no bolso interno do calção, só não a levava para o colégio. Me chamavam de Mãozinha.

Revólver era coisa de covarde. Briga de homem pra valer tinha de ser na base da porrada de mão e do chute. Navalha, canivete e faca peixeira de doze polegadas eram outras armas brancas aceitas.

Quando meu tio se mudou para a capital, Tonho Taca entrou para a Marinha. Aí, a clareira de respeito foi aberta na rua por meus irmãos. Perdi a conta das brigas que eles tiveram com os caras da rua do Sol e o bando da Najé.

Zé Bigorna, três anos mais velho do que eu, era quem ia na frente e, no pedaço onde o pau ia comer, gritava: “Cadê os machos daqui? Estão debaixo da cama ou ainda vestindo a calçola?”. É claro que muitas vezes ele se fodeu. E nós com ele. Quase perdi um olho. Então a gente sossegava, mas por muito pouco tempo. Depois recomeçava.

Meu irmão mais velho se casou e o outro foi ser fazendeiro em Pilão Arcado, à beira do São Francisco. Tive então de provar que eu honrava minha raça. Nos Oitis, eu era o chapa. Mas Lau tinha me dito: “Nunca fique sozinho. Bigorna e Jegue Ruço têm de encardir junto com você”.

E assim foi. A primeira coisa a fazer era dar uma surra nos caras da rua do Sol. Correu tudo como combinado. Num sábado bem cedo, antes da feira começar, partimos pra cima. Ataque de surpresa. Bigorna quebrou três, um deles ficou aleijado. Jegue Ruço deu cada pontapé. E eu, com um cacete de guatambu e não sei quantas badogadas, acertei os que me juraram de morte. Só não usei a navalha.

Foi uma briga que nos encheu de orgulho. Mas, dias depois, a vergonha: Zé Bigorna cantou uma menina, Dóris, dez anos, que morava na rua do Cajueiro. Filha única de dona Leonor, professora na Escola Normal, e de seu Ubaldino, alfaiate. Com ela namorava escondido. Um dia a levou para um beco atrás do mercado velho, lambeu e amassou toda, mamou, comeu a menina de todo jeito que quis.  E depois saiu espalhando.

“Que filho da puta mais escroto”, eu disse quando me contaram. “Isso não se faz com uma menina e depois ainda sair espalhando. Isso não vai ficar assim”.

Mandei recado por Canelinha de Cinza, nosso mensageiro. Que, para mim, ele, Zé Bigorna, estava “abaixo de cu de cachorro”, e eu o chamava para a briga. Marquei o lugar, dia e hora. Canelinha de Cinzas, que nunca deixou de dar um recado, confirmou.

Mas quando cheguei Zé Bigorna já estava morto. Bestamente morto. Disseram que quando foi atravessar a rua uma bicicleta o atropelou, e na queda ele bateu a cabeça no meio-fio.

Acontece que, antes de tudo, houve um acontecido que ninguém soube; ou, se alguém soube, foi coisa para não comentar. No dia da morte, bem cedinho, Seu Crescêncio, mecânico da oficina em frente à minha casa, e o pai de Dóris, que haviam investigado os hábitos, horários e trajetos de Zé Bigorna, viram-no sair de casa para ir buscar o leite no Campo Limpo. Quando ele atravessou a rua, caíram-lhe em cima, cada um com uma barra de ferro, e o arrebentaram até matar.  Foi o que me contaram ao pé do ouvido.

Voltei logo para casa pensando, não triste, nem frustrado. Zé Bigorna era só força bruta — e repugnante por cima. Eu, que usava mais a cabeça, estava pronto, com a navalha no bolso de meu calção, treinado por meu tio para ser bem ágil e certeiro. Daria um golpe, um só e fundo, na garganta daquele sacana.

Histórico de Conteúdo