Sábado, 19 de Outubro de 2019 - 05:01

O coração é uma ilusão

por Carolina Freitas

O coração é uma ilusão
Foto: Acervo pessoal

Microcontos

 

 

Sobre TPM

 

Alguém bate insistentemente à porta. Não quero, mas levanto, vou ver quem é.

Mal rodo a maçaneta, já entra de assombro, tomando todo espaço com seu ímpeto. Marca presença, não se espreita por cantos. Fica ali, como um jarro no meio da sala. Impossível ignorar.

Instala-se. Assenta-se de mala e cuia, muda os moveis de lugar, arranca todas as decorações. Não concorda com meu padrão de gosto. Já não conheço mais o espaço. Estranhamente não sou eu, mas sou eu mesmo assim.

Age como um Deus perverso. Roteiriza mentalmente a vida de todos com os quais interagimos. Diz quais são todas as frases doces e subservientes que devem nos oferecer. Naturalmente não acontece. Se enfurece, me descabela, me suga e permanece lá.

No quinto dia, já vou lá, juntando os caquinhos, tentando sutilmente pregar as coisas na parede, como se pedisse desculpas por querer ordem na minha casa. Passa uma semana, me exaure como um mês.

(Há quem diga que menopausa é como uma eterna TPM, eu te digo: Deus me livre. Viveremos eternamente no inferno).

 

***

 

Vou ressaltando o que é importante. Alheio ao resto, pinto num manifesto o que me é relevante (parece até que sou eu que digo). Quando marco sou como um grito. Amplifico o que me interessa, desdenhando da obra toda volumosa que se desdobra e se expressa. Se contenha ao que me convém, digo-lhe como num excerto. Assinado, eu, Marca Texto.

 

***

 

Céu, um dia te bebi. Provavelmente não se lembra, era novembro, você não chorava, mas em nuvem se adensava e nos envolvia. Fechei o olho, estiquei a língua, te sorvi. Seu gosto levemente salgado, soro fisiológico vital. Um dia me nutri de você e nunca mais te perdi.

 

***

 

Te sinto no ar. Espero a poeira assentar para ter sua presença fluida. Inesperado, gostoso e amargo como a vida. Preto forte, soberano de tantos, por vezes esperei sua invasão...

Não me comanda, mas oh, como chega quente e desejado. Abro a boca para receber sua explosão e te sorvo gota a gota.

 

***

 

Instagram e Facebook: Rede de nadas. Fisgados por uma ilusão de onipresença vazia. Deuses toscos comunicando-se por sticks e like do like.

Um dia me disseram: o coração é uma ilusão...dois clicks e estão mais que certos.

 

***

 

A vida na metáfora do bolo.

Tantos ingredientes previsíveis. Cada um com sua receita. Um jeito mais ou menos padrão de fazer. Tempo regular. Não abre o forno antes.

Preocupamo-nos tanto com isto. Fazer o bolo parece o principal, mas, pense bem...

O que fica na memória são as pequenas transgressões. Raspar a bacia com o dedo. Lamber a colher de pau.

 

***

 

A forma com que algumas coisas ficam.

Tantos foras. Amarguei seu não querer travestido de fidelidade.

Um dia, fatalidade (para mim, penso eu), num golpe de crueldade, à sombra de uma possibilidade, meu Deus, que maldade, trouxe um disco dos Beatles, achando que eu julgaria sensibilidade, iria me abrir de novo e você, me comer.

Ridícula jogada, pessimamente ensaiada, terrivelmente orquestrada, que pra minha sorte não deu em nada.

Peguei bode dos Beatles, coitados, nada fizeram, não são culpados da sua insensibilidade, insegurança, incerteza.

Ri na sua cara, que malvadeza. NÃO BOTA ESTE DISCO PRA TOCAR!!!

 

***

 

Acordou no limite da hora mais escura, na perspectiva do raiar do dia. Medita porque se conecta. É um processo. Encosta a mão na testa, o dorso de uma mão na outra e a palma da outra mão aberta, fecha o olho e chama: Meu Amor...vem. O raiar recente se rebobina ao estrelado êxtase. Abre o olho. Sorriem o sorriso mais legitimo e cumplice. Abraçam-se. Que bom que você está aqui! Partem para a sua jornada. Cada qual no seu canto com o outro dentro. Se falam com a palma da mão, compartilhando insights como sementes plantadas em outras terras férteis, nutridas por amores diferentes, sobretudo nutridas de amor. Ela lhe manda um texto sobre a casa na praia, os celulares se desligam e eles se reencontram novamente. A casa tem um cheiro quente. A atmosfera é tão leve que se ao reverso da equação pudesse ser pesada, sua medida tenderia ao infinito. Conversam, riem, se beijam e se amam. Deitam com o outro. Acordam com o outro. Meditam. Se reencontram.

 

***

 

Ela me chama pontualmente. Na verdade, já levantei há muito tempo, mas quando ela chama é que acordo. Vem, diz, e me espera com as mãos impostadas na testa. Devo encostar minha testa na mão dela para estabelecer uma de nossas mais fortes ligações. Fechamos o olho. Vou longe, mas dentro. Fundo escafandro abissal. Somos o peixe e a lanterna. Íntimos, interdependentes, um só. Olhos no seu olho marrom aquilino antes de irmos trabalhar. Sinto sua respiração perto da minha mais uma vez e aproveitamos daquele ar compartilhado. Vamos em outros caminhos, mas tudo queremos juntos. O olhar dela me abraça, ela sorri com meu ver das coisas. Nos falamos incessantemente e logo estamos juntos. Tudo que fazemos tem todo sentido, todos eles. O cheiro da comida na nossa casa ele é inebriante, os vinhos promissores, os livros discutidos fascinantes, as músicas ouvidas embaladoras. Ela constantemente agitada, sempre com algo a fazer aqui e acolá. Anda pela casa e me contempla sereno no sofá. Estou sempre tocando. Ela pede trilha sonoras. Por vezes tira meu violão do colo, diz que é ciúmes, que também quer ficar ali. Senta. Minha mulher aquosa, sempre tão úmida. Nos conectamos de novo, dentro, quente, camadas e camadas, Viagem ao Centro da Terra, núcleo, vulcão. Rimos porque nos amamos e temos segredos que só nós entendemos. Nos deitamos em seguida. Nem bem estou fora dela e já a tenho dentro de mim. Durmo, levanto, mas não acordo até ela me chamar.

 

***

 

Sobre esqueletos no armário.    

Sacudo o pó e o ranger da porta já não me assusta tanto assim...

Respiro coragem. Abro o armário e contemplo todos os meus esqueletos: aqueles que ficaram por anos guardados, socados. A simples possibilidade de haver um buraco por onde eles pudessem sair, me afligia.

São esqueletos, ora esta. Não tem mais vida, são instrumentos da tormenta. Vivem em fantasmas que nos assustam, nascidos de uma louca ideia que os personifica quando não são nada mais do que esqueletos. Constato, rio de mim mesma e nesta atmosfera, decido fazer uma festa.

Um baile para nos olharmos no olho e dançarmos. Para que eu os veja como inerentes da condição humana. Nada de vergonhoso há. Não adianta passar a vida sem encara-los. Esqueletos, condições humanas comuns que abominamos, mas que no contrassenso infernal, ao invés de liberta-los, trancafiamos dentro de nós.

A fogueira que aquece o baile é a madeira do armário. Vou dançar com um a um freneticamente, agradecer por terem vindo, dizer-lhes no final das contas que foi divertido, mas quando a música acabar e não houver mais brasa, peguem seus chapéus e vão embora.

Au revoir!

 

***

 

Um dia tiramos um mês para nadas. Foram pausas meditadas, entremeadas de outros nós. Cada raiar era o prenúncio de um profundo mergulho no escuro, ébano quente e acolhedor que nos nutre. Depois, um dia sem relógios, só dos ritmos biológicos e das nossas necessidades vitais peculiares nos alimentar de arte, nutrir o outro da esperança da poesia e pintar um quadro simbólico do mês de nadas. Isolados e paradoxalmente conectados a todos e tudo No fim do mês, já havíamos gasto todos os lápis e na necessidade da arte, recolhemos o resto da última fogueira e pintávamos o quadro a carvão igual a nosso coração negro feito do outro universo de escuridão.

 

***

 

Num mundo vazio de quase não leitores procuro, na cauda longa, meu nicho. Somos os esquisitos de hoje que não querem o raso, ainda que o mergulho seja em poças (tapar o nariz e chafurdar).

Quero os cavadores. Não há ouro na superfície (todo mundo sabe disto). Quem não se contenta em se dizer com pouco mas saiba, em outra mão a riqueza da simplicidade.

Que este grito não seja nostálgico. Velhos que julgam ontem melhor do que hoje

(ler mais de 10 linhas deveria ser atemporal).

Sigo a procura da cauda longa. Cão obcecado pelo próprio rabo.

 

***

 

Tempo,

O senhor é muito escroto! Quando se veste de Kronos, me impede de ter as coisas na hora que eu quero. Quando se veste de chuva, também.

Mas eu sou mais eu, Senhor! Sou mais eu! Desfaço fácil as limitações que me impõe e aqui dentro é como se tudo já tivesse acontecido, apesar de você.

Vejo a beleza dos transeuntes nos seus guarda chuvas, a solidão sutil do restaurante a beira mar vazio, a mulher que eu amo correr para um abrigo que não sou eu.

Histórico de Conteúdo